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CAPÍTULO 2

E dá para ver meu coração bater, dá para ver através do meu peito

(Russian Roulette - Rihanna)

Olhamos para a mesma direção e uma garota nos observa intrigada. Tem quase minha altura, calça jeans, sandálias pretas de salto alto, blusa com corte V mostrando seu busto avantajado e longos cabelos ruivos.

— Belinda, estava falando de você.

— Espero que apenas coisas boas — ela sorri.

— Essa é Fernanda — Nick aponta em minha direção.

— A bolsista, claro. Oi, o Nick não me apresentou direito. Sou Belinda Morgan. Sei quase tudo sobre você.

— O quê? — pergunto confusa.

— Belinda sempre sabe tudo.

— Não se sinta ofendida, mas Braz Cunha precisa estar informado sobre tudo que acontece por aqui. Temos uma página no Instagram, onde estão arquivados todos os alunos.

— Mas eu não estava matriculada até quinze minutos atrás. Como obteve informações tão rápidas?

— Revelo o milagre, mais não o santo — ela ri — realizei um belo relatório ao seu respeito. Descobri que você vem de uma favela daqui do Rio, ainda não pacificada. Só não sabia que você era negra.

— Algum problema com minha cor? — pergunto me preparando para rebater qualquer preconceito com a minha cor.

— Não sou preconceituosa. É que são poucos os negros que conseguem entrar aqui. Logo você perceberá isso. Braz no seu início só aceitava filhos brancos e de famílias ricas, assim como eu. Acredite, não estou me gabando. Entrei aqui com meus méritos, e não porque meus pais compraram a minha matrícula. Não é mesmo, Nick?

— Belinda, o período ainda nem começou. Não vamos começar com esse joguinho agora.

— Ok. Trégua. Então Fernanda...

— Só Nanda, por favor.

— Tudo bem Nanda. Onde vocês estavam indo?

— O reitor me pediu para apresentar as instalações para ela.

— Então pode ir terminar o que você estava fazendo, eu conduzo nossa amiga aqui pelo campus.

— Estou com tempo livre.

— Tenho certeza de que você deve ter algo para fazer.

Belinda começa a me arrastar com ela. Olho de relance para Nick, meio que pedindo socorro. Ele apenas dá de ombros e acena, dando tchau e seguindo seu caminho.

Subimos dois lances de escadas, que acabam comigo. Belinda parece ótima, sem sinal algum de cansaço.

— Parece um pouco sem fôlego — Belinda comenta.

— Um pouco. Como consegue?

— Pratico corridas matinais diariamente. Minha aula começa às oito da manhã, então me levanto cinco e meia, faço uma corrida de uma hora. Vou para a aula, depois sigo para a sala de jornalismo do campus, onde fico o restante do dia.

— Em que momento você descansa?

— À noite quando durmo. Vem, quero que conheça minhas amigas.

Belinda empurra uma grande porta que dá entrada para um auditório.

— Jessye, Ivy, conheçam a novata.

— Belinda! Você poderia parar com isso? Já está escrito na minha testa que sou novata — tento não parecer grossa.

— Acabei esquecendo. Prometo não falar mais nisso. Meninas conheçam a Nanda.

As duas olham curiosas para mim. A mais magra e alta, Jessye, tem os olhos azuis que combinam com os cabelos pretos, estilo chanel, camiseta com a foto de Katy Perry, acompanhada de uma jaqueta jeans, que vai até um pouco abaixo dos seios. A outra, a Ivy, tem cabelos cacheados loiros, abaixo do ombro, usando jeans surrado e camiseta rosa pink.

— Oi Nanda! — falaram as duas ao mesmo tempo.

— Jessye faz psicologia, e Ivy faz farmácia. Somos amigas desde o jardim.

— Que interessante cada uma ter escolhido um curso diferente — indago.

— Personalidades diferentes, cursos diferentes. Assim não seremos concorrentes futuramente — Jessye solta uma gargalhada — A onde estavam indo?

— Apresentar a faculdade para ela.

— Então perderá o dia inteiro. Estou aqui ha quase dois anos e não conheço nem a metade.

— Ela só precisa conhecer o necessário por enquanto. Nesse andar ficam alguns laboratórios como farmácia, botânica, gastronomia, informática, auditórios... No terceiro ficam as bibliotecas, e no quarto andar ficam as áreas de cinema, publicidade e jornalismo. Vamos continuar o tour. Querem nos acompanhar?

— Estamos enroladas com os preparativos para a recepção dos veteranos e calouros — Ivy responde.

— Boas-vindas? — pergunto curiosa.

— É, eu sei, é tão antiquado — Jessye revira os olhos.

— Amo recepcionar os novatos, se é que vocês me entendem — Ivy ri alto.

— Ela está se referindo aos garotos — Belinda também dá risada.

— Entendi.

— Belinda, você vai à festa do Kadu? —Jessye pergunta.

— E perder o show particular do bad boy? Vocês vão?

— Tá brincando? Ivy não fala em outra coisa.

— Ok. Pego vocês às 20:00hs.

— Você vai, Nanda? — Ivy pergunta.

— Nem fui convidada.

— E quem precisa de convite para a festa do Kadu?

— Tem certeza? — pergunto ainda em dúvida.

— Absoluta. Vamos, quero te mostrar o lugar onde fico metade do dia.

— Te vejo a noite, Nanda — Jessye acena e volta para junto de Ivy.

— E essa festa, qual é a comemoração? — pergunto quando entramos no elevador.

— Kadu é um exibido. Sempre dá uma festa antes do início das aulas para contar que aventuras viveu nas suas viagens, as boates que frequentou e todo aquele blá, blá, blá do quanto ele é rico e pode fazer tudo.

— Parece que você não gosta muito dele.

— Odeio aquele idiota mimado.

— Por quê?

— Longa história.

— Se odeia tanto esse tal de Kadu, porque ir à festa dele?

— Sou jornalista. Preciso estar informada sobre tudo. Mesmo a pessoa em questão sendo o Kadu.

— Acredito que não vou a essa festa Belinda — falo por fim.

— Vai desperdiçar a oportunidade de comer caviar e encher a cara de bebidas caras?

— Caviar? Dispenso — falo rindo.

— Estou brincando sobre a comida. Mas, porque não quer ir?

— Não tenho roupa para usar em uma festa assim.

— E quem precisa se arrumar para uma festa na casa do Kadu? As garotas estarão de shorts ou saias tão curtas, que até parece que pegaram com a irmã mais nova. Algumas de biquínis e os garotos com calções ou sungas. Eles são os melhores da festa. Então, não se preocupe com sua roupa. Agora vamos entrar no meu mundo.

O elevador para e abre em frente à sala de jornalismo.

Ela entra e vai direto abrir as cortinas das janelas. A sala não é grande, mas é bem aconchegante, uma mesa perto das janelas, computador e várias pastas abarrotadas de papéis.

Um porta-caneta com canetas coloridas, porta-retratos com fotos suas e com as amigas. Um pequeno armário no canto da parede, e um sofá preto de dois lugares situado perto da porta. Paredes pintadas de bege, que dava um ar clássico ao ambiente.

— E então, o que achou da minha sala?

— Tem a sua cara.

— Fico mais tempo aqui do que em qualquer outro lugar. Vem, quero te mostrar onde ficam os dormitórios.

Belinda fez sinal e eu fui fazer companhia a ela em frente à janela.

— Está vendo aquele prédio enorme de sete andares do outro lado do campo de futebol? — Belinda aponta.

— Estou.

— Ali é o dormitório feminino.

— E o masculino?

— Curiosa? — ela ri — é o prédio de frente com ele, mas daqui não dá para ver.

— Entendi. Só você cuida do jornal aqui?

— Não. Tem alguns alunos dos cursos de jornalismo de todos os períodos, que fazem parte da equipe. Ficam aqui ao lado — ela aponta para a direita da sala — mas essa sala é minha até eu terminar o curso. Você pode se candidatar a uma vaga de estagiária.

— Farei isso.

— Agora preciso trabalhar um pouquinho. Pode ficar a vontade. Têm revistas no armário.

— Eu adoraria ficar aqui, mas preciso ir para casa. Minha mãe deve estar me esperando para saber de tudo.

— Tudo bem. Antes de você ir, onde posso te encontro? Posso passar na sua casa e te pegar.

— Não é uma boa ideia. Onde moro está em pé de guerra.

— Está tentando me assustar? — ela ri — vamos fazer o seguinte então, me fala um lugar seguro onde eu possa te pegar.

— Tem um bar perto da entrada da favela. Lá é seguro. Quando você chegar, me liga e eu desço. Anota meu número.

Quando estou chegando ao portão, encontro Nick já sem camisa. Quase sofro um enfarto. Gotas de suor correm por seu abdômen, sumindo na sua calça moletom preta. Noto uma tatuagem na parte inferior do seu braço esquerdo. Percebo uma frase, mas não consigo identificar.

— Ainda por aqui?

— Estava na sala da Belinda.

— Ela adora exibir aquela sala. Contou as histórias mirabolantes do Braz? — ele ri.

— Ela não teve tempo. Tinha que preparar a edição do jornal para o início das aulas na próxima semana, eu acho.

— Belinda poderia aproveitar as férias para viajar, se distanciar um pouco daqui, mas como você pôde ver, esse lugar é a casa dela.

— E você, por quê não viajou?

— Treinando para o campeonato.

— Campeonato?

— Futebol. Sou um dos atletas daqui. Temos uma competição regional daqui a duas semanas. Precisamos da vitória.

— E por quê isso é tão importante?

— Dinheiro para a instituição e o reconhecimento para o currículo do aluno.

— Entendi. Bem, foi ótimo te conhecer. — falo me encaminhando para a saída.

— Você quer uma carona?

— Não é necessário, não quero atrapalhar seu treino.

— Já encerrei por hoje. É só o tempo de tomar uma ducha e trocar de roupa.

— Sério, não precisa mesmo fazer isso — mantenho meu olhar em seus olhos, mas a visão dele sem camisa torna tudo mais difícil.

— Ok, entendi o recado. Você não aceita carona de estranhos — Nick esboça um sorriso.

— Não é nada disso.

— O que exatamente? Não entendi o recado ou não quer minha carona?

— Eu... Hã...

— Estou te zoando.

— Parece que todos aqui gostam de zoar as pessoas — consigo falar por fim.

— Porque diz isso?

— Você é a segunda pessoa a fazer uma gracinha comigo. Frequenta as mesmas redes de amigos da Belinda?

— Não, mas talvez ela tenha aprendido comigo.

— Talvez. Eu realmente preciso ir. Te vejo segunda-feira.

— Mal posso esperar — diz me dando um sorriso — Podemos marcar algo na semana que vem. Uma ótima oportunidade para te conhecer melhor — fala dando às costas e indo embora sem me dar a oportunidade de recusar o convite.

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