Capítulo 4: É ela
— Um buquê de rosas e um ursinho, o que acha? — Lucy sugeriu ao cliente, que lhe era um tanto familiar.
Jhon parecia completamente convencido da sugestão da florista, então apenas assentiu, com um sorriso um pouco bobo, imaginando que Nora iria adorar presente inesperado.
— Ótimo, pode embalar então, você tem chocolates também? — ele perguntou, observando-a montar o buque com belas rosas vermelhas.
— Tenho, podemos fazer uma cestinha e colocar os chocolates dentro junto com o ursinho, o que acha?
— A ideia é ótima!
Enquanto conversavam, Jhon não se deu ao trabalho de procurar novas opções ou qualquer outra coisa, apenas passou a seguir a florista por todos os lados enquanto a via pegar as flores, os chocolates, embrulhando tudo numa bela cesta que faria qualquer mulher que gostasse daquele tipo de ato suspirar.
Lucy tinha um sorriso nos lábios enquanto arrumava a cesta, adorava preparar presentes para casais, aquele foi o primeiro desde a inauguração, já que, durante todo aquele dia, seu público se resumiu a mulheres buscando plantas para suas casas e substratos. Estava ao lado de algumas pelúcias embalando a cesta quando deu por falta do laço, como esquecer essa parte tão importante?
Lucy se virou para pegar os laços, dando alguns passos em direção à pequena estante nos fundos enquanto ajeitava as flores no buque quando, de súbito, sentiu o impacto de seus ombros, erguendo os olhos com um sorriso sem jeito para o cliente em quem havia esbarrado.
— Me descul… — ela começou a se desculpar, mantendo o sorriso, que congelou sob sua face ao encontrar os olhos intensos que a observavam.
O mesmo tom âmbar de que ela se lembrava.
— Lucy… Que surpresa — Ethan tentou seu máximo para parecer normal, ou o mais normal que conseguisse, visto que seus ombros estavam tensos e sua respiração superficial, já que ele tentava ao máximo não inspirar o cheiro doce e perfeito que ela tinha.
Se o fizesse, como resistiria?
— Você conhece a florista? — Jhon perguntou, totalmente alheio à situação.
— Acho que você não lembra de mim, eu já morei aqui quando era bem pequena, vocês viviam invadindo o quintal da minha casa — Lucy disse, voltando os olhos para Jhon, tentando evitar o olhar de Ethan.
Por algum motivo, os olhos dele lhe tiravam o fôlego de uma forma muito particular… A mesma sensação que sentia sempre que o via no quintal, quando era só uma menina admirando aquele trio de garotos sem conrole pela janela.
Ethan havia mudado muito, mas, ao mesmo tempo, ainda parecia o mesmo menino aos olhos dela. Talvez fossem os olhos, sempre tão vividos. Ela se lembrava claramente de Bankov a encarando do quintal da casinha enquanto ela o espiava da janela, ele sempre acenava, e todos os dias deixava alguma coisa para ela perto do canteiro de tulipas.
E ela sempre ia buscar o “presente”. Às vezes era uma pera boita, às vezes uma flor diferente… Era uma das lembranças mais doces que Lucy tinha de Pinewood.
Será que Ethan se lembrava?
— Desde quando voltou a Pinewood? Está com sua mãe? — Ethan continuou perguntando, dando alguns passos para trás, se aproximando de um vaso de tulipas para tentar inspirar um aroma que não fosse o dela e acalmar Rowan, que tornava ainda mais difícil resistir ao elo.
— Eu lembro de você, era a menininha magrela filha da Elaina, certo? Menina, você cresceu bastante — Sirius falou, olhando-a de cima a baixo de um modo que Ethan precisou se controlar muito para não acabar rosnando.
— Estou sozinha — Lucy respondeu, um pouco sem graça, voltando a caminhar em direção à bancada de laços. — Voltei há poucos dias, minha mãe… Bem, ela não está comigo, não mais.
Enquanto a ruiva amarrava o laço na bonita cesta de presente, os três homens se entreolharam por um momento, percebendo o que aquela frase significava.
— Sinto muito por sua perda — Bankov falou, num tom um pouco rasgado, enquanto sentia Rowan uivar em sua cabeça.
O lobo não parava quieto, e ver o olhar triste de sua companheira apenas o deixou ainda mais agitado.
“O que está fazendo, Bankov? Por que ainda não foi até ela? É NOSSA COPANHEIRA!”
Os rosnados impacientes fizeram Ethan passar a destra nos cabelos, atraindo a atenção de Sirius, que o observou com os olhos atentos por alguns instantes.
— Obrigada — ela agradeceu, voltando com a cesta em mãos e entregando para Jhon. — Bem, espero que sua garota goste, se precisarem de presentes para as namoradas de vocês, já sabem onde encontrar.
Enquanto a ruiva falava aquilo, o sorriso sempre radiante de volta em sua face, mesmo que ele não chegasse aos seus olhos. Lucy tentava sempre, a todo custo, esconder a dor de seu luto de qualquer pessoa.
Ethan a olhou por mais alguns instantes, antes de apenas assentir e sair, sem novas explicações, sequer sem se despedir, com passos rápidos e duros, ele passou pela saída, deixando a floricultura para trás, seguindo direto para seu carro. O homem abriu a porta, entrando no veículo com tanta pressa que chegou até a bater a porta com mais força do que deveria.
Sentiu os olhos dos amigos sobre si enquanto saia, mas não podia ficar ali, não sem tocar Lucy, sem ceder a reclamá-la como sua parceira.
“Por quê? POR QUE NÃO FALOU COM ELA?”, Rowan rugiu, a essa altura ele podia sentir as patas pesadas pisoteando em seu cérebro.
Era uma sensação muito estranha, mas, com o tempo, eles se acostumavam a dividir seus pensamentos com um outro ser.
— Não posso, não pode ser assim!
“Não pode? NÃO PODE? Ela é a companheira que a deusa deixou para nós! DEPOIS DE TANTOS ANOS NÓS…”
— Ela é humana, Rowan! Isso não pode estar certo!
“Mas está! É ELA!”
Ethan não queria continuar essa briga, no fundo, quem era ele para dizer que a deusa da lua havia errado? Mas como poderia arrastar uma humana para seu mundo? Como poderia arrastar Lucy para seu mundo?
“Você também sente isso, sempre sentiu! Nós podemos protegê-la!”
— Agora não, Rowan.
“Você não decide isso!”
E, por um momento, os olhos âmbar re Ethan tremularam para um vermelho intenso e sanguinário, as iris oscilando entre o vermelho selvagem e o âmbar brilhante enquanto Bankov segurava o volante com toda força, apertando o bastante para que os nós dos seus dedos ficassem brancos e para que suas unhas rasgasse, mesmo que levemente, o couro que revestia o objeto. Sentiu, por um momento, Rowan forçando seus limites e, por um segundo, achou que ia perder o controle.
— Chega, Rowan! Porra, para com essa merda! — tentou persuadir o lobo, sentindo o sangue queimar em suas veias enquanto sua respiração ficava ainda mais ofegante.
— ESSA ESCOLHA NÃO É SUA! — a voz grossa e retorcida de Rowan, selvagem, que ecoou dentro do carro era o reflexo do embate entre os dois, algo que não acontecia há muito, muito tempo.
Ele não costumava precisar lutar pelo controle, afinal, de certa forma, ambos eram as duas partes de uma mesma criatura.
Mas aquilo era diferente. Privar um lobo de ter sua companheira era doloroso, não só emocionalmente. Ethan sabia disso, ele também estava sentindo.
— Se for até lá agora, só vai assustá-la! — Ethan falou, encolhendo os ombros enquanto tentava forçar Rowan a se controlar. — Ela só vai sentir medo de nós e isso vai fazê-la fugir! Não quero perdê-la tanto quanto você não quer, mas precisamos ser cautelosos!
Então, subitamente, tudo se silenciou, e a única coisa que Bankov podia ouvir era a sua própria respiração, profunda e ofegante. Seu coração batia descontroladamente e ele encostou a cabeça no encosto do banco do motorista, os olhos voltaram ao âmbar natural.
“Por quê? Por que não podemos apenas reclamá-la como todos os lobos fazem?”
— Porque ela não é uma loba, ela não é como nós…
