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Tinha que ser você - Livro 1

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Rê Araújo
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Notas

Resumo

Nanda seria normal como qualquer garota da sua idade se não fosse à perda do seu pai, vítima de bala perdida quando ainda era criança, e Bernardo, seu namorado, anos depois. Perdida e desolada, Nanda se entregou a tristeza. Festas e bebidas foram tudo o que a mantiveram viva. Depois de quase morrer por conta do excesso de bebida, decide dar uma nova chance a si mesma ao entrar para a faculdade. Quando seu caminho cruza com os gêmeos Nick e Kadu, Nanda sabe que será difícil se manter afastada quando os dois começam uma disputa pelo seu coração. Nick é o príncipe montado em seu cavalo branco. Kadu é o lobo em pele de cordeiro. A garota que se fechou para o amor, permitirá que seu coração ame novamente? E se isso acontecer, a quem se entregará?

amor

CAPÍTULO 1

Vou correr o risco, fazer a mudança e me libertar

(Breakaway - Kelly Clarkson)

Na minha vida nada veio de graça. Sempre tive que correr atrás dos meus sonhos. Entrar na faculdade Braz Cunha, foi o maior sonho já conquistado. Ela é uma das mais conhecidas e renomadas no ensino superior. Só existem duas maneiras de você entrar: uma é sendo herdeira de uma família rica, porque o Braz é uma universidade particular e muito cara e a segunda opção é ganhar uma bolsa 100%, o meu caso.

Disputei com mais de mil candidatos e posso afirmar que foi a prova mais difícil que eu já fiz. Mas o importante é que no final eu consegui uma das bolsas. Estou nervosa, por que é a primeira vez que ficarei longe da minha família.

Na minha casa somos três: eu, meu irmão Rodrigo de 10 anos e minha mãe Nádia. Ela lutou muito para nos criar após nosso pai ser assassinado pela polícia, em uma de suas batidas na comunidade.

Até hoje, esperamos uma resposta na acusação dos policiais envolvidos. Ele era inocente. Um homem trabalhador, que dedicava sua vida pelo nosso sustento e educação.

Na comunidade onde moro, cerca de 70 mil moradores ocupam os becos e vielas, sobre o comando do tráfico, onde a troca de tiro é constantemente.

O Morro da Raposa é uma cidade dentro de outra cidade. É como se fosse a Fantástica Fábrica de Chocolate, porém sem o chocolate e o Jonny Depp. Tudo o que você precisa, aqui tem. De postos médicos a bancos, farmácias, lojas de roupas, pequenos restaurantes.

Minha mãe trabalha como diarista e consegue tirar o suficiente para manter nosso sustento, e ter um pouco de dignidade. Ainda é jovem, nem chegou aos quarenta.

Rodrigo é um garoto muito inteligente, mas essa fase em que ele está é preocupante. Como minha mãe trabalha, ele fica aos meus cuidados. Não é uma missão fácil. Tem que ter a cabeça feita para não entrar no jogo errado.

Nossa casa é pequena, com cinco cômodos bem apertados. Construída com muito trabalho e esforço dos meus pais. Divido meu quarto com meu irmão que não me dá nenhuma privacidade.

Meu sonho é cursar jornalismo. Escolhi seguir essa carreira graças ao grande jornalista Tim Lopes, assassinado enquanto fazia uma reportagem sobre prostituição nas comunidades.

Apesar de viver cercada de traficantes, levo uma vida normal. Não sou muito de sair e não me meto em confusões, ou pelo menos tento.

Devido à minha ansiedade, praticamente caí da cama. Acordei a tempo de ver minha mãe sair para mais um dia de trabalho. Arrumei a casa, preparei o almoço, coloquei a roupa para lavar, enfim, tudo para facilitar a vida da minha mãe.

Morar em uma comunidade tem seu lado bom e ruim. O lado bom é que a maioria dos moradores me conhece, é quase uma obrigação ter que falar com todo mundo. Principalmente se essas pessoas viram você crescer. O lado ruim é que por ser conhecida por todos, sempre tem aquela pessoa intrometida que adora dar palpite na sua vida.

Minha mãe colocou um apelido carinhoso para essas pessoas: "Toma conta da minha vida". Às vezes, eles descobrem sabem das fofocas primeiro do que eu.

Da minha casa até o ponto de ônibus é uma bela caminhada. Entre escadas e becos, chego a andar uns vinte minutos, isso quando se anda em passos largos.

— E aí Nanda, a onde está indo gata assim?

— Oi Joca. Estou indo na universidade Braz Cunha efetuar minha matrícula.

Joca é desses amigos que você conhece desde que se entende por gente. Nossas mães são grandes amigas. Porém, Joca escolheu seguir o lado errado. Ele faz parte do tráfico, abandonou a escola para entrar para essa vida.

Ele é lindo, olhos claros, filho de gringo. Seu pai é alemão que se apaixonou por sua mãe em uma visita que realizou aqui na favela e sumiu quando ela engravidou.

— Então é verdade o que andam falando por aqui?

— O que esse povo fofoqueiro anda falando de mim agora? — pergunto em tom de deboche.

— Falaram que a filha complicada da Nádia conseguiu uma bolsa para uma famosa faculdade.

Mesmo após dois anos, os moradores ainda se referem a mim como "a complicada". Quando penso que o passado não vai me alcançar, alguém faz questão de me lembrar de uma época que enterrei há muito tempo.

— Eles nunca vão esquecer esse assunto, não é mesmo? — falo com voz chateada — mas é verdade. Ainda nem consigo acreditar ser real.

— Eu sempre tive certeza que você conseguiria entrar em qualquer faculdade que quisesse. Você é muito inteligente.

— Você também é inteligente Joca. Porque não volta a estudar? Fazer faculdade?

— Aqui está minha faculdade, Nanda — Joca mostra sua arma.

— Estou vendo. Preciso ir agora Joca, nos vemos depois.

Joca é legal, mas às vezes me dá vontade de falar algumas verdades. Mas que direito tenho de me meter na vida dos meus amigos? Todos têm o direito de escolherem seus caminhos.

Quando vejo o ônibus se aproximar, faço sinal, e para minha alegria consigo um lugar para sentar. Se eu puder contar com a sorte no trânsito, em menos de uma hora estarei atravessando os portões da faculdade.

Trinta minutos depois faço sinal para o motorista do ônibus. O lugar é enorme. Portões de segurança em torno de todo o campus.

Depois de um século, chego à secretaria. Acima da porta, há uma pequena placa com letras maiúsculas indicando a sala. Bato na porta e aguardo pela resposta.

— Pode entrar — ouço uma voz masculina responder.

— Com licença, sou Fernanda Coutinho.

— Oh! Claro! Sente-se, por favor.

Coloco minha bolsa na cadeira ao lado enquanto me sento.

— Meu nome é Ricardo Medeiros, sou reitor e professor de comunicação digital. Sente-se, por favor.

Ele não parece ter mais do que quarenta anos e parece cuidar muito bem do corpo.

— Obrigada.

— Você ficou entre as cinco primeiras pessoas que realizaram o vestibular. Meus parabéns!

— Obrigada, eu estudei muito para estar aqui.

— E conseguiu. Trouxe a documentação?

— Sim, senhor.

— Ótimo. Então vamos logo formalizar a sua entrada na equipe. Aqui você irá aprender coisas maravilhosas. Tenho certeza disso. Não preciso lembrar que não toleramos atrasos sem justificativas, certo?

— Sim, senhor. Já tenho conhecimento das regras — falo baixinho.

O que ele quis dizer com essas palavras intimidadoras? Assustar-me? Qual é, sou nascida e criada em uma favela, se uma arma não me assusta, quem dirá algumas palavras.

— Ótimo! — Ricardo abre um largo sorriso — pedirei para um dos veteranos lhe acompanhar em um passeio pela instituição.

— Obrigada.

Ricardo pegou o telefone e realizou uma ligação rápida e eu no fundo, agradeci a vinda de alguém para me ajudar. Esbocei um sorriso para ele e ouvi uma batida de leve na porta.

— O senhor mandou me chamar?

— Entre Nícolas. Quero que conheça Fernanda — Ricardo tornou a olhar para o garoto — Nícolas é um dos nossos veteranos, está cursando o segundo período de publicidade. Vocês se encontrarão muitas vezes durante o curso.

— Oi Fernanda.

Quando me levanto para cumprimentá-lo, quase caio da cadeira. O cara é tão perfeito que parece ter saído de uma revista de moda. Pele clara, cabelos louros, desalinhados, olhos verdes como safiras. Sobrancelhas grossas, rosto oval e lábios finos avermelhados. Camiseta preta, calça jeans desbotada e All Star preto.

— Olá — é tudo o que falo enquanto engulo a bola formada na minha garganta.

— Nícolas, vou encarregá-lo de ajudar Fernanda no que ela precisar para se adaptar.

— Claro senhor.

Nícolas abre a porta e eu não posso deixar de dar uma bela secada na sua bunda apertada sobre a calça. Até onde sei, não é pecado olhar para bunda de garotos lindos da faculdade.

— Você é bem forte. Quantos anos você tem? — a pergunta escapa antes que eu possa pensar direito — você não parece ser muito mais velho do que eu. Não que eu seja tão nova...

Meu rosto queima quando ele me encara.

— Vinte e um — ele tenta não rir.

— Você pratica algum exercício? — as palavras saltam da minha boca.

Tenho certeza de que não conseguiu esse corpo sentado em uma sala de aula fazendo anotações.

— Aqui praticamos vários esportes: natação, karatê, judô, futebol... Conta ponto como aulas complementares — ele esboça um leve sorriso.

— Você está brincando?

— Não.

— Não li essa parte no grande livro de regras que recebi — esboço um sorriso.

— Parece que não gostou.

— Você notou?

Nícolas ri. Tem um sorriso lindo, e dentes brancos perfeitos.

Enquanto caminhamos pelo corredor, sinto alguns olhares nos observando, conversando em sussurros.

— O pessoal aqui é bem curioso.

— Você é novata. Sabe como é, sangue novo na área.

— Espero que eles não queiram meu sangue.

— Como?

— Nada. Foi uma piada, mas pela sua reação, não posso fazer isso em público.

— Mas pelo menos você tenta ser engraçada.

— Dou o meu melhor.

Ele ri novamente.

— Não terá aquele negócio de trote para os calouros, vai? Por se tiver, Nícolas...

— Pode me chamar só de Nick. O diretor gosta de chamar os alunos pelo nome.

— Ok Nick. E os trotes?

— Você parece não gostar da ideia.

— Parece uma ideia idiota. Obrigar as pessoas a passarem por cenas constrangedoras para proporcionar diversão aos veteranos.

— Me senti um monstro agora.

— Desculpa. Eu não quis dizer que você é um monstro. É que...

Nick ri.

— Me desculpe. Esse é dos meus defeitos. Não consigo manter a boca fechada.

— Está falando igual a uma amiga minha.

— Oi Nick, amiga nova?