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Capítulo 6. Estava a beira de um colapso

Seu pai havia se enfiado no trabalho desde a sentença de Khan. Era dele que seu irmão mais velho havia aprendido a se cercar de uma redoma quando os problemas explodiam de todos os lados, para eles essa era a única maneira que conseguiam manter a sanidade.

Na ausência de Cheng, o velho tinha pego a liderança do grupo de eliminação, e ele conseguia imaginar como o clima devia estar entre os soldados. Com os membros da Mortis Santa andando pelo clã como se a ilha pertencesse a eles, o humor de Wei Liang estava horrível. Ele sequer voltava para casa, e nesse tempo sua mãe afundava na tristeza.

— Mãe, precisa comer um pouco. – Tentava convencê-la, mas inerte, Shu Ian apenas chorava.

Enquanto secava as lágrimas dela, Huan tentava segurar as suas.

Queria que ela parasse de usar a sonda, mas sua mãe não reagia a nenhum estímulo. Tinha emagrecido dez quilos, e para alguém que já era magra, era muito. O médico e as enfermeiras não saiam da sua casa, e ele estava se entupindo de remédios para manter dentro de si tudo o que seu corpo já não aguentava.

Tomava remédio pra dormir, pra acordar, pra ficar calmo, pra dor no corpo... Estava a beira de um colapso, mas a única pessoa que conseguia renovar suas forças para voltar para aquela situação desesperadora, era Lohan.

Se tornou rotina, precisava ouvir a voz calma dele para conseguir descansar.

— Como sua mãe está, Cher (querido)?

— Na mesma. Tenho a impressão de que ela ouve o que eu digo, mas não quer responder.

Ele suspirou do outro lado da linha.

— A relação dela com Khan, está ligada a vontade de viver. Se ele for... – Se calou, não queria pensar sobre aquilo.

Fechando os olhos, sentiu as lágrimas inundarem eles, e tentando reprimi-las, fungou.

— Arght! Sinto que minha cabeça vai explodir.

— Cher... (Querido) Preciso te contar algo, mas não pode ser por telefone. Vou amanhã até você. – Pelo tom sério da voz de Lohan, parecia ser algo realmente importante.

— Tudo bem, que horas sairá daí?

— Cedo, quero tomar café com você. Mais ça ne peut pas être sur l'île, ces fichus corbeaux peuvent nous entendre. (Mas não pode ser na ilha, aqueles malditos corvos podem nos ouvir.) – Soltou, irritado.

Franzindo o cenho, Huan quis perguntar do que se tratava, mas achou melhor segurar sua ansiedade.

— Entendi, nos encontramos na Shiguang Manyan Café.

Se despediu de Lohan e se jogou na cama. Teria mais um motivo para não dormir. Estava mesmo precisando sair um pouco. Não aguentava ver aqueles desgraçados se sentindo em casa no lugar que crescera chamando de lar!

Suspeitava que procuravam por algo, pois colocaram a antiga casa de Khan de cabeça para baixo. Era tando feitiço para encontrar objetos escondidos, que ficava com vertigem só de lembrar.

No dia seguinte, teve que mentir para conseguir sair da ilha. Os malditos monitoravam tudo o que faziam. Não tinha conseguido pregar o olho, pensando no que era tão urgente para que Lohan quisesse vê-lo pessoalmente.

Tomou um banho, vestiu o que viu pela frente e avisou as enfermeiras que precisaria sair. Deu um beijo na testa da mãe, e saiu rumo ao café.

Assim que o loiro entrou no local e os olhos verdes esmeralda caíram sobre ele, os varreram com preocupação. As olheiras profundas eram expressivas demais para não serem notadas, além de ter perdido alguns quilos, pois não sentia fome alguma ao ver a mãe daquela maneira.

Dando a ele um riso fraco, o assistiu se aproximar e sentar na sua frente.

— Cher (Querido), parece que você voltou de uma guerra.

Huan riu.

— Eu estou em uma, qīn'ài de (querido). Então, o que tem para me dizer? – Perguntou com um tom cansado, tomando um gole do café que havia pedido.

Lohan respirou fundo olhando fixamente em seus olhos.

— Antes, me espere um pouco mais. Vou pedir algo para comermos, café não é alimento. – Disse olhando de esguelha para a xícara de café que ele tomava, se levantando em seguida.

Lá estava Lohan cuidando dele como se fosse uma criança. Não o impediu, na verdade apreciou seu cuidado. O tinha desejado por todo aquele tempo, então seria egoísta.

Quando voltou, tinha em uma das mãos uma pequena bandeja com um pão na chapa recheado com peito de peru, presunto, alface, tomate e requeijão. Na outra mão, um copo enorme com vitamina, que ele desconhecia o que tinha dentro.

— Esse é o seu, vou pegar o meu.

Assentiu, vendo ele retornar. Estava totalmente sem apetite, mas se forçaria a comer para não deixar o esforço dele ser em vão.

Começou pela vitamina, que apesar da cor marrom, estava realmente gostosa.

— Então... – Disse quando ele finalmente se sentou na sua frente. Rindo, Lohan lhe fitou.

— Não conseguiu dormir, não é?

Correspondeu ao sorriso dele.

— O que você acha?

Respirando fundo, ele ficou sério e bebeu um gole da própria vitamina.

— Eu queria ter contado desde o início, mas, Nezha e seu irmão me impediram... – Começou, e foi impossível não franzir o cenho diante o que ouvia.

O que Cheng estava aprontando?

— Estou cansado de assistir você definhar! Cher... (Querido...) Eles vão soltar Khan.

Falou baixo, e Huan achou ter ouvido errado. Seus olhos se arregalaram, e uma euforia invadiu seu corpo. O coração disparou em seu peito.

— O... O que?! – Gaguejou, e sem perceber, se inclinou na direção dele, se deitando um pouco sobre a mesa. — Como...

— Seu irmão encontrou Aiyê há alguns dias, ela está no nosso clã, sob proteção de Nezha. – Revelou, e seus olhos brilharam.

Sempre achou que o irmão mais novo fosse louco como Khan, mas aquilo era além de loucura. Ele estava arriscando tudo para salvar o mais velho e manter o princípio do clã. Era um líder nato.

— Precisam da ajuda dela para fazê-lo voltar ao normal, e Nezha está encarregado de convencê-la.

Suspirou. Lembrar que Khan tinha se transformado naquilo por causa dela, ainda lhe deixava incomodado.

— E ela quer? – Desencostou da mesa, sem conseguir esconder a mágoa no tom da voz e na expressão fechada.

— Nezha disse que ela está confusa, mas que demonstrou preocupação quando soube a situação do Khan. Só precisamos ter paciência, para que ela perceba que ele não é como antes. Cher (querido), coma. – Pediu, percebendo que ele sequer tinha tocado no pão.

Passando a mão direita no rosto, resolveu fazer o que lhe pedia.

Enquanto comia com mais apetite que antes, ouvia Lohan contar quantos estavam envolvidos naquele plano. Ficou surpreso ao ouvir até o nome de Sun Wukong. No entanto, era de se esperar que ele fosse se manifestar. Sendo amigo e admirador de Khan, devia estar furioso com a sentença dada pela Ordem.

Não faltava quem o odiasse e comemorasse sua morte, mas seu irmão também possuía fortes aliados. Vê-los se reunindo para ajudá-lo lhe deixava eufórico.

— Ahhh... E tem um pequeno detalhe, que esqueci de mencionar. – Citou, ganhando sua atenção.

Se inclinando na mesa, chegou mais perto para sussurrar:

— Você será tio. – Confidenciou, soltando um largo sorriso.

Tossindo, Huan colocou a mão na boca e o encarou em choque.

— Ela...

Falava de boca cheia, e não querendo ser mal educado, parou. Lohan riu balançou a cabeça em afirmação.

Engolindo o pedaço de pão que mastigava, tomou um gole da vitamina e o encarou.

— Tem certeza? – Queria eliminar qualquer dúvida.

— Sim. Nezha sentiu nitidamente a energia de mais duas vidas com ela.

Engolindo em seco, o encarou em choque. O loiro ria, se divertindo com as suas expressões. Levando a mão até a testa, Huan deu um riso bobo.

— Isso é loucura.

— E tem alguma coisa que não seja quando envolve seu irmão?

Balançou a cabeça, negando.

— E como sempre, ele tem que dificultar as coisas. Como ela vai ajudar desse jeito? Cheng sabe disso?

— Sim, e segundo ele, esse é o ponto crucial do plano.

— Ele perdeu completamente o juízo! – Afirmou, olhando para o pão que comia.

— Ainda que a reconheça, tem uma grande chance de ficar mais agressivo com ela perto.

— Mas se algo tirar o foco dele... – Mencionou, voltando a olhar para Lohan.

— Cheng conseguirá tirá-lo de lá.

De forma repentina, sentiu a vida voltar para o seu corpo. Se negava a ficar de fora de tudo aquilo, agora que sabia.

— Se ela precisa ser convencida, eu deveria ter sido envolvido desde o início. Ninguém além de mim conhece Khan tão bem! – Mencionou erguendo uma das sobrancelhas.

— Isso você resolve com seu irmão, ele parece estar bem focado.

— Estou vendo! – Pontuou, indignado. – E aposto que isso é só a ponta do iceberg.

Lohan afirmou sorrindo. O que mais Cheng estava escondendo dele? Quando o mais novo voltasse das Maldivas ele o obrigaria a dizer tudo!

Queria passar mais tempo com ele, mas ambos tinham suas responsabilidades. Se despediu com o coração apertado, a tristeza estava estampada no rosto de Lohan. Por estarem em público, sequer podiam se tocar. Desejou a ele uma boa viagem de volta, e antes de retornar para casa comprou os produtos que deram início a sua mentira para sair.

Sem conseguir segurar a ansiedade, passou por todos sem nem cumprimentar, foi direto para o quarto da mãe. Fechando a porta para garantir a privacidade, com um sorriso largo, sentou na poltrona do lado da cama dela e pegou em sua mão esquerda.

— Mãe, eu tenho três notícias especiais para dar a senhora...

Ela chorava, fitando o vazio. Porém, Huan percebeu que ela ficou curiosa com o que disse, pois passou a piscar.

— Nosso caçula estava aprontando em silêncio, esse tempo todo. Mas sem dúvida merece o título de líder do clã. – Se aproximando do ouvido dela, confidenciou.

— Ele encontrou Yê e vai libertar Khan.

No mesmo instante viu os olhos dela se abrirem, e serem inundados por mais lágrimas.

— A terceira e última, é que será avó em dose dupla... – Disse, passando um das mãos pelos cabelos dela. — Então trate de sair dessa cama, ou não vai conseguir acompanhar os bebês do seu filho mais velho.

Virando o rosto lentamente em sua direção, Shu Ian o encarou sorrindo. Sem conseguir conter as lágrimas, Huan sorriu.

— Mãe, eu amo você. – Confessou a abraçando.

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