Capítulo 3 - A primeira namorada
NO PRIMEIRO ANO DE FUNCIONAMENTO da Vecchio Tour, fui orientado por um dos professores da faculdade, que também era um ótimo conselheiro, a participar dos eventos turísticos que aconteceriam naquela temporada, assim, logo que surgiram algumas brechas em nossa agenda apertadíssima, eu e Celso embarcamos em uma ou outra viagem de negócios.
Estávamos no Rio de Janeiro para acompanhar de perto a Brazil Travel Expo, uma feira sobre turismo de negócio que acontecia todos os anos na Cidade Maravilhosa e aquela foi uma importante tarde ensolarada para fazer contatos com os mais diversos tipos de pessoas que, como nós, também estavam envolvidas com o mundo das viagens. O nosso intuito em participar daquela feira era divulgar nossa marca que, à época, era praticamente desconhecida do grande público, além de fazer networking com quem já estava na estrada há mais tempo.
Nós dois éramos “verdes” em muitos aspectos dentro do ramo e a partir do momento que começamos a frequentar aquele tipo de evento, todo um novo horizonte de possibilidades se abriu à nossa frente. Conhecemos empresários, donos de outras agências, CEOs do setor de hotelaria e vários potenciais clientes. Aprendemos uma porção de estratégias para otimizar nossos serviços além de ampliar o nosso marketing e aproveitamos para discutir uma infinidade de projetos com parceiros que entendiam muito da área em que atuávamos, o que nos auxiliou um bocado.
Termos como “networking”, “marketing”, “co-marketing” e “branding” passaram a se tornar comuns em nosso vocabulário empresarial e posso dizer com certa segurança que foi a partir daquela viagem para o Rio que começamos a deslanchar nos negócios.
Eu e Celso estávamos festejando toda a gama de conhecimento que levaríamos na bagagem de volta para São Paulo em um bar de Copacabana e resolvemos esticar um pouco mais na cidade a fim de aproveitar o dia agradável de temperatura alta que estava fazendo. Dali, fomos até uma churrascaria argentina à beira-mar e discutimos alguns assuntos sobre a Vecchio Tour enquanto nos fartávamos da carne deliciosamente temperada do restaurante.
A certo ponto da conversa, eu tinha notado um grupo de garotos que estava fazendo bastante barulho junto a uma das mesas mais ao fundo do estabelecimento. O local estava relativamente cheio aquele dia, era uma sexta-feira, estávamos às vésperas de um feriado prolongado e muita gente havia saído de casa para se divertir. De onde estávamos, era possível enxergar pela janela uma parte da praia de Copacabana e embora a noite já começasse a cair do lado de fora, ainda haviam muitos frequentadores aproveitando o mar exuberante. Uma das garotas do tal grupo não desgrudava os olhos da nossa mesa e como o Celso estava de costas para ela, percebi que as olhadas eram para mim.
— Não olhe agora, mas tem uma baita de uma gatinha me dando mole ali atrás!
A garota era realmente muito bonita e se destacava das outras três que a acompanhavam na mesa de cinco pessoas. Dois rapazes as acompanhavam e falavam alto, num sotaque carioca bastante característico. A conversa não a estava entretendo muito, no entanto, uma vez que ela não parava de me olhar agora que eu a havia notado.
— A branquinha de cabelos encaracolados?
Celso se virou a certo ponto para saber sobre quem eu estava falando e naquela hora, ela cochichou algo para as amigas, que logo nos notaram também e começaram a rir.
— Nós temos que voltar para São Paulo amanhã cedo, brother — disse Celso, me olhando agora com um indisfarçável semblante de deboche —, mas se você quiser, eu volto sozinho e tomo conta de tudo por lá. Uma belezinha dessas não se deve deixar à deriva. Melhor dar o bote logo!
Eu havia considerado a sugestão de meu amigo e depois daquilo, continuamos conversando normalmente, mas com meus olhos sempre voltados para a mesa ao fundo. A menina parecia realmente interessada.
O grupo ruidoso e alegre começou a se levantar para sair do local após pagar a conta e vi ali a chance de me aproximar. Celso havia concordado em voltar sozinho para o hotel onde estávamos hospedados aquela noite e assim que surgiu a oportunidade, eu cheguei junto da garota. Estrategicamente, ela havia ficado um pouco para trás dos amigos enquanto eles saíam pela porta, começando a andar em direção norte, o que era um claro sinal verde aceso para mim.
— Seus amigos parecem ser bastante animados.
Nossos olhares já tinham se cruzado e ela abriu um sorriso. Eu media 1,86 de altura e ela parecia ter uns quinze centímetros a menos. Os cabelos formavam caracóis castanhos e lhes caíam pelos ombros.
— Eles são mesmo. Chamam a atenção por onde passam.
Era a primeira vez que a ouvia falar e tinha um sotaque tijucano gostoso de ouvir.
— Prazer, eu me chamo Ralph.
Ela me encarou um segundo e estendeu a mão para me cumprimentar.
— Me chamo Shanaya.
Eu tinha vinte anos na época e Shanaya dezenove. Ela era natural do Rio de Janeiro, nascida e criada na Barra da Tijuca e estava cursando Direito na FGV, em Botafogo. Era filha de um desembargador carioca de bastante prestígio na área e morava em uma república de estudantes com duas das três colegas que a acompanhavam no restaurante aquela noite. Na saída da churrascaria, fez questão de me apresentar aos cinco amigos e pouco depois, eles me convidaram para conhecer um pouco mais da cidade em um passeio ao ar livre.
A noite já havia se firmado sobre nossas cabeças quando resolvemos nos sentar diante do mar para conversar e foi então que pude conhecer um pouco mais sobre aquela garota que era tão simpática quanto bonita. Através dos seus amigos, descobri que ela se destacava como uma das melhores alunas da turma de Direito e que fazia de tudo para honrar as expectativas que o pai rígido depositava em sua única filha. Também fiquei sabendo que ela adorava dançar e que sempre quisera desfilar pelo sambódromo vestindo a camisa da sua escola de samba do coração, a Unidos da Tijuca.
— Sempre tive paixão por carnaval, mas meu pai nunca me deixou desfilar — ela parecia levemente frustrada —, ele diz que uma escola de samba não é o lugar ideal para “gente como nós”.
Shanaya pertencia à família Villas Boas, uma das mais tradicionais do Rio e descendia de uma família quase que inteiramente formada por juízes, desembargadores e advogados. Os Villas Boas eram puramente elitistas e não costumavam se misturar à plebe que os rodeava. Todos na roda de amigos da garota se referiam ao seu pai como “vossa excelência”, em tom de deboche, e ela parecia sempre intimidada cada vez que o mencionava nas conversas.
— Ano que vem, faço questão de te trazer de volta para o Rio só para te arrastar para os ensaios da Unidos da Tijuca — disse Melina, uma garota de pele morena e cabelo afro que era uma de suas colegas de quarto na república —, quero ver se vosso excelentíssimo pai vai conseguir te impedir de desfilar na Sapucaí desta vez!
Eu havia ficado curioso com um detalhe naquela fala de Melina.
— Por que “voltar para o Rio”? — Eu encarei Shanaya por alguns instantes — Está pretendendo ir embora daqui?
Ela ficou embaraçada, jogou os cabelos para trás da orelha de maneira charmosa e respondeu, ali sentada na areia, descalça ao meu lado:
— Eu e a minha família vamos nos mudar para São Paulo no começo do próximo semestre.
Os amigos tinham agora semblante entristecido. Ela explicou.
— Meu pai foi chamado para integrar a equipe do Tribunal de Contas de São Paulo e como é uma oferta irrecusável, ele pesou os prós e contras que envolvem uma mudança tão radical de estado para a família e decidiu aceitar. Nos mudamos em alguns meses.
Depois daquela noite agradável na companhia dela e de seus amigos à beira do mar, nós dois trocamos contatos e passamos a nos falar regularmente por mensagem de texto e nas redes sociais. Apesar da educação rígida e quase militar a que havia sido submetida quase a vida toda, Shanaya era uma garota bastante divertida, além de muito inteligente. Pelo celular, passávamos horas conversando sobre legislação, ética e moral, depois, filosofávamos sobre as aplicações de tudo aquilo na vida real, raramente chegando à alguma conclusão de fato. Ela tinha um jeito muito inocente de enxergar a vida, apesar de todo o conhecimento teórico que possuía e eu gostava de saber que o estudo do Direito ainda não havia corrompido a sua verdadeira essência.
— Você fala como se nós, estudantes de Direito, fossemos malignos, criaturas saídas das fossas do próprio inferno…
Disse-me ela certa vez, enquanto víamos a noite mergulhar nossas cidades num azul-escuro do lado de fora das janelas. O tempo parecia passar devagar para mim enquanto falava com ela ao telefone e aquilo nunca tinha acontecido com mais ninguém antes de Shanaya.
— Não é verdade o pacto de sangue que vocês são obrigados a fazer logo que entram na faculdade de Direito? Aquele envolvendo bodes, serpentes e anões?
Eu sempre fazia aquele tipo de brincadeira tola sobre advogados com ela para deixá-la irritada e testar a sua paciência, mas Shanaya contornava as minhas gracinhas com comentários inteligentes, além de usar palavras no dialeto “juridiquês” que estavam muito além da minha compreensão, quebrando qualquer um dos meus argumentos. Como eu sabia que estava derrotado nas discussões, respondia, ainda em deboche:
— Data venia!
