
Resumo
Quando uma humana e um lobo descobrem que são parceiros destinados, tudo pode acontecer.
Capítulo 1
“Mãe… Mãe, por favor! Acorda, mãe!”
Lucy abriu os olhos, apoiando a mão no peito, ofegante. O quarto ainda estava escuro, uma leve luz entrava pelas cortinas, a luz prateada da lua cheia. A madrugada ia alta e ela deveria estar descansando para pegar seu voo para Lakemooncedo no dia seguinte, mas fazia muito tempo que não conseguia dormir bem.
Ela se levantou, os pés descalços tocando o chão frio. Suas cisas já estavam encaixotadas, não pretendia levar muito para sua nova “antiga” casa, apenas o essencial. A única coisa que ainda estava fora das poucas caixas era o porta-retrato que estava repousando ao lado do seu travesseiro.
Uma foto da sua mãe, Elaina.
As memórias do acidente que havia acontecido há somente um mês a assombravam todos os dias, e a culpa também. As últimas palavras de sua mãe para ela ainda estavam martelando em sua cabeça, ela jamais esqueceria e jamais deixaria de se culpar, afinal, Lucy quem estava na direção, ela quem perdeu o controle do carro.
Em teoria, ela era a culpada por sua mãe estar morta.
— Merda, que dor de cabeça — resmungou, passando a mão nos cabelos, puxando a franja para trás e limpando o suor da testa.
Então se levantou indo até uma das caixas e abrindo apenas uma parte desta puxando lá de dentro um frasquinho de remédios para dormir.
Queria parar de tomar aquelas coisas, mas, mesmo tendo se passado um mês desde o acidente, ela continuava acordando todos os dias naquele horário.
Lucy engoliu dois comprimidos, sem água mesmo, e voltou para a cama, abraçando o porta-retrato e fechando os olhos, imaginando sua mãe ali, os braços dela ao seu redor.
Só depois de quase duas horas, ela adormeceu.
***
O voo até Lakecity foi mais demorado do que ela imaginou que seria, e ela ainda precisaria pegar um ônibus já que Lakemoonnão tinha aeroporto. Sair de Warmiton para Lakemoonera uma troca estranha. Diferente de onde Lucy estava vindo, Lakemoonnão era, normalmente, o lugar para onde as pessoas se mudaram, uma cidade pequena, normalmente muito fria e escura, com poucos dias de sol, muita mata e, no máximo, 5 mil habitantes. Certamente não era o lugar para alguém que estava acostumado com praias, shoppings e shows badalados.
Era um lugar de vizinhos que se conhecem há muito tempo, um centro pequeno, sebos, uma única escola e nenhuma faculdade. Além de uma qualidade de rede duvidosa. Mas tinha seus encantos, belas paisagens e o que Lucy mais procurava: paz.
Seria nostálgico voltar ao lugar onde cresceu e a cidade que sua mãe tanto amava. Elaina nasceu e cresceu em Pinewood, foi onde conheceu o pai de Lucy, alguém de quem ela não sabia muito, afinal, Elaina nunca revelou detalhes sobre o romance efêmero que lhe gerou uma filha.
Só sabia que o nome dele era Conan e nada mais.
Quando pequena, Lucy se lembrava perfeitamente de sua mãe cultivando flores no quintal da casa em que moravam, uma casa que estava fechada há muitos anos. A casa onde Lucy pretendia morar agora.
A ruiva caminhou pelo aeroporto apressada, arrastando sua mala, sabendo que o caminhão com sua mudança estaria chegando a Lakemoonem poucas horas e ela precisava estar lá quando isso acontecesse. Lucy correu, parando na frente do aeroporto e fazendo sinal para um táxi, entrando nele com toda pressa do mundo.
— Boa noite, mocinha — o homem, um senhor de meia-idade com sorriso simpático, disse. — Para onde vamos?
— O senhor sabe saem ônibus para Lakemoonna próxima hora? Preciso chegar lá o mais rápido possível! — respondeu ela, puxando sua mala consigo para o banco de trás do carro, fechando a porta.
— Pinewood? Na verdade, que eu saiba não, mas sou de lá, trouxe uma senhora aqui para fazer alguns exames e pretendia fazer algumas corridas antes de voltar pra casa — o senhor respondeu assumindo seu lugar no banco do motorista. — Se você quiser, posso te levar para lá, cobro o mesmo valor que você iria gastar com a passagem do ônibus!
— Sério? — perguntou, incrédula. — Nossa, com certeza eu aceito!
***
A viagem de carro foi, de fasto, muito mais rápida.
No caminho, Lucy descobriu que o nome do senhor era Jorge, e soube ainda que ele conhecia sua mãe desde que ela era uma pré-adolescente. Jorge ficou sentido pela notícia do falecimento de Elaina e afirmou que ele e sua esposa estariam disponíveis para ajudá-la na adaptação, já que a casa onde Lucy ficaria era bem afastada da zona principal da cidade.
Levaram cerca de duas horas para chegar até Pinewood, e, assim que cruzaram a única avenida do lugar, Lucy notou como a cidade ainda era exatamente a mesma. Algumas lojas com fachada reformada, uma e outra lojinha mais recende, mas quase nada havia mudado, ainda era o mesmo lugarzinho frio e meio vazio de sempre, mas com pessoas acolhedoras.
Seguiram pela avenida até cruzar a cidade, saindo da zona mais populada até a estrada que lavava a grande indústria de tecnologia e sustentabilidade que empregava boa parte das pessoas da região. Mas não chegaram tão perto dela, pararam virando uma pequena estrada de chão, em frente a uma casinha aconchegante de cores vivas, mesmo que um pouco desbotadas.
— Aqui é bem deserto, mas também é bem tranquilo, eu e minha esposa moramos há alguns quilômetros daqui, acho que umas meia hora — Jorge falou, abrindo a porta e descendo do carro, seguindo para a porta do fundo e abrindo-a, pegando a mala da moca. — O sinal de celular não é tão bom, mas você pode ligar que a gente atende, se aconhecer alguma coisa a Dorinha e eu vamos vir bem rápido, tá bom?
— Não se preocupe comigo, tá tudo bem! — ela garantiu, segurando a mala pesada e olhando para a casa da sua infância. — Estou acostumada com essa casinha.
— Claro, claro… Só quero que você saiba mesmo, sua mãe era uma boa amiga minha, então… Vou te ajudar em tudo o que eu puder!
— Obrigada, Jorge — a ruiva agradeceu, com um sorriso de orelha a orelha.
Gostava da gentileza de Pinewood, era sua coisa favorita na cidade.
Depois disso, o senhor entrou em seu carro e seguiu a estrada, sumindo de vista, então, finalmente, Lucy pode caminhar até a casa.
Uma pequena cerca com um portãozinho, tudo de madeira, dividia o terreno. A cerca, outrora branca, estava desbotada e com certeza ela iria dar uma boa pintura nela. A casa ficava na parte inicial de um grande terreno que fazia divisa com a densa floresta que cercava os dois lados da estrada, então, assim que passou pelo portão, Lucy se viu numa pequena campina de grama alta e, aos fundos, a floresta imponente que a cercava.
A grama havia crescido muito, cobrindo até pouco abaixo dos joelhos dela, então Lucy teve que ir abrindo caminho até chegar a pequena escadinha que levava a porta. A casa era de madeira, completamente amarela, cor favorita de sua mãe e dela também, na escada, as florzinhas brancas pintadas a mão por Elaina ainda podiam ser vistas, mesmo que desbotadas, e Lucy sorriu, decidida a pintar tudo novamente sozinha como sua mãe fez.
Ela tirou a chave do bolso e a colocou na fechadura, abrindo a porta com um pouco de esforço, parecia um pouco emperrada depois de tanto tempo fechada, então entrou, deixando a mala de lado e suspirando.
Os móveis ainda estavam como elas haviam deixado há mais de dez anos, cobertos por panos brancos, tinha muita poeira e, definitivamente, precisava de uma faxina.
Mas estava em casa novamente e, principalmente, mais perto de sua mãe do que nunca agora.
Tinha um lar, e esperava que sua vida começasse a melhorar a partir dali.
