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Você me Pertence {4}

Mordo o meu lábio tentando compreender as palavras, já que me parecem estar bem longes.

"Tudo bem senhor, mas não acha melhor nos revelar quem está por trás das cartas que vem recebendo? Assim poderíamos ser mais úteis para o senhor."

O pouco que eu continuei ouvindo a conversa entre eles, mostrava um Benjamin irredutível quanto a revelar quem é a pessoa. Eu me afastei da porta quando já não ouvi mais a voz dos dois, sentindo um conflito acontecer dentro de mim. Posso ficar aqui e fingir que não ouvi nada, até mesmo porque parece um assunto particular, porém posso descer e conversar com ele. Quer dizer, se ele realmente está em perigo, eu deveria saber, não é?

Respiro fundo, exasperada. Tudo bem que talvez eu não devesse me meter em seus assuntos, mas eu não posso fingir que não ouvi isso, e também não posso agir como se nada tivesse acontecido. Eu estou preocupada, e por este motivo, eu irei ao menos tentar saber o que está acontecendo. É claro que se ele não me disser eu irei morrer de curiosidade e preocupação, mas vale a pena tentar.

Abro a porta do quarto, de repente me sentindo nervosa, me deparando com um corredor, e logo na minha frente, o corrimão para descer as escadas, que inclusive, é diagonal. Eu tinha um plano inicial, que era conversar sobre a nossa situação em particular, mas agora eu nem consigo raciocinar direito, tomada pela preocupação e medo do que possa vir acontecer com ele.

Benjamin está logo no fim da escada, usando somente a sua calça moletom, parecendo nervoso e preocupado. Mas também, não é de menos. Se eu estivesse me sentindo em perigo ou sendo perseguida, eu surtaria. Molho os meus lábios o sentido seco e começo a descer as escadas, esperando que Benjamin me note, e assim acontece. Seu olhar vem de encontro ao meu e logo os seus ombros relaxam, dando a entender que ele estava tenso.

— Ei… — Ele murmura baixinho à medida em que eu me aproximo.

Olho para os dois lados em seu apartamento, tendo certeza de que a mulher já se foi e estamos sozinhos. A decoração não me passa despercebida, pois é tudo tão chique e extravagante. A maioria dos seus móveis são uma combinação de preto e branco, e logo se destacam. À minha direita, ao lado da escada, é possível ver uma sala, que mais se parece de lazer, se não fosse pelo enorme tamanho. De onde estou, é possível ver uma mesa de sinuca e uma lareira apagada. Havia um outro detalhe que na verdade eu já esperava, a parede é de vidro, com a vista completa dos prédios e uma parte do céu. A minha esquerda, logo próximo a porta de entrada, tem uma cascata artificial, quase como uma cachoeira que por acaso parece muito com a paisagem que presenciamos no dia da morte da minha mãe. É quase como se ele quisesse guardar uma lembrança do que tivemos. Ao lado da cachoeira, tem uma linda cozinha, com várias luminárias no teto e uma ilha com bancos ao redor. Uma luz que se move de cima para baixo, azul, ilumina o caminho até a cozinha, e eu sinto um aperto no peito ao imaginar o motivo disso. O que ele já fez com outras garotas aqui… pois lembro exatamente de quando chegamos aqui, nos beijando loucamente e desesperados para sentir um ao outro.

Ele limpa a garganta e eu volto a encará-lo.

— Benjamin, está tudo bem? — Ele me encara por alguns segundos, parecendo estar refletindo sobre, e quem sabe pensando numa possível resposta e fugir do assunto que eu realmente quero saber. — Tinha mais alguém aqui com você. Quem era?

Ele desvia o olhar e engole em seco.

— Sim, era só a minha chefe de segurança. Estava repassando algumas ordens para ela; — Ele se aproxima de mim e deposita um beijo na minha testa. — Como está se sentindo?

Como estou me sentindo? Se eu for esquecer da conversa que eu ouvi, e do contrato que é um empecilho entre a gente, eu diria que me sinto ótima. A noite foi incrível, na verdade, ele nunca tinha me feito chegar lá tão divinamente quanto hoje. Talvez tenha sido somente pelo fato de que eu estava me sentindo desesperada por isso, e não conseguia olhar dessa forma para um outro homem.

— Bem, muito bem.

Assinto sentindo todo o meu rosto esquentar ao lembrar de nós dois juntos na sua cama. Ele me lança um sorriso, segura em minha mão e começa a me guiar até a ilha da cozinha.

— Você quer beber alguma coisa? — Ele questiona enquanto se serve de um copo com algo que mais se parece com whisky.

Balanço minha cabeça para os lados, e me ponho ao seu lado, querendo que ele olhe em meus olhos e não tente fugir do assunto, já cansada de tanta enrolação.

— Você está em perigo? — Pergunto calmamente, resolvendo analisar a sua reação, mesmo que eu não seja boa em ler as pessoas.

Mas seus olhos arregalados me revelam que ele está surpreso com a minha pergunta.

— O quê? Porquê acha isso, ruiva?

Desvio o meu olhar do seu, não querendo admitir que estava ouvindo a sua conversa de propósito.

— Vocês estavam falando um pouco alto, e lá de cima dava para ouvir. — Forço um sorriso na sua direção, trocando o peso da perna por estar envergonhada porque não foi bem assim.

Eu poderia ter evitado ouvir se eu não fosse tão curiosa. Alguns segundos se passam em silêncio, com Benjamin parecendo estar absorvendo as minhas palavras enquanto encaro as minhas próprias mãos, que estão juntas ao meu corpo.

— Ei; — Sinto sua mão em meu queixo, levantando a minha cabeça, me fazendo encarar suas íris escuras que nesse momento, além de estarem intensas, me passam certo tipo de tranquilidade. — Eu não estou em perigo, ruiva. Mas fico feliz que se preocupe comigo. — Um lindo sorriso se desenha em seus lábios e ele acaricia a minha bochecha. — É só alguém que insiste em falar comigo. Está sempre me incomodando, mas nada demais.

Eu quase posso sentir o peso saindo dos meus ombros, com o alívio tomando posse do meu corpo. Isso definitivamente me deixa muito mais tranquila. Eu já tenho que lidar com tantas preocupações, então mesmo que Benjamin nunca quisesse compartilhar isso comigo, eu acho que eu morreria de tanta preocupação.

— Vem, senta aqui.

Nos sentamos lado a lado nas banquetas. Ele logo trata de pôr um copo na minha frente, e pôr somente dois dedos do seu whisky.

— Acho que temos muito o que conversar. — Comento o encarando, pois eu me conheço o suficiente para saber que irei ficar ansiosa demais caso não chegarmos a uma conclusão ainda hoje.

— Você pode tornar isso simples, sabe disso.

Sua mão pousa em minha coxa, e eu ergo uma sobrancelha em sua direção, mordendo o meu lábio pois eu não vejo como isso pode ser simples. Nenhum dos dois está disposto a ceder, por isso, uma conversa pode ajudar quanto a isso.

— Benjamin, eu espero que não esteja falando sobre eu ceder em relação ao contrato. Eu jamais vou fazer algo que vá fazer com que eu me sinta suja!

— Caramba! Mas você já tem uma opinião formada sobre isso antes mesmo de me escutar! — Ele exclama parecendo exasperado.

— Mas você vai dizer o que eu já sei! Terei que seguir a suas regras, coisa que eu não quero, e terei uma recompensa por fazer sexo com você, coisa que eu também não quero. Eu não vejo como você pode me convencer a assinar. — Digo cruzando os meus braços na altura do peito, enquanto ele me encara balançando a cabeça para os lados com seu cenho franzido.

— Esse é o ponto, Mel. Eu não quero que me obedeça, gosto de estar se descobrindo uma garota bem teimosa; — Ele segura o meu rosto em suas mãos, tentando me passar uma mensagem silenciosa. — Você é especial para mim.

Bufo e tiro suas mãos do meu rosto.

— Se eu sou tão especial para você, porque preciso assinar um contrato sob esses termos como todas as outras?

Eu só quero que ele entenda o meu ponto de vista. Eu sei que deve haver algum tipo de bloqueio em sua mente e coração que faz ele agir assim, mas eu não posso ajudá-lo se ele não se abrir comigo. Eu estou disposta a entender ele, mas até esse dia, ele tem que entender que esse contrato iria fazer com que eu me sentisse uma prostituta. Mesmo com a minha mente abrindo aos poucos e eu me descobrindo, eu não posso ignorar quem eu fui a minha vida inteira. Eu fui criada de uma forma cheia de princípios, e não posso quebrá-los sem saber se fazem ou não parte de mim. Eu o quero tanto, mas tudo está confuso demais na minha cabeça.

— Puta merda, Mel. Não faz isso, não diz e nem me olha dessa forma. — Ele levanta da banqueta, se virando de costas e passando a mão pelo cabelo, parecendo exasperado. — Durante todo esse tempo em que estivemos separados, em que eu dei um tempo para você pensar, você não saiu da minha cabeça por nenhum instante. Ter você hoje em meus braços foi… puta que pariu. A melhor coisa que me aconteceu.

O seu olhar escurece alguns tons enquanto eu o encaro. A única forma da gente ficar juntos é se eu convencê-lo ao menos a me entender e se abrir comigo, fora isso, estaremos perdidos.

— Ruiva, eu quero você pra caralho. Eu quero de verdade, e eu não poder abrir mão desse contrato não significa que você é igual a todas as outras. Cacete, Mel. Eu posso até me casar, mas não abro mão desse contrato.

O encaro sentindo a borda dos meus olhos se encherem de lágrimas. Eu quero lutar por ele, eu realmente quero. Ele está demonstrando que me quer de verdade, mas somente nos termos de um contrato. Deus, eu queria insistir mas estou cansada demais. O meu coração está doendo por saber disso, e seria mais lógico que eu tentasse o entender, mas de verdade, eu já não aguento mais ter que lidar com tantas coisas.

— Nenhuma? Nenhuma chance de ficarmos juntos? — A minha voz falha, entrega todos os meus pensamentos inquietantes, e quando ele balança a cabeça para os lados, eu tenho a certeza.

— Eu sei que eu disse que ia deixar você tentar, mas de verdade, você não vai conseguir mudar o que tem dentro de mim. Eu gosto de você, você gosta de mim, porque não tenta fazer um esforço, Mel? Se quiser, podemos ir com calma em relação a isso até que você se sinta pronta…

Eu me levanto da banqueta antes mesmo dele terminar.

— Eu sinto muito, Benjamin… — Sussurro com as lágrimas deslizando pela minha bochecha, e logo trato de levantar o meu olhar para o seu, que parece inquietante. — Eu sinto muito, pois eu estou cansada demais. Eu queria te ajudar, mesmo sem saber de que ajuda você precisa, mas se você está deixando claro que eu não vou conseguir mudar o demônio que tem dentro de você, eu não vou insistir. Eu não vou assinar esse contrato, estou indo embora. — Murmuro sentindo as lágrimas quentes deslizando pela minha bochecha, querendo estar no meu apartamento novamente, chorar até que essa dor passe.

Mas quando eu passo por Benjamin, as suas mãos prendem na minha cintura, me puxando e me virando na sua direção, me encarando como se o mundo fosse acabar assim que eu o deixar.

— Mel, calma. Por favor, olha para mim; — Ele segura o meu rosto em suas mãos. — Eu te dei um mês, se você ao menos soubesse o que eu sinto por você, Mel. E você prometeu que…

— Eu sei o que eu disse, Benjamin! — O interrompo e tiro suas mãos do meu rosto, enxugando as lágrimas logo em seguida. — Eu disse que estaria disposta a lutar e convencer você que não precisa desse contrato para ser feliz. Mas você não quer! Nem pensa na ideia de se libertar disso! Então, sim! Eu desisto antes mesmo de lutar! Eu estou tão cansada… — As lágrimas continuam a deslizar incessantemente, e eu logo cubro o meu rosto. — Dói demais saber que você nem mesmo procura me entender. Deve estar me achando uma fresca por agir assim, mas vai a merda! Eu não tive nada durante toda a minha vida que me fizesse ser uma adolescente normal e fui privada de tantas coisas. Me desculpe, mas não me libertei de uma para me prender a outra. Eu sou louca pra te ter, Benjamin. Mas estou esgotada. Você sabe disso, eu fui enganada por todos à minha volta e você foi uma dessas pessoas. Eu perdi a minha mãe e estou aprendendo a me virar sozinha, quando na verdade eu não sei… e eu sequer posso contar com o meu próprio pai.

Benjamin segura mais uma vez o meu rosto em suas mãos quando um soluço inesperado, causado pela enorme pressão em meu peito, rompe pela minha garganta.

— Você não está sozinha, olha para mim. Eu estou bem aqui por você.

Um sorriso descrente aparece em meu rosto, enquanto balanço minha cabeça para os lados.

— Está mesmo? Eu prometi a você que iria te ajudar aqui; — Ponho uma mão em seu peito, logo onde as batidas do seu coração estão aceleradas. — Mas agora eu estou desistindo, e eu sei que você merece alguém que lhe ajude, mas eu não posso. Por isso acho que não te mereço, você deveria começar a filtrar quem é especial na sua vida.

— Porra, para de ser tão autodepreciativa. Você já fez tanta coisa boa comigo, mudou muitas coisas dentro de mim. Você pode não perceber, mas sou eu que não mereço você, mas sou egoísta demais para te deixar ir. Assim como estou sendo egoísta agora. Eu quero você. — Ele repete lentamente, com o seu olhar tão intenso que eu poderia me deixar levar agora mesmo.

— Não importa o quanto você insista, eu nunca vou me vender, assim como você nunca vai se abrir comigo e me fazer entender, então para quê insistir?! — Pergunto me afastando dele mais uma vez, não conseguindo entender tudo isso.

— Mel, eu já lhe disse tantas vezes. Não é nada disso que você está pensando…

Ele tenta segurar os meus braços, porém mais uma vez eu me desvencilhei dele, evitando que eu mesma me entregue sem pensar nas consequências, pois é isso que o seu olhar causa em mim.

— Coloca de uma vez na sua cabeça que eu não sou esse tipo de pessoa! Se você não está disposto a me ajudar, eu não posso fazer absolutamente nada! Tem tantas candidatas por aí que não perderiam a chance de serem suas escravas sexuais, ou sei lá que merda é essa, mas eu não! De verdade, Benjamin. Eu não!

Sequer tenho tempo para ver a sua reação, pois somente viro minhas costas e eu praticamente saio correndo do seu apartamento, ouvindo ele me chamar baixinho. Eu não queria pensar demais sobre isso, mas aquilo estava me atormentando. Eu quero ele, e o mesmo me quer, mas se a única forma de ficarmos é com um contrato que me faça me sentir suja, eu não quero. Quero viver um pouco dessa liberdade que estou vivendo, e também por este motivo, não posso me prender a ele. Eu saio do seu prédio, com o pensamento de que ele encontre alguém que consiga o ajudar mais do que eu, pois é nítido que ele tem traumas fortes. Mas eu sou fraca demais para lutar por ele.

Eu estava atravessando a rua, completamente perdida quando o farol de um carro reluziu em meu rosto. Acho que eu congelei no lugar, percebendo o carro se aproximar de mim em alta velocidade. Acho que eu poderia desmaiar naquele mesmo instante, pois a minha cabeça estava girando e me deixando tonta. Meu corpo estava trêmulo e apenas uma frase se repetia na minha cabeça.

Eu vou morrer!

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