Capítulo 3
Ainda tenho alguns meses pela frente.
Ainda tenho tempo.
Respirei pelo nariz, não tão profundamente a ponto de chamar atenção para o tique que percorria meus joelhos, mas o suficiente para dissipar a névoa em minha mente.
—Ah… reunião tardia? —disse em voz suave, como se não tivesse ouvido o que ele acabara de dizer.
Isso deve ser outro assunto de negócios. Tem que ser.
—Alessia.
Ele pronunciou meu nome como se isso lhe deixasse um gosto amargo na boca, um gosto que ele teve de disfarçar com outro gole de uísque antes de pousar o copo novamente. Sua mão voltou a se mover para as costas, envolvendo o pulso com os dedos.
—Ele está vindo atrás de você, Alessia.
Meu corpo inteiro ficou paralisado. Suas palavras foram como um empurrão no vazio: repentinas, inesperadas e imperdoavelmente erradas.
Não.
Não.
Ainda tenho tempo!
—P-Mas, pai, ainda tenho tempo... Não... Não tenho vinte... —Minha mandíbula travou antes que eu pudesse terminar a frase. Como se minha própria voz tivesse me traído.
Sentia uma vontade irresistível de abrir minha bolsa e engolir alguma coisa, qualquer coisa, que me fizesse esquecer as palavras que acabavam de sair da boca dele.
I.
Ter.
Tempo.
Mas o silêncio do papai foi mais eloquente. Como um tapa depois de terem me aberto as costelas e pisoteado a única coisa que ainda restava dentro de mim que sabia bater.
Ele me roubou os últimos meses que eu tinha, meses em que eu não estava presa ao homem que me via como nada mais do que um desperdício de ar.
Pisquei com força. Minha boca estava seca, tão seca que sentia que a língua ia grudar no palato. A ansiedade subia pelo meu pescoço, mas o Xanax a mantinha lá. Ela não desaparecia. Simplesmente... eu estava presa. Como se algo estivesse me sufocando por dentro.
—Não...
—Vá arrumar suas coisas, Alessia. —Ele me dispensou. Assim, sem mais nem menos. Eu o vi passar como se já tivesse aceitado que eu não lhe pertencia mais.
Sua filha.
Sua única filha.
Ele passou ao meu lado como se eu fosse um móvel que precisasse ser movido de um canto para outro.
Sentia os calcanhares grudados no chão, a bolsa alguns quilos mais pesada e o ar tão rarefeito que mal conseguia respirar.
Então ouvi seus passos pararem antes que ele voltasse a falar, destruindo o pouco que restava de mim.
—Você irá com ele em silêncio — acrescentou ela, como se eu tivesse tido escolha desde o início —. Você fará o que se espera de você.
Abri a boca e o ar escapou.
Senti um nó no estômago.
A tontura me invadiu antes que eu pudesse evitar. Graças a Deus pelos comprimidos que mantiveram o pânico sob controle.
Sentia o tremor no mais profundo do meu ser, mas nada ousava vir à tona.
Era como se eu estivesse me vendo de longe. De pé, como se as palavras do papai não tivessem me destruído completamente.
Mas a cada segundo que permanecia imóvel, sentia como as palavras se enraizavam mais profundamente e, com elas, meu corpo se distanciava ainda mais.
Fiquei ali, imóvel.
Indiferente aos meus sentimentos.
Indiferente a tudo.
Até que meus calcanhares se moveram levemente sobre o piso de mármore. Até que apertei com mais força a alça da minha bolsa. Até que minhas pernas se moveram antes que meu corpo reagisse.
Passo após passo, não em direção ao papai,
Não,
Não mais.
Subi as escadas, como ele havia me dito, fazendo o que eu sabia fazer de melhor: obedecer.
Era como se eu estivesse me observando de um canto seguro do meu quarto. Eu me via dobrando cuidadosamente minhas roupas na mala: minhas sapatilhas de ponta, collants, produtos para cuidados com a pele. As sapatilhas de ponta rasgadas da mamãe, guardadas no fundo do armário. Tudo arrumado com cuidado, como se eu estivesse fazendo a mala para as férias.
Como se eu fosse voltar.
Eu me movia como uma máquina. Tranquilo, sem pensar, dissociado, vazio.
Sentei-me em frente à mala, apoiado nos calcanhares, segurando com as duas mãos os dois saquinhos de comprimidos que havia guardado na bolsa. Fiquei ali, imóvel, olhando fixamente para eles.
Fiquei olhando.
Me pergunto até que ponto mais alguns comprimidos poderiam me afundar no vazio, só para que tudo deixasse de importar.
Abri um dos saquinhos e coloquei um único comprimido na palma da mão. Apenas um. Não para desaparecer, mas para flutuar um pouco mais alto.
Hesitei por apenas um segundo antes que o nome dele ressoasse em algum lugar do meu quarto.
Ou talvez eu estivesse apenas imaginando.
De qualquer forma, coloquei-o debaixo da língua e engoli-o seco, como já havia feito centenas de vezes. Porque era assim mesmo.
Fechei os olhos e apertei os lábios, mordendo o interior das bochechas.
Fiquei assim, imóvel, totalmente imóvel, até sentir meus dentes soltarem minhas bochechas.
Até que meus olhos se suavizaram. Até que meus lábios se entreabriram. Até que respirar parecesse quase normal. Quase.
Não sei quanto tempo fiquei sentada ali; poderiam ter sido minutos, horas.
Mas nada disso importava.
O tempo deixa de fazer sentido no momento em que os comprimidos fazem efeito.
O vazio me invadiu, que paz.
Muito bom.
Como eles estão enganados.
Não me mexi. Fiquei sentada, deixando que os comprimidos me mantivessem ali, imóvel, como se eu não estivesse me desmoronando irremediavelmente.
Os minutos se passaram em silêncio total. O único som no quarto era minha própria respiração, tranquila e pausada.
Alguém bateu à minha porta e, em seguida, ouviu-se uma voz.
— Sra. Whitmore, o Sr. Blackthorn chegou.
Pisquei os olhos.
Uma vez. Duas vezes.
As palavras não me atingiram como deveriam. Não me movi. Fiquei sentada no mesmo lugar, sentindo-me leve, como se estivesse flutuando.
Não havia pânico, nem ansiedade, apenas quietude. Como se eu continuasse sentada no canto mais seguro do meu quarto, intacta, imperturbável.
Então, ele bateu na porta novamente.
—Hum...
—Sim — respondi em voz baixa.
Respondi quase sem fôlego, mas ela me ouviu.
Ouvi seus passos se afastando pelo corredor. E, de alguma forma, senti que estava me movendo: fechei a mala, levantei-me, guardei os comprimidos na bolsa e peguei meu casaco.
Depois, a porta.
Talvez eu devesse ter olhado para trás,
para o quarto onde cresci, o único lugar seguro que me resta neste mundo.
Mas não olhei.
Meus pés me levaram escada abaixo, deixando a mala para que os homens do meu pai a levassem por mim.
Eu podia ouvi-los conversando; a voz do meu pai soava fria, cortante, mas não consegui distinguir o que ele dizia.
O silêncio que se seguiu.
Aquele tipo de silêncio que se instala rápido demais e deixa todo mundo tenso.
Do tipo que diz que já está na hora.
No entanto, não me apressei ao descer as escadas.
Também não hesitei nem parei.
De repente, ouvi a voz dela, baixa, tranquila. Tão malditamente tranquila que um arrepio percorreu minhas costas.
— Onde ela está?
Como se fosse um lembrete de que aquilo, de fato, estava acontecendo, mas meu cérebro se recusava a acreditar.
Ao subir o último degrau, meus dedos roçaram a parede. Talvez para manter o equilíbrio, ou talvez para me agarrar a algo pela última vez.
O silêncio deles se prolongava cada vez mais, denso e pesado, e senti os olhares deles sobre mim no instante em que virei a esquina, como se estivessem esperando que eu descesse as escadas.
Não levantei a cabeça, simplesmente entrei na sala como se nada mais importasse. Como se eu não estivesse em algum lugar entre as nuvens, me perguntando como ficar lá para sempre.
Finalmente, levantei os olhos e descobri que os olhos dele já estavam fixos em mim. Ele estava sentado ali como se fosse o dono do lugar. Como se pertencesse a ele mais do que a mim. Suas pernas estavam estendidas com naturalidade, seu terno estava impecável e suas mãos tatuadas estavam cruzadas à sua frente.
Não o via há anos.
Ele parecia tão... mais velho.
Mais forte.
Seu corpo enorme, músculos sobre músculos tensos sob o terno, estava sentado ali, ocupando a cadeira por completo, fazendo-a parecer patética ao seu lado. Seu piscar de olhos, afiado. Mas seus olhos eram ainda mais penetrantes, de um tom de marrom mais escuro.
Ele poderia me destruir sem nem mesmo tentar.
Talvez seja isso que mais me assusta: que ele não precise dizer uma palavra para que meus pelos se arrepiem. Seus olhos, aqueles olhos frios e vazios, bastavam.
No entanto, seu olhar não vacilou. Ele me mantinha fixa como se esperasse que eu desmoronasse. Aqui e agora.
Meu pai estava em pé ao lado da janela novamente. Com as mãos nas costas e os lábios cerrados, ele nem sequer me lançou um segundo olhar.
Eles tinham conversado, talvez até discutido; eu podia ver tudo no rosto do papai, mas nada revelava a expressão vazia que Lucien exibia.
Eu não fazia ideia do que viria a seguir.