Capítulo 3 - A amiga de infância
MEU PAI AGORA ERA O gerente administrativo da filial capixaba de uma importante agência de viagens e estava em ótimas condições financeiras no Espírito Santo. O acordo de divórcio tinha estabelecido que ele pagasse uma pensão mensal à minha mãe pelos anos em que tinham sido casados e pelo fruto desse casamento, no caso, eu.
O dinheiro que papai depositava na conta de mamãe era o suficiente para que pagássemos as contas básicas, mas era destinado principalmente para a minha educação. Assim que o ex-marido se mudou para Vitória, Silvana decidiu me tirar do ensino público onde eu estudava desde o pré-escolar e me matriculou num dos colégios mais caros de São Paulo, local onde, segundo ela, eu iria finalmente ter condições melhores de aprendizado e igualdade de oportunidades com outros estudantes mais abastados em qualquer vestibular que quisesse prestar no futuro.
O Dom Pedro II era um dos colégios mais conceituados da cidade e cujos alunos do Ensino Médio tiravam anualmente as melhores médias em vestibulares concorridos como os da USP e UNESP. Eu tinha ficado bastante eufórica em estudar num lugar tão sério e onde os estudantes mais inteligentes começavam a embarcar no sonho de suas carreiras futuras, mas também havia um lado em mim que estava morrendo de medo de me misturar com aquela gente tão rica e tão distante da vida modesta que eu levava.
Pensamentos recorrentes de que eu não iria me adaptar e saudades dos meus antigos colegas da escola pública que frequentava quase me congelavam diante da mínima possibilidade de ter que levantar cedo todos os dias para enfrentar uma nova realidade, mas como tudo na minha vida era sempre carregado de urgência, eu tive que me acostumar rápido à ideia.
Os estudos potencializados pelo método de ensino severo do Dom Pedro II e as amizades que eu acabei fazendo no novo colégio passaram a ocupar boa parte da minha vida nos anos que se seguiram à partida de papai para o Espírito Santo e eu não tive qualquer tempo para lamentações ou choramingos — embora eu quisesse ter. Por conta dos plantões de mamãe no hospital e da sua falta de tempo para os afazeres do lar, eu tive que aprender a me virar sozinha dentro de casa, o que me tornou uma garota bastante ativa.
Minha rotina começava pela manhã bem cedo, quando então eu limpava a casa, colocava a roupa suja para lavar e fazia algo simples para comer na cozinha. Eu era péssima cozinheira desde sempre, por isso, me virava apenas com o que tinha na geladeira, em geral, legumes fáceis de cozinhar, verduras que não necessitassem de tempero ou o arroz com feijão trivial.
Antes do meio-dia, o serviço de van escolar que mamãe pagava para me apanhar no Itaim Bibi e me levar até a Avenida Paulista me pegava à porta de casa e eu seguia dali até o Dom Pedro II com alguns colegas que moravam no mesmo bairro que eu. Eu permanecia em aula até por volta das dezenove horas e quase que pontualmente embarcava novamente na van que me conduzia de volta para casa.
Naquela correria, tinha dias que eu encontrava minha mãe a fazer nosso jantar na cozinha de casa, mas na maioria das vezes, eu achava só os seus bilhetes colados na porta da geladeira. “Tenho plantão hoje, Nic. Deixei frango no congelador”, “Seu jantar está no micro-ondas. Bom apetite, meu amor”, “Hoje a mamãe teve que trabalhar. Não atenda estranhos no portão e se comporte”.
A rotina da enfermeira Silvana não tinha mudado muito por conta do divórcio e com aquilo, eu acabei tendo que me virar sozinha quase sempre desde pequena, enquanto ela trabalhava para pagar as contas da casa.
Eu tinha ciência de tudo que aquela mulher abdicava para que nós duas tivéssemos o pão de cada dia em nossa mesa, exatamente por essa razão, não queria ser mais um peso em sua vida. Eu fazia a minha parte dentro das possibilidades e quando ela chegava da rua, a casa estava sempre bem cuidada. Mamãe nunca tinha do que se queixar.
Além de cuidar das coisas em nossa casa, na escola, eu fazia de tudo para justificar a grana alta que Silvana pagava nas mensalidades do Dom Pedro II. Prestava a atenção nas aulas, fazia meus deveres com assiduidade e sempre tirava notas boas. Naquele quesito, eu nunca a decepcionei. Eu era uma das melhores alunas da turma e todos os professores elogiavam o meu empenho desde o primeiro ano em que havia botado os pés naquele colégio. Eu era indiscutivelmente um dos grandes destaques da minha sala e aquilo durou bastante até que uma nova garota surgiu para dividir as atenções comigo. Até que eu conheci a Kelly.
Kelly Ferraz Schneider estudava no Dom Pedro II desde o primeiro ano, mas nós só fomos cair na mesma classe no começo da sexta série. Naquela época, eu já havia me adaptado à rotina de uma instituição de ensino particular e estava muito bem inserida naquele mundo. Conhecia a maioria dos professores, as tias da secretária, o zelador e até o pessoal que fazia a limpeza. Tinha colegas de grupos de estudos, fazia sociais com os meninos dos times de basquete e futebol e era até bem popular nos corredores do colégio, embora não tivesse ainda ninguém que pudesse realmente chamar de amigo. Eu não sabia que um dia ia ser capaz de defender aquela garota com a minha própria vida, mas como no começo de muitas das grandes amizades — e eu me envergonhava de admitir isso —, eu não tinha ido com a cara de Kelly nem um pouco.
A garota que possuía ascendência alemã tinha os cabelos castanhos bem claros, quase loiros, e seus olhos verdes eram realmente lindos, o que chamava a atenção dos demais alunos. A maioria ali já se conhecia dos anos anteriores, mas, como quase sempre acontecia, muita gente nova havia sido adicionada à turma. Kelly não era exatamente uma novata, mas como era “carne fresca” em meio ao pessoal que estudava comigo anteriormente, ela começou logo a roubar todas as atenções deles, o que me deixou um pouco enciumada.
Até então, eu era a grande estrela da sala e Kelly estava ofuscando o meu protagonismo. Ela era muito falante e se expressava muito bem para uma garota tão jovem e em pouco tempo, se tornou o xodó dos professores. Eu não costumava sentir inveja de nada e nem ninguém, mas achei que precisava recuperar aquele posto que nos anos anteriores era só meu. Ser a preferida dos professores me dava vantagens que eu gostava de aproveitar e então, resolvi conhecer melhor a minha grande concorrente, me aproximando mais dela para descobrir quais eram os seus pontos fracos.
Diferente do que eu imaginava, no entanto, Kelly era uma menina muito meiga e gentil que desarmou completamente qualquer tipo de animosidade que eu planejasse cultivar contra ela logo que nos conhecemos. Não era nem de longe uma ameaça a mim ou a meu rendimento escolar e não demorei a perceber que eu estava sendo uma grande otária em pensar o contrário.
Entre uma conversa e outra na hora dos intervalos das aulas, descobri que eu e Kelly éramos praticamente vizinhas no Itaim Bibi e que ela morava num prédio que ficava do outro lado da minha rua, a menos de um quarteirão de distância.
— É sério — disse ela entre sorrisos —, eu moro no condomínio Recanto Dourado, na esquina da Rua Mendes Souza. Fica a menos de dez minutos da sua casa.
Eu jamais poderia imaginar tamanha coincidência.
A mãe de Kelly se chamava Claudia e ela era uma publicitária dona de uma agência chamada Illuminare, localizada na Vila Mariana. Ela mesma fazia questão de deixar a filha na porta do Dom Pedro todas as manhãs de carro antes do trabalho e por muitas vezes, eu peguei carona com as duas ao invés de embarcar na van escolar. Por conta da nossa aproximação, não demorou para que Claudia conhecesse a minha mãe e as duas acabassem se tornando colegas de bairro. Provavelmente, a publicitária era a única pessoa com quem a dona Silvana interagia naquela vizinhança inteira desde que havia se mudado para lá e aquilo me deixava feliz, já que entendia os benefícios de se ter alguém com quem conversar de vez em quando.
Com o passar daquele ano, Kelly e eu nos tornamos praticamente inseparáveis e muita gente invejava a nossa amizade. Diferente da maioria das alianças que se formavam na escola naquele período, daquelas cheias de falsidades e tão frágeis como porcelana, minha ligação com Kelly era forte e sincera.
Eu a enxergava como uma confidente fiel para quem podia contar tudo que acontecia em minha vida e eu sentia que era recíproco. Desabafava com ela sobre os meus medos, as minhas inseguranças e até a saudade descomedida que sentia do meu pai. Passávamos horas uma aconselhando a outra sobre nossas dúvidas, os nossos anseios ou mesmo discutindo um episódio bobo de alguma série romântica que assistíamos, mas era como se nunca esgotasse o nosso repertório de conversas. Às vezes, os professores precisavam chamar nossa atenção para que parássemos de tagarelar durante as aulas e chegava a ser engraçado. Tínhamos uma sintonia incrível uma com a outra.
Assim como eu, Kelly passou boa parte da infância sendo cuidada por outras pessoas que não seus pais e a minha identificação com ela foi instantânea. A menina tinha ficado órfã aos seis anos, quando seu pai, Charles, sofreu um infarto fulminante durante o trabalho e não resistiu.
Assim como a minha mãe, a publicitária teve que se desdobrar para criar a menina sozinha enquanto estudava Publicidade na faculdade e fazia estágio numa das imobiliárias que seu pai gerenciava. Apesar de toda a riqueza que permeava a sua família com os parentes ricos donos de empresas lucrativas, Kelly também não tinha tido uma infância fácil e sofreu um bocado para crescer e se tornar a adolescente humilde e sensata que eu conheci.
Em sua correria diária e depois de todo o seu período de luto, Claudia confiava a pequena Kelly — de seis para sete anos — a dois de seus primos adolescentes mais próximos, e eram eles quem a ajudavam a cuidar da menina em sua ausência. Os irmãos Henrique e Natalie Schneider moravam no mesmo bairro que a prima, e como tinham bastante tempo livre, eram a opção mais óbvia para ficar com Kelly durante a semana e para que não fosse necessário contratar uma babá.
A mãe dos dois, a dona Stephanie, cuidava da curadoria de exposições artísticas que aconteciam com frequência na cidade, por isso, também tinha pouco tempo para ficar de olho no que os filhos adolescentes faziam em seu ócio. Os Schneider aproveitavam aquela falta de supervisão dos pais para escaparem para o litoral aos finais de semana e o seu destino quase sempre era a casa de veraneio espaçosa que a família possuía. Como a menina Kelly estava quase sempre sob a supervisão da dupla e longe dos olhares de adultos, não demorou para que eles começassem a arrastá-la com eles em suas excursões para a praia e lá passassem horas e horas de puro divertimento diante de um cenário natural e paradisíaco. A minha amiga adorava e não escondia isso de ninguém.
— Você fala sobre os seus primos com tanto carinho — comentei com ela certa vez, fazendo uma observação —, os dois devem ser muito legais.
— Eles são muito mais que legais — respondeu ela com um brilho nos olhos verde-esmeralda —, o Rique e a Nat são a parte mais divertida da minha vida.
Algum tempo depois eu entenderia melhor o fascínio que Kelly sentia por seus primos mais velhos ao conviver com os dois pessoalmente. Eu ainda não fazia ideia, mas os irmãos Schneider eram mais interessantes do que eu podia sequer supor.
