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Capítulo 4 - Traumas de uma mente inconstante

NA SEMANA EM QUE SHANAYA se mudou com o pai e a madrasta para São Paulo, nós combinamos de nos reencontrar e eu a levei para tomar alguns drinques num bar muito badalado da Vila Madalena, local onde ficava a Vecchio Tour. Por conta das conversas via celular, tínhamos adquirido certa intimidade um com o outro e a nossa amizade já nos permitia diálogos mais longos sobre qualquer tipo de assunto, até mesmo os mais picantes.

Eu descobri durante aquela tarde no bar que, apesar da rigidez do pai e toda a sua vigilância sobre a menina, Shanaya havia perdido a virgindade cedo, com um garoto do condomínio em que ela morava na Barra da Tijuca. Tinha sido uma experiência frustrante e aquilo lhe havia desenvolvido um tipo de trauma com relações do tipo.

— Eu namorei esse garoto durante uns três meses sem maiores contatos íntimos — me confidenciou junto à mesa do restaurante —, nós éramos melhores amigos, vivíamos grudados e sentíamos muita atração um pelo outro. Eu queria me entregar a um homem pela primeira vez na vida, achava que já estava pronta à época, por isso, desejei que fosse com ele. Por sermos muito próximos, eu realmente acreditava que tínhamos algum tipo de sintonia, mas foi muito mais traumático para mim.

Ela ficou cabisbaixa. Estávamos frente a frente um do outro e pela janela panorâmica ao nosso lado, víamos as pessoas andando apressadas pela calçada do estabelecimento, seguindo umas às outras como que enxergando uma fila indiana imaginária.

— Depois de passar quase uma hora embaixo dele, em silêncio — Shanaya respirou profundamente — sem conseguir gostar realmente daquilo, ele me perguntou se eu era sempre “morta” daquele jeito e eu fiquei muito sem jeito…

Ela nunca tinha me contado aquilo e achei que fosse bom deixá-la desabafar. Continuei ouvindo.

— Ele terminou comigo no dia seguinte e ainda me esculachou, dizendo que já tinha transado com bonecas infláveis mais animadas…

Uma lágrima rolou em seu olho castanho e eu a afaguei no rosto. Conseguia entender todo o seu drama e estava bastante disposto a ajudá-la com aquele problema.

— Vai ver, foi o garoto estúpido que não soube te tratar tão bem…

Ela me olhou sem concordar, mordiscou de leve o canto de uma unha — roer unha era algo que ela fazia quando ficava nervosa —, depois disse:

— Eu cheguei até a fazer alguns exames e consultas com ginecologistas para saber se não havia nada de errado comigo, mas fisicamente, eu não tenho nenhum problema. Acho que preciso me resolver aqui mesmo — e ela tateou a têmpora direita com o mesmo indicador que havia roído a cutícula.

— Quer dizer que, desde a primeira vez com esse garoto, você nunca mais fez nada com ninguém?

Estávamos sentados em uma mesa bem próxima do balcão e dali, era mais prático chamar o garçom. Estávamos na segunda rodada de chope. Ela me olhou com ar de curiosidade e depois, desatou a rir.

— Claro que sim, mas eu não me sinto confortável com isso até hoje.

Shanaya não era uma garota tímida, mas havia algo dentro dela que a tornava um tanto quanto retraída em certos momentos. Falar sobre sexo era comum, desde que a conversa não envolvesse as suas próprias experiências. Ela se fechava feito uma concha quando eu queria saber mais e era impossível lhe tirar qualquer coisa depois disso.

Nós nos encontramos mais três vezes depois daquela semana e na última, eu já me sentia irremediavelmente apaixonado por aquela carioca linda, o que me levou a fazer o pedido de namoro pouco depois. Eu a tinha levado para assistir a um musical escrito e dirigido por Miguel Falabella no Teatro Frei Caneca aquela noite e quando já estávamos no meu carro, algum tempo depois, a caminho de sua casa, eu perguntei se ela queria namorar comigo.

— Já estava achando que eu teria que te pedir!

Ela abriu um sorriso largo no rosto radiante e após dizer um “sim” entredentes, nós nos beijamos pela primeira vez e foi um instante mágico.

Desde os meus quatorze anos, quando passei de um garoto gordinho e asmático que sofria bullying na escola para praticante assíduo de esportes, eu havia me relacionado com diversas meninas da escola e de Perdizes, onde vivia desde sempre, mas nunca tinha sentido aquela sensação na boca do estômago que só Shanaya conseguia me fazer sentir. Eu adorava estar com ela e não havia nenhum tipo de tabu em nossa relação. Éramos amigos, confidentes e parceiros no dia-a-dia. Era difícil imaginar que comigo ela não fosse resolver aquele seu problema com relação a sexo.

Dois meses depois, em comum acordo, resolvemos ter juntos a nossa primeira experiência amorosa e eu a levei para um dos motéis mais luxuosos da cidade, com o intuito de que aquela noite fosse especial para ela. Eu tinha feito a reserva da melhor suíte alguns dias antes e a percebi bastante nervosa a meu lado, quando enfim, emboquei o carro pela entrada principal do local. Tinha passado um batom escuro nos lábios, havia caprichado em uma maquiagem esfumada sobre as pálpebras e estava usando um vestido curto e justo.

Hora de resolver esse trauma, pensei eu, em minha soberba, no momento que caminhamos de mãos dadas até o quarto.

Já na cama, notei que Shanaya realmente não conseguia relaxar na “Hora H”, por mais intimidade que possuísse com o seu parceiro. Eu tinha tentado de tudo, era bastante experiente no assunto, gostava de pensar que sabia o que agradava as mulheres durante o sexo, mas minha parceira estava extremamente insegura e com medo de ir além. Apesar de todo o meu empenho em fazer daquela uma das nossas noites mais memoráveis, não conseguimos sair muito das preliminares sobre os lençóis e eu entendi que precisaríamos de mais tempo juntos.

No dia seguinte, durante um café, resolvi abrir o problema com Nalanda, a agente de viagens que trabalhava na Vecchio Tour há algum tempo e com a qual eu e Celso tínhamos bastante intimidade para pedir alguns conselhos.

— Hum, você tem um problemão para resolver, gato — disse ela, com sua beleza exuberante e os olhos verdes a brilhar em minha direção —, mas ao que parece, não é nenhuma missão impossível.

— Era como se ela estivesse muito pouco à vontade sobre a cama, como se estivesse fazendo aquilo pela primeira vez, sabe? — Nalanda acenou que sim, encostada no balcão da pia da cozinha onde conversávamos sozinhos aquele momento. — Eu caprichei nas preliminares, fiz o que sabia em meu repertório para tentar deixá-la mais solta, mas foi como se ela não estivesse a fim.

— Talvez, tenha sido cedo para vocês dois tentarem algo mais íntimo… Vocês namoram há uns dois meses só e se conhecem mais por mensagens e ligações… Essa garota precisa de mais tempo a seu lado para se soltar.

O café já tinha acabado em meu copo e Nalanda se ofereceu para me servir mais um pouco. Ela ainda tinha mais dez minutos até que precisasse voltar para a sua baia de atendimento, no segundo andar do prédio.

— Tenta saber dela o que mais gosta de fazer na hora do “vamos ver”. O que a deixa mais relaxada, o que lhe dá mais prazer… Talvez, você esteja querendo controlar de mais a situação e esquecendo de perguntar a ela quais são seus gostos. Imagino que assim dê mais certo da próxima vez que tentarem.

Eu resolvi seguir os conselhos sábios de Nalanda que eu, como macho dominante e burro, não tinha me dado conta. Depois daquilo, passei a prestar mais a atenção nos desejos de Shanaya, observar o que a fazia mais feliz e nossa segunda experiência juntos foi infinitamente mais prazerosa. Ela tinha conseguido superar o seu trauma e passamos a nos entender cada vez melhor em todos os aspectos.

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