Você me Pertence {6}
Eu acordei com o barulho incessante de batidas na porta do meu apartamento. A minha cabeça estava latejando quando eu me sentei na cama, curiosa para saber quem estava aqui a uma hora dessa. Quer dizer, o sol já atravessa a janela invadindo o meu quarto, mas a minha mente não consegue aceitar que já é de manhã, talvez pelo cansaço presente em meu corpo.
Abro a porta logo depois de olhar pelo olho mágico, quem era a pessoa que parece impaciente do lado de fora.
— Porquê não me ligou? Eu fiquei preocupado quando já tinha se passado uma hora e nada de notícias suas!
Alan entra no apartamento, sem sequer me cumprimentar e eu fecho a porta atrás dele.
— Bom dia, para você também.
Me viro em sua direção e vejo ele se virar na minha, me encarando como se eu fosse uma louca.
— Mas em que mundo você está? "Bom dia"? Você sabe que hora é essa? — Ele questiona com o seu olhar passando atentamente por todo o meu corpo. — Você parece acabada.
Franzo o cenho com um beicinho no rosto, o ignorando e indo até a cozinha, ouvindo o meu estômago roncar.
— O que rolou? — Ele questiona, enquanto ouço os seus passos se aproximarem de mim.
Me viro em sua direção após servir dois copos de suco, pondo um em sua frente, em cima do balcão da ilha da cozinha.
— Fomos para o apartamento dele. — Comento e ele quase engasga com o suco, me encarando com os olhos arregalados.
— Safada!
Um sorriso sugestivo aparece em seus lábios, me fazendo corar ao lembrar de como foi deliciosa a sensação de sentir ele dentro de mim mais uma vez. O sorriso que estava em meu rosto sumiu rapidamente assim que lembrei dos últimos acontecimentos.
— Mas ele falou do contrato.
Encosto o meu quadril na borda da pia, olhando para o chão, pensativa. Eu não sei de verdade o que pensar sobre isso, pois os meus pensamentos são tão contraditórios. Uma hora eu penso que não posso me submeter a isso, e logo em seguida, eu penso se eu realmente não quero isso, talvez lá no fundo.
— Você não parece muito contente. — Ele comenta e eu assinto, tomando um gole do suco.
Eu não quero que ele veja o quanto estou deprimida com essa situação, mas acho que isso é impossível.
— Ele não me parece disposto a abrir mão, sabe?
— Mas que porra! Ele já não disse que gosta de você? Porquê isso não é atitude de uma pessoa que se diz estar apaixonada! — Alan exclama irritado.
A verdade é que lá no fundo, mesmo sem saber do que se trata, eu sinto que há um motivo para isso. Eu tenho certeza de que essa sua forma de agir não é por teimosia. Tem que haver algo que ele esconde de mim, mas sinceramente, não quero ter que ficar fritando a minha cabeça com isso.
— Falando de paixão; — Mudo de assunto lançando um sorriso sugestivo em sua direção. — Você e a Lorena…
Ele desvia o olhar rapidamente com as suas bochechas ficando vermelhas.
— Eu não sei do que você está falando.
Ergo uma sobrancelha já que eu realmente sinto que um clima rola entre os dois. Talvez a forma que ele olha para ela seja diferente…
— Vocês se dão muito bem, e sempre que estou entre vocês dois eu quase sinto uma tensão… vocês já…?
Sinto as minhas bochechas esquentarem, de repente me sentindo embaraçada. Um canto do seu lábio sobe em um sorriso sarcástico.
— Transamos? Mel, você está cada vez mais ousada. Eu deveria começar a me preocupar? — Ele questiona ironicamente, fazendo com que eu dê risada. — Não, nunca fizemos nada assim, Mel. Somos apenas amigos.
— Para começo de conversa, — Me apoio na ilha da cozinha, em sua frente com uma sobrancelha erguida. — eu ia perguntar se já tinham se beijado.
Ele balança a cabeça para os lados, negando e prendendo o piercing em seus lábios entre os dentes, parecendo distraído em seus próprios pensamentos.
Eu acho que ele está querendo evitar esse assunto, e isso é a maior prova de que ele ficou um pouco mexido com Lorena. Mas não insisto, da mesma forma que eu não gosto que as pessoas me pressionem a falar de algo, eu não irei fazer isso com ele. Mas ele não me escapa! Uma hora ou outra iremos conversar seriamente sobre isso.
Alan resolveu passar toda a tarde comigo. Eu tomei meu café e voltei para o banheiro para fazer minhas higienes e tomar um banho, enquanto ele estava jogado em cima da minha cama, assistindo uma reportagem e comendo uns biscoitinhos que pegou do meu armário. Ele estava sendo uma ótima distração, sempre puxando assunto e fazendo lanchinhos para mim. Afinal de contas, eu posso ter confiado nas pessoas erradas, mas mesmo que um dia Alan fosse um escroto comigo, eu jamais me arrependeria de o ter escolhido para ser o meu amigo. Ele realmente sabe me fazer bem.
— Quer falar sobre o que aconteceu na festa? — Ele perguntou enquanto eu estava dobrando e guardando algumas roupas, indo a todo o momento até o meu guarda-roupa.
— A festa?
— Sim, eu conversei com Lorena no caminho de volta. Ela me explicou o que aconteceu, você quer conversar sobre isso?
Bom, é verdade que eu fiquei bastante assustada naquele momento, mas também já havia esquecido. Nem parece que aconteceu ontem à noite.
— Ah, estranhamente… eu estou bem. — Dou de ombros respirando fundo, olhando para o filme de ação que está passando na televisão. — Quer dizer, na hora foi assustador e provavelmente eu passaria a noite inteira pensando nisso se não fosse por...
— Ele. — Alan me interrompe deitado na cama de lado, apoiado em seu cotovelo e eu assinto, desviando o meu olhar do seu.
— É…
Desvio o meu olhar quando um silêncio se instala. Eu encaro o cabide em minhas mãos, sentindo que a minha distração para não pensar em Benjamin está indo ladeira abaixo, pois eu até consigo visualizar as suas íris escuras me encarando com carinho, como no momento em que ele me abraçou.
— Conseguiu a vaga? — Alan questiona e minha atenção está novamente voltada para ele, que encara a televisão.
Semana passada eu tinha ido tentar uma vaga em uma cafeteria, deixei um currículo, eles disseram que iriam me ligar, mas parece que a vaga já foi preenchida. Isso é uma pena, seria perfeito trabalhar lá por conta de ser próximo à faculdade.
— Não, toda a minha experiência se resume à floricultura. Acho que eles queriam alguém com experiência em servir. Mas irei tentar uma vaga numa loja de roupas também próximo à faculdade. O lugar é grande e está precisando de atendente, acho que posso conseguir facilmente.
Ele volta a me encarar com uma sobrancelha arqueada na minha direção.
— Eu perguntei porque a minha tia está abrindo um ateliê de moda. Ela está precisando de funcionários, tanto de profissionais para a customização das roupas até de funcionários para a parte da loja. Meu pai estava pensando sobre isso e pediu que eu sugerisse isso para você.
Vou até o guarda roupa, pendurando um cabide, pensativa. Parece uma oportunidade incrível já que toda a família de Alan é de empreendedores, e parece que todos os salários são bem recheados. E, em se tratando de emprego para que eu consiga manter a minha situação financeira estável, eu não acho que tenho a opção de recusar.
— É muita gentileza dele pensar em mim. Eu ficaria grata se fizesse isso por mim.
— Ao seu dispor, princesa. — Ele me lança uma piscadela. — Falando em emprego… parece que substituíram a psicóloga.
Assinto dando de ombros. Isso não é algo que me parece interessante.
— Eu ouvi dizer que ela é bem gostosa. Parece que é estagiária.
Reviro os meus olhos, ainda não me importando com isso.
— É bom, tem pessoas que realmente precisam conversar ou que se sentem sozinhas. — Comento e Alan assente com um sorriso sugestivo.
— Acho que conversar não vai ser o motivo pelo qual vão procurar por ela. — Ele murmura maliciosamente e se levanta da cama, indo desligar a televisão em seguida. — Princesa, eu preciso ir, já está na minha hora.
Ele verifica a hora em seu relógio de pulso e eu levo o meu olhar até o meu relógio de cabeceira, que marca o fim da tarde. De certa forma, isso me deixa frustrada pois não terei mais nada que me impeça de pensar em Benjamin. Faço beicinho e ele se aproxima com um sorriso, depositando um beijo na minha testa.
— Se estiver carente de companhia, eu tenho certeza que o seu segurança não pensará duas vezes.
Sinto minhas bochechas corarem quando eu percebo o tom mais malicioso em sua voz.
— Jerry é educado, só isso. — Dou de ombros numa tentativa de parecer indiferente.
— Se prefere pensar assim... — Ele dá de ombros calçando os seus sapatos. — avise a Benjamin que ele tem um grande rival, não pense que eu não percebo a forma que você trata ele.
Ele se dirige à porta enquanto eu o encaro desacreditada. Ele acabou de insinuar que eu flerto com o meu segurança?!
— O que?! Não há nada de errado na forma em que eu o trato!
Sigo atrás dele, irritada. Vejo ele abrir a porta e se virar na minha direção com um sorriso irônico.
— É claro que não, princesa. — Ele gargalha e fecha a porta.
— Volta aqui!
Jogo um travesseiro na sua direção que acaba acertando a porta.
— Idiota!
Suspiro frustrada por não ter tido a chance de me explicar. Não vou negar que eu realmente venho tratando Jerry muito bem, mas isso é somente porque ele não é o tipo de cara de fácil acesso. Tenho o máximo de cuidado em ser simpática com ele para que tenhamos uma boa convivência e ele não aja como um robô sempre que estamos perto um do outro. Ultimamente, fora Alan e Lorena, ele está sendo a minha única companhia, então gostaria que tivéssemos uma relação amigável. Mas pensar que vendo de fora parece que estou flertando com ele, eu até fico com medo. Quer dizer, é de Benjamin que eu gosto…
E mais uma vez, qualquer linha de pensamento sempre me redireciona para ele. Mas dessa vez ele volta na minha mente para ficar, sem dar espaço para qualquer outro pensamento.
