Capítulo 2
Zayto, agora com três anos, se sentava sozinho. Seus pequenos dedos, finos e sujos da poeira acumulada no chão, traçavam círculos lentos, formas que se entrelaçavam em padrões que apenas ele compreendia. Um barco. Uma espada. Um pássaro com asas quebradas. Os desenhos surgiam e desapareciam sob seus dedos, tão efêmeros quanto a paz que ele encontrava naqueles raros momentos de solidão silenciosa.
A poeira grudava sob suas unhas, misturando-se à umidade fria do chão de pedra. Cada movimento de seus dedos era meticuloso, quase ritualístico, como se ao criar aquelas formas transitórias ele pudesse, por um instante, controlar algo em seu mundo despedaçado. O círculo maior se tornava um sol. Linhas irradiantes se transformavam em espinhos. Uma figura humana distorcida, com uma perna mais curta – surgia antes de ser rapidamente apagada pela palma de sua mão.
Do outro lado do pátio, um grupo de crianças corria em frenesi, suas vozes agudas cortando o ar como facas afiadas.
— Pega-pega! Pega-pega! — gritavam, seus pés descalços batendo contra as pedras polidas pelo tempo.
O som de suas risadas fez Zayto erguer os olhos por um instante. Seus dedos pararam no meio de traçar o que poderia ter sido uma árvore ou talvez uma forca. O menino mais alto – Loran, com seus sete anos e cabelos cor de palha suja – liderava a brincadeira com a autoridade natural de quem nunca conhecera a rejeição. As outras crianças o seguiam como cordeirinhos, ansiosas por sua aprovação. Uma garotinha de tranças ruiva, Elmira, a filha do padeiro, tropeçou em sua própria agitação e caiu de joelhos no chão duro. O grupo inteiro parou, cercando-a com preocupação exagerada, rindo enquanto a ajudavam a se levantar.
Zayto olhou para suas próprias pernas, desiguais mesmo sob a túnica surrada que vestia. Seu pé esquerdo, envolto em um sapato adaptado com camadas de tecido para compensar a diferença, repousava em um ângulo estranho. Seus dedos contraíram-se involuntariamente, enterrando-se na poeira até as juntas ficarem brancas de tensão.
Uma sombra cruzou seu campo de visão, bloqueando momentaneamente os raios de sol que haviam sido seus únicos companheiros naquela manhã fria.
— Não se aproxime do aleijado — murmurou Irmã Margot, sua voz áspera como o raspado de uma lâmina contra pedra.
A freira mais velha do templo passou por ele como se fosse parte do mobiliário, seu balde de água de madeira balançando perigosamente e derramando algumas gotas no chão. As gotas caíram perto dos desenhos de Zayto, criando pequenas crateras na poeira que distorciam suas criações. A noviça que acompanhava Irmã Margot, uma garota não muito mais velha que as crianças que brincavam, talvez com seus quinze anos, hesitou por um segundo, seus olhos escuros pousando em Zayto com algo que poderia ter sido pena, se não fosse o medo visível que a fazia recuar um passo completo.
— Sua deformidade é um castigo dos deuses — continuou Irmã Margot, puxando a noviça pelo braço com força suficiente para deixar marcas brancas na pele pálida da jovem. — Um aviso para não desobedecermos às leis sagradas.
Zayto ergueu os olhos lentamente, seu pescoço dolorido da posição curvada. Ele não chorou. Não franziu o rosto. Já estava acostumado.
A noviça – cujo nome Zayto não sabia, pois ninguém jamais se apresentava a ele – abriu a boca como se quisesse dizer algo, seus lábios rosados tremendo ligeiramente. Mas Irmã Margot apertou seu braço com mais força ainda, suas unhas amareladas e grossas afundando na carne mole do braço da jovem.
— Você é nova aqui, — menina rosnou a freira, seu hálito carregado do cheiro de alho e vinagre que sempre a acompanhava. — Aprenda rápido: essa criança é intocável. Não por nossa crueldade, mas por vontade divina. Olhe para ele. Olhe bem.
A noviça, com um pequeno estremecimento que percorreu todo seu corpo magro, obedeceu. Seus olhos, um castanho tão claro que quase pareciam dourados à luz do sol, encontraram os de Zayto.
Ele manteve seu olhar fixo nela, seus próprios olhos, grandes demais para o rosto magro, verdes com estranhos reflexos âmbar sob certa luz, parecendo absorver a claridade do sol que entrava pelas frestas. Havia algo neles que fazia a garota estremecer visivelmente. Não era o olhar vazio de uma criança abandonada. Era algo mais antigo, mais profundo, como se por trás daquela máscara de inocência juvenil houvesse uma escuridão consciente observando, calculando, lembrando cada insulto, cada olhar de desprezo.
— Ele… — a noviça engoliu seco, seu pomo-de-adão subindo e descendo em um movimento nervoso. — Ele parece tão pequeno.
Irmã Margot soltou um riso sem humor, um som que saiu mais como um grunhido de porca do que como uma expressão de alegria.
— Até uma víbora bebê carrega veneno mortal — disse, puxando a noviça para longe com um puxão brusco que quase a fez tropeçar. — Venha. Há trabalho a ser feito e seu sentimentalismo tolo não alimentará os pobres.
Elas se afastaram, as sandálias de Irmã Margo fazendo um som de arrastar característico contra o chão de pedra, enquanto os passos leves da noviça mal se ouviam. Zayto as observou até desaparecerem no corredor escuro que levava aos aposentos das freiras, onde ele nunca tinha permissão para entrar.
Então, lentamente, voltou a desenhar na poeira, seus dedos agora tremendo ligeiramente, não de tristeza, mas de uma raiva fria que começava a formar raízes em seu peito.
Desta vez, seus dedos traçaram algo diferente.
Uma cobra.
Enroscada em torno de uma cruz.
E quando terminou, ele soprou suavemente sobre o desenho, fazendo a poeira voar e apagando qualquer evidência de sua pequena rebelião silenciosa.
