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Capítulo 1 - Vecchio Tour

QUANDO MEUS PAIS SE DIVORCIARAM, eu, Ralph Vecchio, ainda era um calouro do curso de Turismo procurando meu lugar ao sol e mal tive tempo para lamentar o fim de seu casamento de quase vinte anos. Meu amigo de faculdade, Celso Moraes, estava morando numa quitinete pulguenta de um dormitório no bairro da Lapa, Zona Oeste da cidade, e foi dele a ideia de abrirmos uma agência para sairmos do aperto.

— Brother… Nós não temos nada a perder. Com o divórcio dos seus pais, você agora se tornou o homem da casa, em breve, vai ter que sustentar a sua mãe e a sua irmã. Mesmo que sejam herdeiros de uma fortuna, vai demorar até que o seu pai, Deus o livre, bata as botas. Logo, a grana vai ficar curta. Uma sociedade é a melhor coisa que podemos fazer nesse momento.

Eu morava numa casa confortável no bairro de Perdizes com minha mãe Laura e minha irmã Rarissa. Tínhamos grana, estabilidade e um carro na garagem, mas tudo aquilo ainda era bancado pelo salário de meu pai, que era um respeitável engenheiro civil. O divórcio tinha sido bastante impactante para todos nós e mesmo que a minha mãe começasse a receber uma pensão considerável por conta da separação, como Celso bem havia me lembrado, muito em breve, eu teria que assumir as contas da casa. A criação da Vecchio Tour foi a minha melhor saída para aquela situação periclitante.

Celso tinha pouco a oferecer na sociedade além do Volkswagen Polo velho que dirigia e seu próprio suor. Filho de uma família humilde advinda do interior do estado, ele havia perdido a mãe há alguns anos e batalhava todos os meses para garantir o dinheiro do aluguel da quitinete, além de custear as mensalidades caras da faculdade em que estudávamos. Como herdeiro de boa parte da fortuna que dispunha o meu velho, eu consegui arcar totalmente com o capital inicial para a criação da empresa, além de cuidar de toda a burocracia que vinha implícita no pacote. A meu sócio, coube então, todo o resto do trabalho pesado, o que ele conseguiu dar conta pela expertise que possuía na área de turismo. Embora, na época, ainda fossemos estudantes, Celso já havia trabalhado por vários anos com um tio em uma agência como a que pretendíamos inaugurar e com ele, aprendeu boa parte dos segredos que faziam as engrenagens de uma empresa de viagens funcionar.

— No começo, podemos pegar algumas dicas com quem já é do ramo há mais tempo que nós — disse Celso em uma das nossas primeiras reuniões, já no imóvel que eu havia comprado para instalarmos a agência —, mas em pouco tempo, já estaremos andando com as nossas próprias pernas.

A Vila Madalena era um dos locais mais aprazíveis para montarmos o nosso negócio na capital paulistana, mas conseguir o prédio de três andares na localização que eu queria, havia sido extremamente desafiador. O bairro boêmio era perfeito para o que eu tinha em mente, a princípio, e seu cenário vibrante combinava com a pegada mais despojada que tanto eu quanto meu sócio pensávamos em dar ao empreendimento. Para que os trâmites legais para a compra fossem, enfim, finalizados, acabei precisando recorrer à ajuda de meu pai, que mesmo morando em outro estado à época e não concordando com a profissão que eu havia escolhido seguir, me orientou através do seu advogado.

Tínhamos apostado muito alto na criação da agência de turismo e ainda estávamos concluindo a nossa graduação na área quando abrimos as portas da Vecchio Tour. Amigos e parentes tinham nos prestigiado na inauguração, mas mesmo as pessoas mais próximas de nós dois ainda duvidavam que, meros garotos inexperientes em tocar um negócio daquele tamanho, fossem capazes de ir muito adiante. Coisas como “vão falir em uns seis meses”, “não fazem ideia do que estão fazendo” ou “estão brincando de empreendedorismo” foram algumas das frases ditas às nossas costas e embora doesse ouvir aquilo, acabamos usando toda a desconfiança em nossas capacidades a nosso favor.

— Nós vamos fazer dessa agência a maior do estado de São Paulo e quiçá, do Brasil!

Estávamos brindando com champanhe barato durante a inauguração, mas naquele mesmo dia, eu fiz uma promessa a meu sócio.

— Nós vamos fazer a Vecchio Tour decolar mais rápido do que pensam os agourentos e vamos gargalhar dessa gente no futuro. Um brinde!

— Um brinde!

E deu certo. Em dois anos, a Vecchio Tour estava despontando em todos os sites especializados como uma das melhores agências de turismo da cidade e não demorou para que, com o nosso trabalho árduo, ela estivesse rendendo lucro suficiente para que começássemos a pensar em abrir filiais pelo país.

Novamente, as pessoas ao nosso redor começaram a tentar puxar nossas rédeas, dizendo que ainda era um passo maior do que a perna pensar em novas unidades, mesmo com o sucesso líquido e comprovado da primeira, mas como antes, decidimos apostar em nosso feeling. Naquele mesmo ano, inauguramos a filial do Espírito Santo e colocamos um amigo nosso chamado Lúcio Rodrigues na cadeira da gerência. O cara era bastante experiente na área, tinha tocado uma agência de viagens em São Paulo por anos e ele foi a nossa melhor aposta para a vaga.

Os erros e acertos em administrar uma pequena empresa numa das cidades mais poderosas e caras do Brasil acabaram moldando o nosso caráter executivo e o que muita gente chamava de “sorte de principiante”, eu denominava como competência. Descendente de italianos que tinham como base profissional a exploração do petróleo e a engenharia em sua gênese, eu tinha realmente tudo para naufragar em um empreendimento que, aos olhos do meu pai, não condizia com o status que a família Vecchio prezava manter. A torcida contra tinha feito com que um ressentimento muito grande crescesse dentro de mim, mas eu soube usar aquela energia negativa como combustível.

— Turismo, Ralph? Você só pode estar de brincadeira!

Júlio estava com o rosto enrubescido e uma veia saltava em sua têmpora esquerda no dia em que informei a ele qual curso havia escolhido na faculdade.

— O Brasil é um país populoso, pai. Há muitas possibilidades de turismo aqui mesmo, sem que, necessariamente, as pessoas precisem viajar para o exterior. Uma agência bem localizada, com um marketing bem-feito pode render bons lucros…

Ele estava irado e era como tentar argumentar com um rinoceronte africano enquanto ele corria a 50 km/h em sua direção.

— O seu bisavô estudou engenharia, o seu avô era engenheiro petroquímico, todos os seus tios estudam engenharia… E o que o meu único filho homem decide fazer da vida? Turismo! Ah, pelo amor de Deus!

Aquela conversa às vésperas do início do curso de Turismo jamais saiu da minha cabeça e fora bastante cansativo tentar convencer Júlio de que, por mais que ele tivesse outros planos traçados para o meu futuro, a única pessoa que realmente podia fazê-lo era eu mesmo. Passei dois anos tendo que ouvi-lo dizer, por indiretas, que estava pagando as mensalidades do meu curso a contragosto e quando finalmente consegui assumir a dívida com o dinheiro que a Vecchio Tour estava começando a render, aquilo foi como vencer uma luta de boxe por pontos. Tinha sido cansativo, havia levado muitos golpes, mas eu tinha conseguido o cinturão.

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