Capítulo 4 - Desilusão
TODAS AS VEZES QUE Kelly voltava do litoral com a pele mais morena de sol, ela ficava incrivelmente empolgada para me contar os detalhes do que acontecia por lá e geralmente, as segundas-feiras eram cheias de novidades para mim. Seus primos adolescentes levavam vários amigos para a casa de veraneio da sua família e lá, costumava acontecer todo tipo de “festinha adulta”, bem aos olhos da minha amiga.
— Eles ficam pelados na minha frente. E eles fazem várias coisas safadas. É da hora!
Kelly passou a me contar tudo que acontecia nas tais “reuniões” de fim de semana na praia e aquelas confidências se tornaram nosso principal assunto por muito tempo. Assim como eu, ela estava começando a se tornar curiosa com a própria sexualidade e era excitante ouvi-la contar sobre todo o desprendimento social que os primos tinham quando ficavam a sós.
— Às vezes, eles ficam doidões com as misturas que fazem com cachaça, vodca e outras bebidas. Perdem a linha total! Dançam até altas horas da madrugada, fumam, transam… é tudo muito louco!
Eu levava uma vida muito regrada e quadrada sem qualquer tipo de aventura naquela época. Quase nunca viajava, não conhecia nenhum lugar muito além de São Paulo e só tinha ido à praia na infância, há muito tempo. Eu era facilmente impressionável e ficava boquiaberta com as histórias que a minha amiga sempre trazia da tal casa de veraneio. Na falta de emoções próprias, eu me contentava em saber que a menina estava se divertindo à vera por nós duas.
As coisas evoluíram rápido à medida que as visitas de Kelly ao litoral sul se tornaram mais frequentes e com o correr dos anos, ela passou a não só assistir, mas também a participar das relações sexuais entre os primos e seus amigos pervertidos. A cada nova “atualização de status”, ela chegava em mim toda empolgada para contar e eu ficava só ouvindo.
— Cê nem vai acreditar, Nicole! Eu transei pela primeira vez!
No ritmo em que as coisas andavam, aquilo não demoraria a acontecer, mas eu fiquei admirada com a notícia mesmo assim.
— Caracas! Sério? Você perdeu a sua virgindade? E como foi? Doeu?
— Na verdade foi só em parte. Eu só dei o meu buraquinho — e ela riu, ficando corada de vergonha em seguida —, mas já conta como primeira vez, né? Foi com meu primo Henrique. Ele tem um pinto muito grande e colocou quase tudo dentro de mim!
Kelly tinha sido iniciada em uma das festinhas regadas a bebida que os Schneider promoviam e ela voltou a transar com o primo outras vezes, tornando aquelas relações incestuosas corriqueiras em sua vida. A cada nova aventura, ela me confidenciava tudo com detalhes na hora do intervalo e quando os trinta minutos do tempo entre as aulas passaram a se tornar pouco para nossas conversas secretas, eu comecei a visitá-la frequentemente no apartamento onde morava com a mãe para fofocar.
Ficamos rapidamente viciadas em falar sobre sexo e aquela foi a primeira vez que percebi que a vida me reservava muito mais coisas do que só estudos, notas e avaliações semestrais.
A nossa turma no colégio era concisa e se resumia a vinte e tantos alunos dentro de um ambiente que comportava trinta. Recebíamos todas as aulas na mesma sala todos os dias e um grupo de cinco professores se revezava entre as matérias mais básicas do Ensino Fundamental.
Eu não tinha qualquer dificuldade em aprender nada que me fosse ensinado e era, de certa forma, invejada por outras garotas da turma que enxergavam em mim e em Kelly as rivais que gostariam de superar.
Eu e ela não éramos tão populares quando o quesito ia além dos conhecimentos adquiridos durante o ensino e nem éramos as mais desejadas por nossos atributos físicos específicos — vulgo, bunda e peito — aos olhos dos garotos esportistas. Tínhamos ficado conhecidas pelos corredores como as “nerds” e aquilo meio que afastava os pretendentes de nós.
Em se tratando de socialização, Kelly era até mais arredia do que eu, em especial, quando se tratava de pessoas na nossa faixa etária, e raramente ela dava trela para qualquer garoto que sequer ousasse puxar assunto com a gente nos pátios e corredores do Dom Pedro II. Apesar disso, eu tinha vontade de trocar ideia com os meninos mais bonitos do colégio, mas a fama de “loira inteligente” me tornava praticamente inacessível a eles.
Durante aqueles primeiros anos no novo colégio, o único garoto que chegou a me causar interesse em conhecê-lo mais a fundo se chamava Paulo André e ele fazia parte do time de futebol da turma. Era com certeza o mais lindo de toda a sala, tinha a pele parda, olhos castanhos e um queixo quadrado de príncipe encantado que me deixava maravilhada.
Assim como Kelly, ele havia começado a fazer parte da turma somente a partir do sexto ano e eu não o conhecia direito como já acontecia com outros garotos do time. Nós nunca tínhamos trocado uma única palavra que fosse, até o dia em que ele, de passagem, esbarrou em minha carteira e derrubou por acidente o meu estojo de canetas.
— Não olha por onde anda?
Eu tinha ficado brava em ver as minhas canetas coloridas se espalharem pelo chão e nem sequer tinha reparado em quem havia esbarrado em meu assento. Quando o vi se abaixar gentilmente para apanhar as minhas coisas e me devolver, os nossos olhos se cruzaram por um instante e eu morri de vergonha por ter sido tão estúpida com ele.
— Me desculpa, Nic. Foi sem querer.
Ele tinha me chamado pelo apelido que mais costumeiramente somente a Kelly usava na sala e aquilo me deixou levemente eufórica.
Depois daquele rápido momento dentro da sala de aula, o Paulo veio me abordar durante um dos intervalos entre as três primeiras aulas e as duas últimas e puxou um assunto qualquer. Kelly estava comigo na ocasião e ficou levemente incomodada pela aproximação do menino de nós num dos bancos de concreto do pátio.
— Vocês vão estar na arquibancada na final do campeonato de inverno, no domingo?
Paulo André era um dos jogadores mais talentosos do time de futsal do sexto ano e tinha praticamente uma legião de fãs ardorosas que suspiravam só em vê-lo jogando com as pernas de fora em quadra. As mesmas meninas que odiavam a mim e a Kelly por sermos inteligentes demais, dariam um dente da frente para terem aquela oportunidade que nós duas estávamos tendo de bater um papo despojado de intervalo com o garoto.
— Não fomos convidadas — respondi, levemente desconcertada em estar falando com ele —, e depois, acho que já vai ter bastante gente presente pra torcer pelo seu time de futsal …
Kelly estava com feição séria e quase não encarava o garoto ao meu lado no banco. Tomava o seu suco de caixinha em goles pequenos e demonstrava pela postura que estava entediada com aquele assunto.
— Ia ser muito bom se vocês duas viessem me ver jogando no domingo. Todo mundo fala que vocês nunca saem da sua bolha, que nunca se misturam…
— “Todo mundo” quem? — Perguntei, interessada.
— Ah, você sabe… todo mundo!
Tínhamos um bom relacionamento com boa parte dos colegas de sala, mas eu sabia que a nossa popularidade se resumia às notas boas em nossos boletins e não à nossa capacidade de se misturar. Eu não queria ser conhecida como a esnobe e decidi aceitar o convite de Paulo sem antes consultar a Kelly. Ela ficou irada comigo.
— Tá doida? — Me perguntou ela algum tempo depois da nossa conversa no pátio com o menino esportista — Segunda-feira a gente vai ter aquela prova super-difícil de História sobre o Período Regencial e você vai querer perder o tempo de estudo do fim de semana para assistir a um jogo de futebol?
Kelly tinha a diversão com os primos, a praia, o sol e o mar. Eu não tinha nada além do colégio e fui franca com ela:
— Eu posso estudar no sábado, além do mais, eu não fico tentando cortar as suas asas quando você fala que vai descer para o litoral com os seus primos em semana de prova. Por que quer fazer isso comigo só porque quero ver um menino jogando bola?
Nós nunca tínhamos discutido antes, mas aquela nossa conversa serviu para que Kelly percebesse que estava sendo egoísta em querer que a minha existência se resumisse a ser a sua coadjuvante.
No domingo seguinte, pedi autorização à minha mãe antes de um plantão no hospital e ela respondeu que permitiria que eu fosse até o colégio com uma única condição:
— Se for com a Kelly, eu deixo você sair de casa para assistir a esse tal campeonato, caso contrário, pode sossegar a sua bundinha em seu quarto.
Minha mãe confiava bastante em Kelly por conta da nossa convivência diária e também porque ela sabia que Claudia não era de permitir que a filha perdesse tempo com bobagens. Para o meu azar, a minha amiga não estava nem um pouco a fim de assistir jogos de futebol e eu precisei usar todo o meu poder de persuasão ao telefone.
— Por favor, meu! Eu nunca te pedi nada na vida. Se você não for comigo, a minha mãe vai me proibir de ir!
— É só um jogo de futebol, Nicole — respondeu ela com a voz carregada de má vontade —, todo final de semana tem!
— É, mas o Paulo André só me convidou pra assistir esse. Eu preciso ir. Por favor!
Foi uma luta convencê-la, mas no final das contas, eu venci.
Eu e Kelly chegamos ao ginásio poliesportivo do Dom Pedro II por volta das duas horas da tarde, com recomendações expressas de nossas mães para que retornássemos para casa até as dezenove, no máximo.
A arquibancada estava bem cheia na ocasião e reconheci uma penca de alunos da nossa turma sentados enfileirados a torcer pelo time que entrava na quadra. O campeonato de inverno ocorria todos os anos e costumava acender a rivalidade esportiva entre as classes do colégio, da quinta à oitava série do Fundamental. O pessoal do Ensino Médio costumava disputar uma categoria própria gerenciada pelos professores de Educação Física do período noturno, mas mesmo os seus alunos mais velhos estavam enchendo os assentos ao nosso redor.
— Olha lá o seu namorado!
Kelly tinha aceitado me acompanhar, mas estava com um mau-humor dos diabos ao meu lado. Apontou de maneira displicente para o menino usando uniforme de futebol vermelho entre as quatro linhas da quadra lá embaixo e eu retruquei:
— Para de história. Ele não é meu namorado!
Durante o jogo, eu notei que Paulo André era ainda melhor com a bola nos pés do que diziam e me vi torcendo por ele toda animada. O barulho na arquibancada era quase assustador e eu nunca tinha visto uma manifestação de alegria tão viva em um único lugar. Aquele era o primeiro evento esportivo que assistia e estava adorando.
A certo ponto do primeiro tempo da partida, Paulo marcou um golaço chutando forte da entrada da área demarcada em branco no piso e até a Kelly bateu palmas, embora sem muita empolgação. Ele correu em direção à bola no fundo da rede ainda saboreando a vibração dos colegas de time e da torcida em torno da sua demonstração de habilidade, e enquanto retornava para perto do círculo central, acenou para alguém que estava ocupando um assento no meio da arquibancada, junto à torcida.
Estiquei o pescoço para a direção em que ele apontava e enxerguei uma garota de longos cabelos encaracolados pretos a saltitar animada, respondendo a seu aceno da quadra com beijos. Eu nunca a tinha visto em nenhum lugar e nem tampouco sabia de quem se tratava, mas naquele momento, senti todo o meu ânimo em estar ali murchar e fiquei com um gosto de decepção a amargar a minha boca.
Kelly notou que eu tinha ficado chateada por conta da minha expressão corporal, mas não me poupou do comentário carregado de ironia:
— Parece que o seu namorado já tem namorada.
Paulo André jamais havia me dado qualquer esperança ou sequer havia me enviado sinais de que tinha algum interesse romântico em mim. Ele só havia me chamado pessoalmente para prestigiá-lo em quadra durante um jogo de futebol, mas na minha cabeça inocente, aquela foi a minha primeira desilusão amorosa da vida.
