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CAPÍTULO 3

Você é arrancado das ruínas... De seu desvaneio silencioso.

(Angel — Sarah Mclachlan)

Estava subindo o morro, quando uma moto me acompanhou.

— Voltando agora Nanda?

— Oi Joca. Moto nova?

— Um presente. Quer uma carona para casa?

— Obrigada, mas...

— É um longo caminho até sua casa. Vem, sobe aí.

Hesito. Adoro Joca de verdade, mas não quero ouvir meu nome na boca das pessoas, falando que estou me envolvendo com um membro do tráfico.

— Sobe logo.

— Ok, aceito sua carona.

A moto é uma XL, na cor vermelha, nova, sabe-se lá o que ele teve que fazer para conseguir tal presente. Eu realmente temo pela vida de Joca. Ele é super inteligente, mas ao invés disso, vive colado com homens que não têm futuro algum.

Quando Joca estaciona em frente minha casa, minha mãe está na porta observando nós dois.

— Obrigada pela carona.

— Por nada. Te vejo por aí.

Quando Joca sumiu sai, volto meu olhar para minha mãe.

— Porque está parada aí na porta? Onde está Rodrigo? Ele aprontou mais uma vez?

— Seu irmão está bem. Entre, quero ter uma conversa com você.

Merda.

— O que aconteceu?

Pelo jeito como segue direto para a cozinha, o assunto parece ser sério.

— O que conversamos sobre sua amizade com Joca?

— É por isso que está zangada?

— Você sabe no que ele está envolvido — começa a gesticular.

— Sei exatamente a vida que ele leva. Não precisa se preocupar, porque eu não estou andando com ele. Foi só uma carona.

— Eu não quero você metida em problemas. Eu não tenho condições psicológicas para aguentar outra fase sua.

— Isso ficou no passado, ok?

— Será que ficou mesmo? Tenho medo que a qualquer momento você tenha outro surto.

— Já se passaram dois anos.

Minha mãe passa as mãos nos cabelos desarrumados, respirando fundo. Vejo seu jeito sereno voltando e relaxo.

— Desculpa — diz enquanto me puxa para um abraço.

— Tudo bem mãe.

— Tenho tanto medo de te perder de novo.

— isso não acontecerá. Confie em mim.

— Ok. Deixa-me fazer algo para comer enquanto você me conta como foi lá na faculdade — minha mãe muda de assunto.

— Nossa mãe, lá é maravilhoso! A faculdade é enorme. As instalações, as salas... Tem até seu próprio jornal. Conheci uma garota, Belinda... Ela tem a própria sala, e comentou sobre uma vaga de estagiária.

— Isso é ótimo! Conta mais.

— Conheci suas amigas, elas parecem ser legais. Me convidaram para uma festa de confraternização.

— Uau! Já está entrando para a turma. Terá bebida?

— Qual é a festa que não tem bebida mãe? Mas relaxa, não vou beber. Só dançarei até meus pés criarem bolhas. A festa é na casa de um tal de Kadu.

— Você vai a uma festa na casa de um garoto que nem conhece?

— Segundo Belinda, ele nem saberá quem tanto irá.

Enquanto devorava meu almoço, contava mais detalhes sobre a faculdade. Minha mãe ouvia tudo com atenção.

Rodrigo chegou em casa pontualmente às cinco e meia. Jogou a mochila em cima do sofá e seguiu direto para a cozinha onde estávamos rindo de alguma situação engraçada que acontecera no trabalho dela.

— Também quero rir.

— Mocinho, precisamos ter uma conversa particular, só eu e você.

— Essa é minha deixa para ir para o meu quarto.

— O que eu fiz dessa vez? — ouço Rodrigo indagar enquanto saio da cozinha.

Aproveito para fazer uma varredura pelo guarda-roupa, tentando encontrar algo apropriado para vestir. Acabo optando por um short jeans com cintura alta.

— Agora vamos à busca de uma blusa.

Meia hora depois, minha mãe entra no quarto e solta um longo assovio. Olho para ela e começo a rir.

— Parece que um furacão passou por aqui.

— Sabe aquela blusa frente única de oncinha? Aquela que comprei na promoção quando fui ao shopping?

— Aquela que você não tira do corpo? — ela ri.

— Ela mesma. Sabe onde está?

— Está na máquina de lavar.

— Que droga! O que vestirei agora?

— Seu guarda-roupa está entupido de roupa.

— Mas ela seria perfeita para usar com esse short — falo apontando para a peça em cima da cama.

— Tem aquela regata rosa, que você ganhou da Cristina.

— Por que não pensei nela?

Minha mãe ri.

— Como foi à conversa com o Rodrigo?

— Ele está tendo dificuldade em algumas matérias. Terei que procurar uma explicadora para ajudar seu irmão.

— Como vamos pagar uma explicadora?

— Não se preocupe com isso. Darei um jeito. Também temos que pensar nos seus gastos na faculdade.

— Nem pensar. Eu consegui juntar algum dinheiro naquelas faxinas que fiz nas férias. Dá para pagar algumas despesas na faculdade até eu conseguir um trabalho ou um estágio.

— Filha, não foi à toa que aceitei todas as faxinas que apareceram. Eu queria ter uma poupança para quando você entrasse na faculdade. Vou pegar o cartão do banco. Chegou já faz alguns dias.

— A senhora não me falou nada.

— Não falei porque era uma surpresa. O meu presente pela sua conquista.

— Mãe, a senhora é demais!

— Eu sei.

Rimos juntas.

— E Cristina? Nunca mais veio aqui.

— Aquela cabeça de vento? Deve estar enfiada na casa do Douglas. Aqueles dois vivem brigando, mas não se desgrudam.

— Ela vem aqui antes de você ir para a faculdade?

— Ela falou que vem. Mas conhecendo ela, acabará esquecendo.

Às 20:00hs, recebo a ligação de Belinda avisando que já está chegando para me buscar. Dou uma última olhada no espelho para verificar se nada está fora do lugar.

Fiquei na dúvida no que usar, tênis ou sapatilha. No final acabei optando pelos tênis. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo, mas não ficou legal, então acabei deixando eles soltos.

— E então, como estou? — pergunto quando chego à sala.

— Você está linda filha. Pegou seu celular?

— Está aqui comigo.

— E o dinheiro para voltar para casa?

— Também.

— Não dormirei sem saber que você está bem. E por favor, nada de bebida.

Reviro os olhos.

— Eu não tocarei em uma gota de álcool. Agora deixa eu descer.

— Quero saber de tudo depois — meu irmão fala colocando uma mão-cheia de pipoca na boca.

— Pode deixar moleque — falo bagunçando seu cabelo.

Quando chego ao ponto de encontro, procuro o carro de Belinda e assim que ela me vê, pisca os faróis. Jessye baixa o vidro do passageiro e faz um sinal me chamando. Apresso o passo e vou de encontro a elas. O carro de é um New Batle vermelho quatro portas.

— Estão aqui há muito tempo?

— Acabamos de chegar — Belinda responde.

Sigo para o banco de trás e quando entro, encontro Ivy digitando freneticamente no seu celular.

— Oi Ivy.

— Oi Nanda. A festa está bombando, mas o anfitrião ainda não deu o ar da graça.

— Então vamos deixar aquele ambiente mais alegre — Belinda fala enquanto dá partida no carro.

Belinda estava usando camiseta com a parte da frente toda em lantejoulas pretas e as costas toda transparente. Um short jeans desbotado combinando com uma sandália de salto agulha preta. Ivy com um macacão vermelho, que vai até um pouco abaixo da bunda e scarpin preto e Jessye vestindo um tubinho preto e botas pretas cano alto.

— Não trouxe biquíni? — pergunta Jessye retocando o batom.

— Biquíni?

— Conversamos sobre isso hoje cedo, lembra? Todos levam seus trajes de banho.

— Nanda deve ser como eu, não gosta de se exibir — Belinda ri.

— E quem disse que vou para me exibir?

— Você só se veste assim quando quer chamar atenção. O vestido mau cobre sua bunda. Se seus pais vissem como você se veste longe dos olhos deles.

— Não vamos estragar a noite falando dos meus pais, ok?

— Ok. Tentará pegar quem desta vez?

— Arriscarei um gostosão sarado.

As três caem na gargalhada.

— Boiei na piada.

Elas gargalham mais ainda. Entro na onda, e depois que Belinda coloca o CD da Beyoncé, o clima do carro fica animadíssimo.

Vinte minutos mais tarde, estamos entrando em uma área privada no Recreio dos Bandeirantes. Nos identificamos e recebemos passes livres. Atravessamos o gigantesco portão e vamos procurar um lugar para estacionar.

Belinda escolhe uma vaga embaixo de uma árvore, uma das poucas vagas restantes. Jessye dá uma última olhada antes de sair do carro.

Belinda trava as portas, e seguimos para a entrada da casa. A visão que tenho da casa é surreal. E quando digo isso, pode acreditar que estou de queixo caído.

A entrada composta por um caminho elaborado com pequenos ladrilhos de concretos brancos. A largura suficiente para passagem de duas pessoas, que dá direto para a porta de entrada da casa.

Solto um assovio. Só vi algo assim na TV, em filmes ou novelas. Gigantesca, pintada de branco, dois andares recheados de luxo. Um jardim tão grande que dá para correr uma maratona e janelas com quase o dobro do meu tamanho. Olho para as meninas que estão me observando.

— O que foi? — indago.

— Nunca viu uma mansão antes? — Jessye pergunta.

— Claro que vi. Nas novelas e nos filmes. Isso conta?

— Vem, vamos entrar — disse Belinda seguindo na frente.

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