Capítulo 2
Ele não quer que eu a leve embora ainda.
Não depois de ter matado o marido da irmã dele. Não depois do que fiz com o Thiago.
Eu queria adiar isso. Atrasar. Fingir que o contrato permitia negociação.
Mas ele esqueceu com quem estava lidando.
Não perco tempo. Não negocio e, com certeza, não pergunto.
Pego o que é meu quando quero.
E não dou explicações ao homem que ignora a casca vazia que é sua filha e a entrega como herança para conseguir se manter à tona.
Na verdade, não presto contas a ninguém.
Ele gostaria que eu me importasse com a tensão em sua voz ou com o julgamento em seu olhar, mas ambos sabíamos que não era assim.
É por isso que ele está sentado ao meu lado agora, com a mandíbula tensa, o copo de uísque suando entre seus dedos ásperos, fingindo apreciar a apresentação enquanto sua filha sai correndo do palco como se a própria morte a perseguisse.
Seus olhos permanecem fixos na cortina por mais um segundo, como se ele esperasse que ela voltasse e lhe garantisse que continua sendo sua pequena bailarina perfeita, que dança e obedece.
O único problema é que agora ela é minha.
Seus dedos se contraem, deslizando pelo rosto como se o peso desse momento finalmente tivesse se instalado. E então ele se vira para mim. Lentamente. Hesitante. Como um homem que tenta negociar com o diabo depois de ter vendido sua alma a ele.
—Ela é deslumbrante —diz ele em voz baixa, como se estivesse sondando o terreno, esperando que eu lhe dê algo. Aprovação. Consentimento.
Como se tivesse que fingir que sua filhinha quebrada tem algo mais a me oferecer do que eu já não tenha reivindicado.
Mas eu não minto. Não finjo.
Não passa de um corpo bonito com a alma vazia. Ela se move como alguém que esqueceu o que significa estar viva. Não tem nada de especial. Não deveria me importar.
Mas o anel no meu dedo arde mais frio do que o cigarro na minha mão.
E me lembra, todos os malditos dias, que, quer eu a queira ou não,
ela me queira ou não,
ela está ligada a mim.
E eu não abro mão do que é meu.
Não depois de já ter cobrado dos homens o que eles deviam. Não depois de já ter matado por menos.
—Eu esperava que pudéssemos... adiar isso —disse ela em voz baixa, com cuidado, como se estivesse escolhendo palavras para alguém mais razoável—. Só até depois do seu vigésimo quinto aniversário. Ambos nos beneficiaríamos com um pouco de tempo...
Não respondi. Nem sequer olhei para ele. Estava observando como as luzes do palco piscavam sobre o pano fechado por onde ela havia desaparecido há alguns minutos.
A maneira como ela corria. A maneira como seus joelhos quase cederam.
Ela estava escorregando e eu queria vê-la cair.
—Lucien, escute. Não se trata de quebrar contratos. Trata-se do que é melhor para ela. Para nós. Isso não é o que seu pai pretendia...
Essa frase me fez sorrir.
Meu pai.
Ele sempre achou que estava lidando com uma versão do homem que havia apertado sua mão.
—É aí que você se engana, Whitmore —disse eu finalmente, com voz calma e baixa.
—Meu pai fazia acordos, apertava as mãos, jogava limpo, deixava os homens com a dignidade intacta. —Deixei o silêncio se estender entre nós, observei como seus lábios se contraíam como se ele quisesse interromper, mas soubesse que não devia.
—Eu os coleciono — acrescentei, mais devagar dessa vez, só para ter certeza de que ele tivesse me ouvido bem. — Não queria me repetir. — E esse contrato não morreu com ele.
Recostei-me na cadeira, com as pernas afastadas, deixando que o peso da verdade se interpusesse entre nós como uma parede que ele não podia atravessar.
—Eu não sou ele.
Ele estremeceu com aquilo, apertando com força o copo de uísque morno entre as mãos. Eu vi. O arrependimento, aquele que chega tarde demais. Aquele que se espalha como fogo.
—Só aceitei o compromisso para proteger o negócio —murmurou ele, olhando para o chão como se pudesse encontrar outra saída—. Não era para ter acontecido assim. Dá-me mais tempo, ela ainda não pode ser sua.
Então olhei para ele. Lentamente.
—Ela é minha desde o momento em que você assinou. Só estou cobrando o que foi vendido —disse eu, levantando-me da cadeira, ajeitando o terno, deixando que cada palavra caísse sobre ele como um tijolo nas costas—. Você deveria ter lido as letras miúdas, Whitmore. Você não a prometeu a um homem. Você prometeu a ela uma linhagem e agora ela é minha.
Ele deu mais um passo à frente, com a mandíbula cerrada. — Ela não é...
—Ela é. —Eu disse com firmeza, de forma definitiva.
Um ponto final em uma sala onde eu já não tinha voz. —O casamento será daqui a três semanas
Apaguei o cigarro, ajeitei a manga da camisa e olhei fixamente nos olhos dele.
—Vou buscá-la hoje à noite. Não gostaria que você fizesse um escândalo; já usei minha arma o suficiente esta semana.
Ele abriu a boca como se tivesse mais algo a dizer, talvez até para me implorar, mas eu já estava indo embora. Não havia mais nada a discutir.
Eu estaria na porta dele antes da meia-noite.
E eu não iria sozinha.
As portas se fecharam suavemente atrás de mim. Nem sequer dei uma olhada no guarda que estava atrás delas enquanto entrava com o carro.
O Xanax na minha bolsa estava mais pesado do que o normal. Talvez porque minhas mãos tenham escorregado e eu tenha pegado um pacote daquele comprimido rosa — o novo que o Cedric não parava de mencionar — que estava ali, sobre a mesa.
Ou talvez porque ignorei as ligações do meu pai e nunca voltei ao cassino como deveria.
Já está quase meia-noite. Eu esperava ter voltado tarde o suficiente... só para evitar o Lucien.
Meu celular vibrou de novo, forte e furioso. Eu sabia que me meteria em apuros assim que cruzasse a porta da mansão do meu pai, mas preferia ouvi-lo gritar a passar um segundo a mais do que o necessário em um quarto com o Lucien.
Ainda tenho tempo.
Lembrei-me disso. Ainda tenho tempo de me arrumar antes de me entregar a ele. Ainda não fiz vinte e cinco anos. Provavelmente ele só veio por assuntos que não me dizem respeito. Uma dívida que precisava cobrar.
Seja o que for, não me importo, pelo menos não ainda, então reprimi o pensamento sobre ele nas partes insensíveis de mim.
Estacionei o carro, enfiei o moletom debaixo do banco, pendurei a bolsa no ombro e saí. Meus pés ainda doíam por causa dos sapatos de marca que eu estava usando; continuava fingindo estar arrumada, agarrando-me à ilusão de que não estava desmoronando completamente.
A brisa noturna parecia mais pesada do que o normal; talvez ele também tenha percebido a diferença hoje.
Mantive a cabeça erguida e endireitei os ombros, ignorando o leve tique-taque do meu dedo enquanto caminhava lentamente em direção à porta.
As luzes continuavam acesas lá dentro, é claro que sim. Meu pai não me deixa ir como se a vida que levo fosse minha para viver.
Respirei fundo e abri a porta da frente. O cheiro penetrante de cigarro e uísque inundou o ar, me jogando de cabeça na realidade. Pois assim que vi meu pai, soube que algo não estava bem.
Ele estava em pé ao lado da janela que ia do chão ao teto, olhando para o jardim escuro como se o sol ainda brilhasse, com o pulso atrás das costas. Seu copo de uísque permanecia intacto ao seu lado.
Por que ele não estava gritando?
Por que ele não estava zangado?
Voltei tarde, saí correndo do cassino sem dizer uma palavra e não atendi suas ligações.
Por que ele não está furioso?
—Pai... —disse em voz baixa, entrando mais na sala de estar.
Mas ele não se virou para me olhar.
Ele me interrompeu no meio da frase com uma única pergunta direta. Forte, simples. —Onde você esteve?
Lá estava de novo, o tique-taque dos meus dedos.
Apertei os punhos e alisei a saia, sem responder. Meu silêncio bastou para que ele se virasse para mim. Seus olhos estavam frios. Distantes. Como se ele já soubesse onde eu tinha estado. Como se soubesse até que ponto eu estava perdida.
— Onde você estava, Alessia?
Abri a boca, mas só saíram mentiras, incontroláveis: —Eu só estava... dirigindo por aí. —Mordi a língua com força. Evitando o olhar dele, mantive os olhos fixos nos meus saltos.
— “Dirigindo por aí” — repetiu ele, como se saboreasse minhas palavras. Ele envolveu o copo de uísque com a mão, levou-o aos lábios e ficou em silêncio por um instante.
Antes de dar um gole, ele falou...
—Lucien está vindo.
Três palavras. Bastaram três palavras para que o tamborilar dos meus dedos piorasse.
Por que ele está vindo?
E por que meu pai está me contando isso?
Ele nunca me avisou sobre seus convidados, nunca sentiu a necessidade de anunciá-los,
E por que hoje?
O pior ainda estava por vir.