Capítulo 4 - A tentação vermelha
UM DOS CAMINHOS para conquistar de vez Claudia passava por sua filha Kelly, que continuava dificultando nossa relação o máximo que ela conseguia. Estávamos dividindo o mesmo teto há dois dias e não tínhamos trocado mais do que duas ou três palavras desde que havíamos chegado ali. Até a sua amiga Micaela, que eu mal conhecia, já tinha sido bem mais solícita a uma aproximação depois de nosso início meio desastroso, mas Kelly continuava fazendo jogo duro.
A menina de cabelos alourados estava outra vez na esteira quando saí do mar onde estava nadando com Claudia até pouco tempo e resolvi tentar nova aproximação. No caminho, passei por um casal rechonchudo que discutia por alguma coisa relacionada a cachorro-quente e me sentei na areia ao lado dela fingindo casualidade. Minha bermuda estava pesada no corpo por estar molhada e procurei interagir com a garota, puxando assunto:
— Eu devia ter vindo de sunga. A bermuda pesa muito na hora de nadar.
Eu estava ofegante, minha voz saiu mais grave. Kelly estava reclinada na esteira usando um par de óculos escuros. Tinha colocado um biquíni preto e haviam marquinhas de sol em sua pele branca.
— Falou comigo?
Era o seu tom mais arrogante. Continuei olhando para o mar evitando muito contato visual com o corpo dela — que era mignon, mas que tinha seus encantos — e resolvi tocar o dedo na ferida de uma vez:
— Eu te vi na porta do quarto ontem à noite, Kelly.
De esguelha, reparei que ela tirou os óculos e ajeitou os cabelos claros. Ela fingia que não me ouvia.
— Estava me espiando na cama com a sua mãe? Gostou do que viu?
A encarei com um sorriso meio cínico no rosto. Os olhos dela estavam quase azuis contra o sol. As sobrancelhas finas se curvaram um instante, ela franziu o cenho e fez menção de que não havia gostado do comentário. O rosto de boneca se alterava quando eu estava por perto e era como se ela vestisse uma máscara sisuda antes de falar comigo. Mesmo assim, ela ainda era extremamente linda, isso não dava para negar!
— Eu já vi melhores.
Kelly desviou os olhos rapidamente para o meio das minhas pernas e então, voltou a reclinar as costas no encosto da esteira. A pele dela estava arrepiada. Soprava uma brisa fresca contra nós. Eu aproveitava um pouco da sombra do guarda-sol que ela utilizava sentada naquela posição.
— Não foi o que o seu sorrisinho contou quando você notou que eu estava te vendo.
Kelly ficou bastante incomodada com o que eu disse e se abaixou para apanhar algo na bolsa que deixamos ao lado das esteiras. Agiu tão rápido que nem deu tempo de me esquivar. Um jato de protetor solar esguichou no meu rosto.
— Eu não estava sorrindo. Eu quase vomitei vendo vocês dois juntos, seu babaca!
A garota impulsiva ainda me empurrou assim que se levantou e saiu pisando duro pela areia enquanto eu, aturdido, tentava tirar aquele creme grudento da cara. Algumas pessoas a alguns metros dali viram a cena toda e caíram no riso, se divertindo com o chilique da minha futura enteada. Tive ganas de dar umas palmadas na bunda daquela atrevida, mas já estava começando a entender qual era o seu joguinho e decidi segurar a onda. Ainda tinha aquela tarde e todo o dia seguinte para conquistar a entojadinha.
Por volta das duas da tarde, resolvemos todos voltar para a casa em frente à praia e carreguei de novo toda aquela bagagem sob o braço. A lataria do meu carro refletia a luz intensa do sol na garagem e todas as meninas estavam bastante coradas, mesmo com os litros de protetor solar que haviam passado. Comentei a respeito vendo a pele de minha irmã bem morena e Kelly caçoou:
— Tem gente que se queimou mesmo depois de receber um jato de protetor solar na cara!
Ela estava sendo sarcástica e mais ninguém entendeu o comentário que obviamente era direcionado a mim. Pelo menos, estava conseguindo arrancar comentários irônicos da garota.
A casa era equipada com dois banheiros e Claudia ocupava o do piso inferior ao lado da cozinha quando decidi subir para tomar um banho no que ficava no andar dos quartos. Rachel estava na piscina e dava para ouvir vozes animadas lá embaixo. Subi as escadas e tirei a bermuda no começo do corredor. Estava com uma cueca boxer por baixo e nem parei para pensar que mais alguém estivesse ocupando o segundo banheiro. Na minha cabeça, todas as garotas estavam na piscina. Entrei com tudo.
— Opa, perdão!
Micaela estava embaixo da água do chuveiro peladinha. Espuma de sabonete escorria em suas pernas de perfil e sem qualquer pudor, ela se virou quando me viu.
— Quer dividir o chuveiro? A água tá morninha.
Meus olhos se perderam naquela visão maravilhosa. Ela era toda vermelhinha, tinha pelos ruivos acima da xota e sardas salpicavam o contorno dos seios médios. Possuía mamilos tão rosados quanto as aréolas e os dois eram levemente estrábicos.
— Me desculpa, Micaela… achei que você estava na piscina…
Eu já estava prestes a dar meia-volta para sair dali envergonhado.
— Vem cá! Não precisa ficar com vergonha. Eu não mordo não!
A menina ruiva tinha um sorriso muito safado no rosto. Não estava nem um pouco constrangida em ter sido flagrada em pleno banho e eu tive que sair rápido antes que ficasse instigado demais, fechando a porta em seguida. A imagem daquela ninfetinha pelada era extremamente excitante e não quis mais sair da minha cabeça ao longo do dia.
Você tem uma namorada que te ama… Não se esqueça disso! Pensei, tentando manter a minha própria sanidade após o que tinha visto.
Algumas horas mais tarde, um pouco mais refeito do susto no banheiro, eu preparei um prato leve para darmos uma enganada no estômago e Rachel ajudou a pôr a mesa. Claudia elogiou o meu recém-descoberto talento culinário e as garotas aprovaram o filé de merluza grelhado que aprendi a fazer seguindo uma receita de um canal do Youtube. O assunto à mesa girou em torno das aptidões domésticas de cada um e minha irmã foi honesta:
— Gente… eu tenho zero aptidão como dona de casa! Eu já misturei roupa branca com colorida na máquina de lavar, esqueci de tirar a proteção de alumínio do prato antes de esquentar no micro-ondas, já quebrei copo lavando louça… eu sou um desastre!
Kelly colocou a mão na boca após emitir um som de incredulidade. Parecia ter aprovado meu filé e nem reclamou enquanto comia. Micaela, sentada a seu lado na mesa, entrou no assunto:
— Eu sei fazer só o básico mesmo. Limpar o quarto, arrumar o closet… mas na cozinha, eu sou uma negação. O Ralph bem que poderia me ensinar, não é?
A ruiva nem sequer estava tentando disfarçar. Estava se oferecendo na cara de Claudia, embaixo do nariz de todas à mesa. O clima tinha ficado extremamente quente depois do flagra no banheiro e a garota me olhava como se quisesse me atacar a qualquer momento.
Será que é coisa da minha cabeça ou ela está mesmo flertando descaradamente comigo? Pensei, curioso.
— Vocês estão elogiando aí o meu filé, mas se não fosse o Youtube, eu nem saberia como limpar a merluza! — Admiti, rindo.
— Não seja modesto, amor — disse Claudia da cabeceira da mesa, já em sua segunda porção —, precisa ter talento pra acertar o ponto desse filé. Não é só olhar um vídeo e pronto!
— Também não está tão bom assim — Kelly enfim se pronunciou negativamente. Até que tinha demorado! —, o meu pedaço está meio queimado aqui embaixo!
Ela revirou o filé em seu prato usando o garfo e a faca para mostrar o tal queimado. Não era nada mais do que um chamuscado da grelha. Só estava sendo preciosamente chata.
— O meu está uma delícia — elogiou Micaela me encarando do outro lado —, parabéns, Ralph. A próxima receita pode ser um salmãozinho bem rosadinho, o que você acha?
Salmãozinho… rosadinho… essa ruiva é muito safada! Pensei enquanto enxergava aquele olhar de malícia no rosto da menina. Depois daquele papo, eu não parava mais de pensar no seu “salmãozinho rosadinho”.
