Capítulo 2 - A família Castilho
EU FUI BATIZADA COMO CARLA por minha mãe ao nascimento e segundo ela, tinha a ver com o significado do nome, que do germânico, era "mulher forte" ou "mulher guerreira". Sempre adorei o meu primeiro nome, mas por muito tempo, eu acabei sendo cobrada pelo sobrenome que carregava na carteira de identidade. Castilho. O peso de ter um sobrenome tão nobre me assombrou durante toda a minha adolescência, e chegou um tempo em que eu tinha medo de que não conseguisse honrá-lo assim como faziam os meus irmãos mais velhos.
Mas vamos começar do início para que vocês possam me entender melhor.
O meu pai se chamava Jaime Castilho. Filho de imigrantes espanhóis que aportaram no Brasil no século passado, acabou herdando um patrimônio milionário quando o meu avô — um investidor de petróleo — faleceu no começo dos anos 70 com quase oitenta anos. Tendo começado uma graduação de Administração que nunca chegou a concluir, Jaime decidiu investir o seu dinheiro na construção civil, ramo este que estava em franco desenvolvimento na época.
Em um galpão de poucos metros quadrados localizado na região da Barra Funda, em São Paulo, ainda na metade da década de 70, ele e o colega de infância Elder Bispo começaram a tocar juntos uma pequena empresa de construção civil a qual eles denominam de “Construtora Alfa”. Um ano depois, Bispo aplicou um golpe em Jaime e desviou todo o dinheiro conquistado pela empresa para uma conta na Suíça, país para onde o homem acabou fugindo.
Tendo que lidar sozinho com todo o prejuízo dos contratos assumidos em aberto, Jaime foi obrigado a tirar da própria herança os valores para honrar os seus compromissos, e desiludido, acaba saindo do ramo por um tempo.
Jaime decidiu então só aproveitar a fortuna deixada pelo pai a ele e aos irmãos por um período, mergulhando fundo no mundo boêmio das drogas, das bebidas e do sexo fácil. Além de Jaime, o casal Juan e Eneida Castilho — os meus avós — tiveram mais quatro filhos em seu casamento: Juan Júnior (o segundo depois de Jaime), Juanita, Miguel Angel e a caçula, Pietra Maria.
Com o passar do tempo, todos eles juntos começam a participar das orgias promíscuas promovidas pelo primogênito Jaime, e para isso, os irmãos usam a casa de praia da família no litoral norte de São Paulo.
As festinhas regadas a substâncias ilícitas e contando com a presença praticamente obrigatória de profissionais do sexo dura por longos anos e mesmo após os seus casamentos e a chegada dos seus filhos, os Castilho não se intimidam de continuar buscando o prazer em sua pequena ilha particular.
Jaime é o primeiro a se casar e se une apenas no civil com Patrícia, uma ex-prostituta que ele leva para morar em sua companhia numa mansão localizada no bairro de Moema, em São Paulo. Inicialmente apaixonado pela mulher e sentindo a necessidade de constituir uma família, Jaime enfrenta todo o preconceito dos irmãos quanto à antiga profissão da esposa, mas tem com ela dois filhos — os meus irmãos Renato e Mauro —a quem acaba negligenciando a educação por conta da sua vida desregrada.
Depois do nascimento dos filhos, Jaime se torna um marido e um pai cada vez mais ausente, e embora financeiramente não deixe faltar nada à família, Patrícia mal o vê em casa, descobrindo logo que ele jamais parou de frequentar prostíbulos e bocas de fumo, mesmo com o casamento. Os dois acabam se divorciando doze anos depois e ela fica com a guarda das crianças, além de uma fatia generosa da fortuna de Jaime.
Ainda na década de 70, os meus tios Miguel Angel e Juan Junior se mudam para a Espanha, numa região próxima à Sevilha, e o segundo se assume homossexual, passando a viver com um espanhol em situação não-declarada de casamento até a sua morte, no final dos anos 90.
Miguel Angel se casa com uma espanhola chamada Conchita e com ela tem uma filha — a minha prima Angelita, que atualmente é uma consulesa espanhola em solo francês. Anos mais tarde, se divorcia da mulher e se casa pela segunda vez, agora com uma espanhola chamada Tereza, com quem tem mais três filhos, Miguel Junior, Pedro Antônio e Marieta.
As irmãs Juanita e Pietra Maria se estabelecem no Brasil e a primeira se muda para o Espírito Santo, onde se casa com um matemático de nome Clécio. O casal tem dois filhos, Tassia e Teodoro, que moram em Vitória até hoje.
Pietra Maria decide fazer votos à igreja católica após aquilo que ela passa a considerar pecado da carne — as relações sexuais promovidas com drogas e álcool com os irmãos mais velhos na casa de praia — e se torna freira. Mora num convento no interior de São Paulo e não mantém contato com a família desde os anos 90.
Ainda na década de 80, contando com a parceria e o patrocínio de empreiteiras e empresas de aluguel de maquinário de engenharia, Jaime funda a Construtora Castilho, companhia que faz a fortuna do descendente de espanhóis duplicar em dez anos, mesmo ele tendo se esforçado — e muito — para a liquidar quase que inteira com a vida boêmia que levava na década anterior.
Ainda sofrendo com surtos psicóticos que o faziam consumir quantidades exageradas de drogas — sobretudo a cocaína — Jaime conheceu a doce e pacata Vilma Estéban, uma descendente de espanhóis da região de Córdoba que acabou mexendo com o seu velho e duro coração.
Decidido a levar uma vida regrada por conta da sua paixão pela moça, Jaime se casa pela segunda vez em sua vida e passa alguns anos longe de tudo aquilo que quase levou a ele e aos irmãos à ruína anos antes, e que destruiu o seu primeiro casamento.
Após o falecimento da sua primeira esposa num acidente de automóvel, Jaime tem, enfim, a chance de se reaproximar dos filhos e os leva para morar com ele e a sua nova esposa no casarão em Moema onde os meninos cresceram. Alguns anos depois, vêm ao mundo a minha irmã Elisa e eu, as duas únicas filhas do casal. A partir de então, a família se estabelece em São Paulo com o dinheiro da companhia do patriarca e os bons negócios firmados em nome da Construtora Castilho.
Eu nasci numa maternidade particular na região da Grande São Paulo poucos anos após minha mãe, Vilma, conhecer o meu pai Jaime e dar à luz à minha irmã antes de mim. Vilma era uma solteirona de quase trinta anos e ele, à época, já era um coroa de quase cinquenta que tinha ficado viúvo há pouco tempo.
Engenheiro, empresário e viciado em sexo, Jaime tinha dois filhos adultos com a antiga esposa e não demorou a encantar Vilma com promessas de riqueza e uma vida de rainha. De fato, a ela nunca nada material lhe faltou desde que se juntou ao velho, mas era notório o sofrimento em seu rosto com a vida promíscua que Jaime levava conforme os anos passavam.
Após o falecimento da sua primeira esposa, papai trouxe seus filhos para morarem com a gente, e desde crianças, Elisa e eu sempre compartilhamos o casarão em Moema com meus outros dois irmãos rapazes, o Renato e o Mauro. Apesar de ela não ser a sua mãe e nem de eles admitirem o título “madrasta” vindo dela, Vilma sempre tratou os dois com todo o respeito possível e jamais os rejeitou só porque eram filhos da outra mulher do marido. Minha mãe era uma mulher muito generosa desde sempre e essa era uma de suas principais características.
Eu cresci com todo o luxo e a mordomia que uma criança nascida rica poderia desfrutar e nunca soube o que era passar fome ou frio na vida. A mansão era grande o suficiente para que ficássemos dias sem topar com papai e mamãe, às vezes, e eram os empregados quem mais cuidavam de mim e da minha irmã praticamente. Tínhamos uma babá chamada Mirtes na infância e era com ela que passávamos grande parte das nossas semanas enquanto papai trabalhava em sua construtora e a mamãe gastava as suas energias — e o dinheiro do papai — com filantropia.
Quando eu completei os meus dez anos e a minha irmã os seus doze, mamãe adoeceu e acabou ficando bastante debilitada trancada em seu quarto. Os médicos diziam que ela estava com uma rara doença nos ossos, e com isso, passou a ter dificuldade de locomoção. A casa era grande demais e os seus aposentos ficavam no segundo andar, o que se tornou um suplício para que ela subisse e descesse as escadas diariamente. Papai usou boa parte da sua fortuna e influência para conseguir um tratamento adequado para ela, e naquele período, os dois ficaram um tempo na Europa até que mamãe estivesse boa novamente. Renato e Mauro já eram jovens adultos na época e assumiram os negócios em nome do papai. Quase não paravam em casa.
Enquanto Renato e Mauro faziam faculdade e tomavam conta da construtora — o qual ouvíamos falar em casa que era uma das mais bem-sucedidas do Brasil — eu e Elisa curtíamos nossa juventude dentro da mansão quase matando a Mirtes de cansaço de tanto correr atrás de nós duas. A governanta e a cozinheira também tentavam nos conter, mas era praticamente inútil. Tínhamos energia para dar e vender.
Brincávamos quase à exaustão pregando peças nos empregados — dando sustos nos coitados ou preparando armadilhas para que eles caíssem —, mas gostávamos mesmo era de dançar. Papai tinha um aparelho de som gigante na sala e ali ficávamos ensaiando passos e coreografias de vários sucessos da época, de Spice Girls a Shakira. Às vezes, puxávamos Mirtes para dançar também e mesmo desajeitada, ela tentava acompanhar o nosso ritmo intenso.
Quando nossos pais retornaram da Europa, mamãe estava visivelmente mais saudável. A doença nos ossos tinha sido estabilizada e ela já conseguia andar novamente sem o auxílio de muletas, embora tivesse perdido quase que completamente a sua libido durante o tratamento.
Naquele período, papai se tornou um verdadeiro predador sexual e enchia constantemente a casa de praia da família no litoral de prostitutas e amantes diversas. Renato e Mauro costumavam acompanhá-lo nas orgias e quando voltavam de lá, os dois pareciam exaustos de tanto fazer sexo. Papai, em sua pose de macho-alfa, no entanto, parecia invencível, pronto para outra. O velho era insaciável.
Algum tempo depois do tratamento para a sua doença óssea, mamãe voltou à sua rotina de filantropia e assistência social, e embora não tivesse mais o mesmo vigor de antes, passava um bom tempo fora de casa cuidando de caridade e outras coisas que eu não entendia. Nunca soube exatamente o que ela fazia nas ONGs que patrocinava com o seu dinheiro, mas eu entendia que aquilo a fazia feliz.
Eu estava com quatorze anos quando ela começou a sair bem cedo de casa e retornar só à noite com um dos motoristas da família, e eu como a caçula, sentia muito a falta de uma mãe mais presente em minha vida. Elisa era só dois anos mais velha que eu, mas era ela quem tentava fazer o papel de mãe, me orientando e me ajudando com minhas necessidades.
Era ela quem tinha me ensinado a usar absorventes quando menstruei a primeira vez e também era ela quem me falava coisas sobre beijo na boca, sexo, preservativos, pílula anticoncepcional e masturbação. Nesse quesito, a minha irmã nunca me deixou desemparada pela falta de mamãe.
— Não é sempre que você vai ter alguém para te penetrar, Carla. É bom você aprender a se virar sozinha às vezes — me disse ela uma vez com a sua sinceridade pungente. Naquela noite, assistíamos a um filme pornográfico juntas na sala e uma mulher se masturbava com um pênis de borracha na fita. Eu nunca tinha visto nada parecido.
