Biblioteca
Português
Capítulos
Configurações

Capítulo 2 - A Ilha Paraíso

COM A ESTABILIDADE FINANCEIRA, veio também o momento de desfrutar os prazeres da profissão de turismólogo. Assim, eu e Celso passamos a viajar pelo Brasil e o mundo como agentes de viagem de nossa própria empresa. Nós tínhamos contratado vários funcionários gabaritados para fazer aquele serviço, a nossa tarefa poderia ser apenas sentar no escritório do terceiro andar e administrar os lucros, mas como podíamos resistir a pacotes que incluíam hotel em Miami, traslado da Itália até Viena ou mesmo um fim de semana inteiro curtindo as praias de Recife?

Naquele período, graças ao nosso sucesso empresarial, o terreno começou a ficar fértil de mulheres interessadas e passamos a encher nossas redes sociais pessoais de fotos das mais belas paisagens, acompanhados, os dois, das mais belas garotas.

Desde a adolescência, eu havia adquirido gosto pela malhação e cuidava muito bem do meu corpo. Fazia o tipo “sarado” sem grandes exageros. Braços definidos, abdômen sem gordura, pernas torneadas de musculação e um rosto que não deixava a desejar a nenhum galã de cinema.

O Celso era um pouco menor do que eu, mas era mais forte. Diferente de mim, gostava de exibir os pelos no peitoral definido e apesar de um pouco mais preguiçoso para pegar peso, também frequentava a academia regularmente. Nós dois tínhamos o biotipo que toda garota sonhava e sabíamos que no quesito charme, éramos privilegiados. A combinação “bonito bem-sucedido” se tornou rápido um atrativo grande para o sexo oposto e conforme a Vecchio Tour crescia, aumentavam também as pretendentes que batiam à nossa porta.

Naquele espaço curto de tempo, eu tive duas namoradas, Shanaya e Cibele, mas nenhuma delas tinha conseguido aguentar meu ritmo intenso de viagens e mudanças constantes de endereço por conta do trabalho com a agência. O Celso acabou se amarrando com uma linda morena que ele conheceu na Bahia — e que mais tarde ele trouxe para morar com ele em São Paulo —, mas eu preferi continuar solteiro, aproveitando tudo aquilo que a Vecchio Tour me proporcionava quase sem limites.

Ainda durante aquela empolgação juvenil, resolvi desenvolver em nosso território algo que, a princípio, só ficaria entre amigos e conhecidos, mas que mantivesse aquele clima de “festa adolescente eterna” em que eu estava vivendo, inebriado pelo sucesso profissional. Em uma de minhas viagens pela empresa, tinha visitado uma praia naturista na Espanha que havia me dado vontade de fazer algo parecido no Brasil, e com a ajuda de Celso e de um outro amigo nosso chamado Wagner Vieira, começamos a planejar reuniões naturistas numa ilha do litoral norte paulista, a ilha Itajubá.

O meu pai sempre falava daquele pedaço imenso de terra que havia herdado do vovô Roman desde a minha infância, ainda no bairro de Perdizes, mas eu nunca tinha visitado o local. Antes do divórcio, minha mãe sonhava que o marido construísse uma casa de veraneio para que a família passasse as férias na ilha, mas por alguma razão, o velho parecia ter uma tremenda má vontade de mover uma palha que fosse naquele intento. Quando eu e Celso resolvemos visitar o lugar a primeira vez, tínhamos a certeza que havíamos encontrado o ponto exato para as festas naturistas que pretendíamos organizar e nas semanas seguintes, o que não faltou foram adeptos para embarcar em nossa ideia.

A primeira reunião juntou somente amigos nossos, pessoal mais próximo que conhecíamos da faculdade, escola ou trabalho e aquilo serviu como um termômetro para que tivéssemos uma ideia do que viria pela frente. A partir da segunda reunião, o negócio começou a se tornar mais profissional, e tanto Celso quanto Wagner conseguiram cooptar vários convidados pagantes para a ilha, a grande maioria atraída pelo “boca a boca” gerado pela primeira excursão.

Nalanda Venâncio era uma das amigas de Celso que acabou se tornando peça-chave para o sucesso da nossa empreitada e foi dela a ideia de criarmos uma espécie de ritual de iniciação para cada novo membro da comunidade naturista que visitava a ilha. Ela era uma estudante de Turismo que frequentava a mesma faculdade que nós, pertencente a uma outra turma e nós tínhamos nos conhecido em um bar, numa social entre estudantes. Bastante comunicativa e expansiva, fez a entrevista de emprego para integrar o time da nossa agência em São Paulo após convite de Celso e passou com todos os méritos.

— Pensem em algo como um rito de passagem ou um ritual de batismo de uma seita — começou a argumentar a moça linda de pele escura, olhos verdes cintilantes e belíssimas madeixas douradas encaracoladas à nossa frente —, nós podemos besuntar os novatos com algum tipo de óleo aromatizante afrodisíaco e depois mergulhá-los no mar, algo que funcione como uma purificação, uma aprovação dos deuses dos mares antes que eles sejam aceitos em nossa comunidade. Podemos usar nomes de divindades ligadas aos oceanos, como Netuno, Poseidon ou Andrômeda para os sacerdotes e sacerdotisas do ritual… — A ideia tinha sido desenvolvida toda por ela. Nalanda explanou aquilo com um brilho nos olhos e um sorriso radiante no rosto.

— Vai funcionar como algo simbólico, mas que vai transmitir a ideia de originalidade que vocês tanto querem para as reuniões.

Ela concluiu. Eu e Celso não podíamos ter ficado mais entusiasmados.

As regras para as reuniões semestrais na ilha Itajubá eram muito simples e diferenciava a nossa comunidade naturista de todas as demais que existiam espalhadas pelo mundo. Estávamos desenvolvendo um espaço democrático para que nossos convidados pudessem se desprender das amarras sociais estabelecidas fora dali e onde todos pudessem usufruir de sua liberdade total, sem restrições, em um cenário exótico e paradisíaco.

Depois da segunda reunião, descobrimos que nosso intento tinha dado muito certo. Quando chegavam as férias, choviam interessados em embarcar rumo a nossa “Ilha Paraíso” e os pacotes de viagem para Itajubá apareciam sempre entre os mais procurados do ano. Quando uma excursão se findava, já tínhamos listas imensas de espera para as próximas e o roteiro naturista se tornou um dos maiores sucessos de vendas da Vecchio Tour.

A rave a céu aberto que montávamos na areia da praia rolava até altas horas da madrugada e uma vez dentro, não havia mais como sair, não pelo menos até o dia seguinte, quando usávamos o Phoenix 275 de meu pai para levar nossos convidados de volta ao porto mais próximo.

As idas até a praia funcionavam como uma excursão comum, onde através da Vecchio Tour, nós providenciávamos transporte adequado para que os viajantes chegassem e saíssem da ilha com toda segurança possível. Nossa única exigência era pelo sigilo do lado de fora, uma vez que sabíamos bem que, como as regras na ilha eram flexíveis, acabavam acontecendo todo tipo de envolvimento entre os excursionistas durante as festas que rolavam nos dois dias do fim de semana, o que podia desagradar os mais conservadores. Nosso público variava bastante de semestre a semestre, mas em geral, a faixa etária das pessoas que frequentavam a comunidade era entre os 18 e os 30 anos. Quem procurava o pacote era, em sua grande maioria, solteiro, descolado e disposto a relacionamentos abertos.

— Não temos preconceitos!

Disse Celso, certa vez, entre risos, ao contabilizar os lucros obtidos em uma das nossas excursões.

— Conseguimos bancar a aparelhagem de som, o DJ e a estabilidade das tendas com as acomodações para a próxima temporada?

Eu ficava bastante preocupado com o conforto dos visitantes da ilha, mas tanto Celso quanto Nalanda cuidavam muito bem da parte operacional, permitindo a mim apenas a diversão durante as raves.

— Temos grana suficiente para fazer com que as próximas excursões sejam ainda mais perfeitas.

Era aquele tipo de coisa que eu gostava de ouvir. Os negócios não podiam estar caminhando melhor do que aquilo.

Baixe o aplicativo agora para receber a recompensa
Digitalize o código QR para baixar o aplicativo Hinovel.