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Prólogo

ITAJUBÁ ERA UMA ILHOTA NO LITORAL NORTE de São Paulo que ficava a uma distância de oito quilômetros de Ilhabela e São Sebastião. Sua extensão total era de 83 km², tinha elevação de 900 metros e era completamente deserta. Possuía dois paredões de vegetação que encobriam a costa do lado norte, escondendo a praia exuberante de areia branca e fina dos olhos de quem passeasse pelo mar. Os ventos sopravam na região a uma velocidade de 14 km/h e a umidade relativa ali girava em torno de 70°. Era um verdadeiro paraíso oculto em meio à natureza e suas terras valiam alguns milhões.

Celso estava pilotando a lancha Phoenix 275 Platinum de 27 pés quando nós atracamos perto da areia. Amarrei as cordas da embarcação no cais construído há alguns anos para visitação e desembarcamos. Aquele era um dia ensolarado de verão, fazia quase 32° e o chão da praia estava fervilhante. Descemos descalços da madeira do atracadouro de duas vagas e andamos alguns metros em direção ao centro da ilha. Meu amigo se virou para o mar, entusiasmado.

— Esse lugar é perfeito, brother!

O sorriso no rosto mal barbeado do rapaz moreno de cabelos escuros e corpo robusto ficou estampado, o que logo me contagiou também. Eu já havia visto fotos do lugar na tela do computador de meu pai, mas estar ali pessoalmente pela primeira vez e sentir o clima tropical na pele não era algo que se podia descrever facilmente.

— Aqui diz que tem pelo menos oitenta quilômetros de extensão — Celso estava segurando uma pasta com documentos de propriedade da ilha que eu havia conseguido no escritório da imobiliária —, é mais do que precisamos para começar o nosso empreendimento de verão!

Eu lancei um olhar no entorno do cenário paradisíaco e avistei, a vários quilômetros acima da minha cabeça, um dos paredões que escondiam a praia. A vegetação era extensa, as árvores e a mata fechada circundavam o território, criando a proteção natural exata para uma praia naturista, o tal empreendimento citado por meu amigo de faculdade e atual sócio.

— Vamos andar mais alguns metros e explorar a área.

A ilha Itajubá era uma herança de meu avô, Roman Vecchio, ao meu pai e há muitos anos permanecia em seu poder sem qualquer tipo de usufruto. O velho tinha sido um magnata do petróleo nos anos 70 que havia feito grande fortuna com plataformas de extração na Venezuela e que depois de enriquecer no país vizinho, resolveu gastar no Brasil o dinheiro quase infinito que havia conquistado. Descendente de italianos, Roman era o filho único de uma família muito bem-sucedida de imigrantes europeus exploradores de mão-de-obra brasileira barata e aqui, ao lado da esposa Dalva, tivera, além de meu pai Júlio, mais dois filhos, meus tios Paulo e Cláudio.

Após um acidente fatal em um dos jatinhos de sua empresa, na segunda metade dos anos 90, Roman deixou um patrimônio avaliado em quase meio bilhão na época, o que foi dividido em testamento igualitariamente a seus herdeiros. A meu pai, além de uma casa em Angra dos Reis, que valia sozinha quase quatro milhões, vovô havia passado para o seu nome a escritura da ilha Itajubá e toda a sua extensão deserta de areia à beira-mar. Ele era o mais velho dos filhos, por isso, tinha se dado melhor na divisão de bens — embora meu tio Paulo tivesse herdado o Rolls Royce Phanton de 150 milhões do velho.

— Você tem certeza que toda essa ilha é de propriedade da sua família, Ralph?

Enquanto andávamos pela costa, com o vento forte açoitando o nosso rosto, Celso parecia cada vez mais incrédulo com a beleza estonteante do que logo apelidamos de “Ilha Paraíso”.

— A escritura está aí nas suas mãos, mano. Acredite, essa ilha é todinha nossa!

Gaivotas passeavam pelo céu enquanto as ondas quebravam na areia da praia a um quilômetro. Eu e Celso andamos por quase trinta minutos ilha adentro e mal tínhamos coberto 1% de sua extensão total.

— O que acha de organizarmos excursões regulares a cada seis meses? — Ele falava ofegante, ao meu lado — A gente vende as passagens a preços acessíveis, enche uns dois barcos no porto mais próximo e traz a galera toda para cá, para curtir por um fim de semana inteiro.

Estávamos empolgados com a ideia.

— Podemos montar umas tendas fixas nesse espaço — e eu apontei à minha frente, a uns quatro metros —, trazemos mantimentos para uns três dias e alocamos os visitantes.

Paramos os dois por um instante na areia. Assim como eu, Celso parecia começar a visualizar o projeto em sua mente.

— Isso vai dar muito certo!

Andamos por mais algum tempo e quando retornamos à lancha que também era uma propriedade do senhor Júlio Vecchio, voltamos a rascunhar mentalmente a ideia de criar naquela ilha uma espécie de refúgio naturista para os nossos amigos e seus convidados.

— Acha que o Wagner e a Nalanda também vão embarcar na ideia?

Estávamos os dois sentados na proa, encarando o azul do mar à nossa frente. O barco balançava suavemente sob nós, ainda preso ao atracadouro.

— Acho não — respondi, bebendo um gole d’água em uma garrafa de 500 ml —, eu tenho certeza!

Meu amigo então deu uma risada alta e esfregou as mãos, imaginando todas as possibilidades de lucro e diversão que poderíamos ter com aquele lugar. Assim como ele havia herdado o local do meu falecido avô, um dia, eu também iria herdar aquela ilha do senhor meu pai e nada mais justo que começasse a planejar o seu uso o quanto antes.

— É um tremendo desperdício todo esse monte de terra aqui sem utilidade. Podemos preparar tudo já para o próximo período de férias. Tenho certeza que adeptos ao bom e velho naturismo não vão faltar!

Eu concordava com Celso.

— Assim que planejarmos tudo direito, vamos começar a divulgar as excursões em nossa agência — disse eu, sorridente —, podemos pedir a ajuda do Wagner e da Nalanda para organizar tudo. Em algum tempo, o nosso “sexpoint” estará funcionando a todo vapor e aí, amigo — eu apontei o dedo indicador para o alto, acima de nossas cabeças — o céu será o limite!

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