
Resumo
"Eles o chamaram de maldição. Ele se tornará o fim de todos." Zayto nasceu marcado, não por uma bênção, mas pelo desprezo dos deuses. Filho rejeitado de um tirano, abandonado num templo onde só conheceu dor, ele cresceu acreditando ser insignificante. Até o dia em que descobriu que carregava dentro de si algo muito pior que a morte: o sangue de um deus caído. Quando a voz de Zender, entidade ancestral, ecoa em sua mente, Zayto aprende a verdade: ele é a reencarnação da corrupção, um instrumento de vingança contra o próprio céu. Seu toque drena vida, sua raiva consome almas, e seu destino é desafiar Astaroth, o deus supremo que o condenou ao sofrimento.
Capítulo 1
Palácio de Molendoph – Ano 1450
A noite estava fria, tão fria que até mesmo as tochas que queimavam nos corredores do palácio pareciam tremer diante do vento cortante que assobiava pelas frestas das janelas de pedra. No interior do aposento real, o ar estava pesado, misturando o cheiro do sangue do parto com o incenso queimado para afastar os maus espíritos. As parteiras trabalhavam em silêncio, suas expressões tensas, enquanto a esposa do chefe, Lady Eleira, gritava em agonia, segurando as mãos ensanguentadas no lençol branco que já havia se tornado carmesim.
Do lado de fora, Sir Vander Molendoph, o homem mais temido daquela região, caminhava de um lado para o outro, suas botas pesadas ecoando contra o chão de mármore. Seu rosto, normalmente impassível, estava marcado por uma rara expressão de ansiedade. Ele não era um homem que demonstrava fraqueza, mas naquele momento, seus dedos se contraíam involuntariamente, suas unhas cravando-se nas palmas das mãos.
— Onde está meu filho? — Sua voz ecoou como um trovão, fazendo com que os guardas próximos se encolhessem.
Dentro do quarto, o último grito de Lady Eleira foi seguido por um choro fraco, quase abafado. Uma das parteiras, uma mulher de cabelos grisalhos e olhos cansados, segurou o recém-nascido em seus braços, limpando-o rapidamente com um pano úmido. Seus lábios se moveram em uma prece silenciosa, mas então seus olhos se arregalaram.
— Oh, não... — Ela sussurrou, olhando para as pernas do bebê.
A outra parteira, mais jovem, aproximou-se e seu rosto também se transformou em uma máscara de horror.
— O que há com ele? — perguntou a primeira parteira, ainda segurando o pequeno corpo.
— Olhe... suas pernas...
Era verdade. Enquanto o bebê chorava, fraco e ofegante, suas perninhas se moviam de forma desigual. A esquerda era visivelmente mais curta que a direita, e seus pés não se alinhavam como deveriam. Um defeito de nascença. Uma maldição.
A parteira mais velha engoliu seco. Ela sabia o que isso significava.
A porta do quarto se abriu com um estrondo, e Vander Molendoph entrou, seus olhos ardendo como brasas.
— Onde está meu herdeiro? — ele exigiu, ignorando completamente a esposa exausta que jazia na cama, suando e tremendo.
As parteiras se entreolharam, hesitantes. A mais velha, com mãos trêmulas, estendeu o bebê embrulhado em um tecido branco.
— Meu senhor... seu filho...
Vander não esperou. Ele agarrou o bebê com uma mão áspera, puxando o tecido para ver o rosto do recém-nascido. Por um breve momento, seus olhos se suavizaram ao ver os pequenos dedos se contorcendo, o rosto vermelho e franzido de choro. Mas então seu olhar desceu.
E ele viu.
A perna esquerda. Dois centímetros mais curta. Um defeito. Uma imperfeição.
Seu rosto se transformou em uma máscara de puro ódio.
— O que é isso? — sua voz era um rugido baixo, perigoso.
— M-Meu senhor, ele é saudável, apenas...
— APENAS O QUÊ? — Vander estrondou, fazendo as mulheres recuarem. — APENAS UM INÚTIL? UM ALEIJADO?
O bebê chorou mais alto, assustado pelo barulho. Vander olhou para ele como se fosse um verme, um erro a ser corrigido.
— Meu senhor, ele ainda pode viver uma vida normal... — a parteira mais jovem tentou, mas Vander a silenciou com um olhar.
— Normal? — Ele riu, um som seco e vazio. — Você acha que eu, Vander Molendoph, o homem que conquistou cinco aldeias e esmagou exércitos, aceitaria um filho que não pode nem andar direito?
Ninguém respondeu. O silêncio era pesado, sufocante.
Vander olhou para o bebê novamente, seu rosto uma mistura de repulsa e decepção.
— Ele não é meu filho.
E então, sem hesitar, ele estendeu o bebê para a parteira mais velha.
— Se desfaça dele.
A mulher pestanejou, incrédula.
— M-Meu senhor?
— Você ouviu. Certifique-se de que ele não sobreviva.
A parteira mais jovem soltou um grito abafado.
— Mas ele é inocente!
Vander virou-se para ela, seus olhos queimando com fúria.
— Inocente? Ele é um erro. Um fracasso. E eu não tolero fracassos.
A parteira mais velha, com lágrimas nos olhos, pegou o bebê novamente, segurando-o contra o peito.
— ...Sim, meu senhor.
Vander não deu outra palavra. Ele virou as costas e saiu do quarto, suas botas batendo no chão como um martelo batendo em um caixão.
A parteira mais jovem caiu de joelhos, soluçando.
— Nós não podemos fazer isso...
A mais velha olhou para o bebê em seus braços. Ele havia parado de chorar agora, seus olhos pequenos e escuros fixos nela, como se soubesse o que estava acontecendo.
— Não faremos.
— O quê? Mas o senhor Molendoph ordenou—
— Eu ouvi o que ele ordenou. — A parteira mais velha fechou os olhos por um momento, respirando fundo. — Mas eu não sou uma assassina.
Ela enrolou o bebê novamente no tecido, desta vez cobrindo-o bem para protegê-lo do frio.
— O que você vai fazer? — a mais jovem perguntou, ainda tremendo.
A parteira olhou para a janela, onde a noite estava escura e sem estrelas.
— Há um templo nos arredores da aldeia. Eles cuidam de órfãos... talvez... talvez eles o aceitem.
— E se descobrirem?
— Então que os deuses me julguem.
Sem dizer mais nada, ela saiu do quarto, segurando o bebê contra seu peito, desaparecendo nas sombras do corredor.
O vento uivava lá fora, como se o próprio mundo soubesse que algo terrível havia acontecido.
E em seus braços, o pequeno Zayto, sem saber, havia acabado de se tornar o mais rejeitado dos homens.
O insignificante.
A parteira avançou pelos corredores escuros do palácio, cada passo seu mais rápido que o anterior. O bebê em seus braços permanecia quieto, como se entendesse a necessidade do silêncio. As tochas tremeluzentes lançavam sombras alongadas nas paredes de pedra, criando figuras grotescas que pareciam seguir seus movimentos com olhos invisíveis.
Ela conhecia cada curva daquele lugar, cada passagem secreta que os servos usavam para não serem vistos. Suas mãos, embora enrugadas pelo tempo, eram firmes ao segurar o pequeno Zayto. O tecido branco que o envolvia já estava manchado de suor e sangue, mas ela o apertou mais forte, como se pudesse transferir seu próprio calor para aquela vida frágil.
— Por favor, não chore — sussurrou, quando o bebê fez um pequeno movimento.
O vento lá fora aumentava, uivando como uma alma penada. A parteira olhou pela janela mais próxima e viu as primeiras gotas de chuva batendo contra os vidros. "Bom", pensou. A tempestade encobriria seus passos.
Ela desceu uma escada estreita de serviço, seus pés descalços fazendo pouco ruído nos degraus de pedra. No fundo de seu coração, uma voz sussurrava que ela estava cometendo traição – mas outra voz, mais forte, dizia que estava salvando uma vida.
Ao chegar ao pátio dos fundos, a parteira se encolheu quando um trovão ecoou no céu. A chuva agora caía em torrente, encharcando seu vestido simples em segundos. O bebê estremeceu em seus braços, e ela rapidamente o protegeu com seu próprio corpo, curvando-se sobre ele como um escudo vivo.
— Só mais um pouco — murmurou, avançando pela escuridão.
O portão dos fundos estava fechado, mas ela sabia que a pequena porta dos fornecedores ficava sempre destrancada até a meia-noite. Seus dedos tremiam ao empurrar a madeira úmida, que rangeu levemente ao ceder.
Do outro lado, a aldeia dormia sob a tempestade. As ruas de terra batida já se transformavam em pequenos riachos lamacentos. A parteira não hesitou – dobrou o bebê dentro de seu próprio manto, protegendo-o da chuva, e começou a correr.
A caminhada até o templo levou mais tempo do que ela esperava. A chuva transformara o caminho em um atoleiro, e seus pés afundavam na lama a cada passo. Seus ossos doíam, seu coração batia forte demais em seu peito, mas ela não parou. Não podia parar.
Quando finalmente avistou as torres do templo adiante, um suspiro de alívio escapou de seus lábios. O lugar era antigo, suas paredes de pedra escurecidas pelo tempo e pelo musgo. Diziam que ali viviam os monges que cuidavam dos indesejados – órfãos, aleijados, velhos sem família.
A parteira subiu os degraus de pedra escorregadios, quase caindo duas vezes. Ao chegar à grande porta de carvalho, ela hesitou por um momento. O que diria? Como explicaria aquele bebê?
Antes que pudesse bater, a porta se abriu com um rangido. Um homem alto, vestido com trajes simples de monge, olhou para ela com olhos que pareciam ver além da carne.
— Eu sabia que você viria — disse ele, sua voz tão suave quanto o cair da chuva.
A parteira abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Seus joelhos fraquejaram, e ela caiu no chão, ainda segurando o bebê contra seu peito.
— Ele... ele vai matá-lo… — conseguiu dizer, as lágrimas se misturando à água da chuva em seu rosto.
O monge se ajoelhou ao seu lado e, com mãos gentis, pegou o pequeno Zayto de seus braços. O bebê, agora exposto ao frio, começou a chorar – um som fraco e triste que parecia ecoar na noite.
— Não tema — o monge sussurrou, acariciando o rosto inchado do recém-nascido. "Os deuses têm um plano para cada um de nós."
A parteira olhou para ele, seus olhos implorando.
— Qual é o nome dele? — perguntou o monge.
Ela engoliu seco.
— Ele... ele não tem nome. Seu pai o rejeitou.
O monge estudou o bebê por um longo momento, então sorriu, um sorriso triste, mas cheio de uma estranha sabedoria.
— Então nós o chamaremos de Zayto. 'O que sobreviveu'.
E enquanto a tempestade rugia lá fora, o pequeno Zayto, envolto em panos secos e calor, finalmente adormeceu nos braços daquele que seria seu primeiro protetor.
Longe dali, no palácio, Sir Vander Molendoph olhava para a chuva através da janela de seus aposentos, sem saber que acabara de condenar seu próprio destino ao rejeitar aquele que um dia iria destruí-lo.
O insignificante havia encontrado seu lar.
E sua história estava apenas começando.
