Capítulo 2 - Os Rodrigues
SEIS MESES APÓS O DIVÓRCIO dos meus pais, meu pai me buscou em casa para me levar para passear em seu carro novo. Ele agora estava ganhando muito bem e finalmente tinha se desfeito do Chevrolet caindo aos pedaços que dirigia desde que eu tinha nascido. Nós fomos juntos a uma Gelateria que eu adorava, e lá, ele me contou que estava de mudança para o Espírito Santo.
— Eu recebi uma proposta muito boa de uns amigos que conheci durante a pós-graduação, filha. Eles querem que eu gerencie uma filial da agência de turismo que estão para inaugurar em Vitória. É uma chance muito grande de eu crescer como profissional, de garantir um futuro confortável para você.
Lembro que as lágrimas começaram a escorrer de meus olhos enquanto eu pousava lentamente a colher dentro do pote de sorvete. Eu sabia muito bem o que aquelas palavras queriam dizer. Meu pai estava indo embora e as chances de que eu nunca mais o veria pessoalmente eram bem grandes.
— Não quero que pense que eu estou indo embora para sempre, meu amor. É só por um período até eu conseguir estabelecer as coisas com a agência, conquistar clientes, ganhar fidelização de mercado.
Eu não fazia ideia o que significava “fidelização de mercado”. Eu tinha dez anos. Eu só pensava que meu pai estava se mudando para bem longe de mim e que eu não ia mais vê-lo.
Quando ele me deixou de volta na porta de casa, ainda com aquele cheiro de carro novo no nariz, eu o agarrei tão forte que quase rasguei a sua blusa. Eu não queria deixá-lo ir. Eu sabia que o papai não ia mais voltar e que aquele era nosso último encontro. A partir de então, eu estaria sozinha nas noites de plantão no hospital de minha mãe. Mais lágrimas inundaram meu rosto.
— Esse não é um adeus, minha fadinha — era como ele me chamava por causa dos meus olhos azuis, brilhantes como os de minha mãe — é só um “até logo”. Nas férias você pode ir me visitar. Tem praias lindas em Vitória. A gente pode passear de barco. Vai ser maravilhoso.
O fato é que as tais férias nunca chegaram e eu só falava com o meu pai por telefone. A cada fim de ligação, ele me prometia que logo iria me visitar em São Paulo, mas ele também nunca cumpria aquela promessa. “O pai agora está ocupado”, “estou concluindo um pacote para a Disney”, “a equipe vai viajar para Miami”… Era uma desculpa atrás da outra e com o tempo, perdi as esperanças de que um dia iria revê-lo.
A sua separação de mamãe e a viagem de papai para o Espírito Santo modificou consideravelmente a configuração da família Rodrigues em São Paulo e quanto mais o tempo passava, menos contato eu tinha com os meus parentes paternos.
O vovô Licurgo, a vovó Vanda, meus tios Luciano e Luiz, residiam todos no Jardim Europa, a menos de um quilômetro de nossa casa, mas eu não tornei a visitá-los naquele longo espaço de tempo de mágoa e ressentimento que tomava a todos no pós-divórcio.
Fim de semana sim, fim de semana não, eu, papai e mamãe costumávamos participar dos almoços de domingo generosos que a minha avó preparava com os empregados da casa. Eu adorava a macarronada à carbonara que quase sempre era servida por lá e acostumada a só passar com Miojo, comida congelada e sorvete em minha dieta diária limitada no Itaim, costumeiramente, eu saía bastante satisfeita da casa de meus avós.
A casa do vô Licurgo era como um daqueles chalés enormes que costumávamos ver em filmes estrangeiros. Tinha aspecto rústico por fora e características muito modernas por dentro. Das luminárias de teto aos espelhos das tomadas, cada detalhe de decoração era importado da Europa e por onde se andava na casa, era bem comum se deparar com sutilezas de arquitetura que remetiam logo aos tempos do Brasil colônia de Portugal, assunto que estudávamos bastante no colégio, em História.
Naquela época, o tio Luiz ainda era um garoto recém-entrado na faculdade de engenharia elétrica e era com ele que eu passava a maior parte do tempo na casa do vovô. Ele tinha um videogame estalando de novo em seu quarto e sempre que podíamos, passávamos horas jogando partidas intermináveis de Mario Kart, Tomb Raider ou jogos mais assustadores como Resident Evil.
O tio Lu — como eu o chamava — era o mais animado dos irmãos de meu pai e era também o mais engraçado. Sempre que eu o visitava, gostava de me encher de mimos como doces, brinquedos ou livros e não se importava de gastar o pouco tempo livre que tinha aos finais de semana para me manter entretida dentro de casa enquanto os adultos conversavam sobre a chatice da herança da família em torno da mesa da cozinha ou na sala de estar, tomando cerveja.
O tio Luciano já era mais do tipo mal-humorado resmungão e raramente trocávamos alguma ideia mesmo quando estávamos a sós em algum lugar da casa. Era ainda mais compenetrado nos estudos, determinado em aprender cada um dos pormenores da profissão que todos os homens da família Rodrigues tinham exercido desde os primórdios e aquilo o tornava incrivelmente chato e previsível.
O segundo dos filhos de meu avô era também o que mais espelhava a sua personalidade mandona e autoritária e era como se ele quisesse mesmo se tornar o herdeiro preferido do velho, não importasse o que aquilo custasse. Assim como o vovô, Luciano deixava evidente o quanto ele desprezava a profissão que papai havia escolhido exercer na faculdade e sempre que podia, durante os almoços ou conversas despretensiosas em família, o tonto dava um jeito de alfinetar o irmão.
— Ah, mas essa faculdade para aprender a viajar pelo mundo é fácil. Quero ver aprender a montar um circuito elétrico integrado em menos de uma hora e apresentar o resultado diante de uma banca examinadora sem botar fogo no prédio inteiro. Isso sim que é dificuldade!
A arrogância do tio Luciano me incomodava muito mesmo quando eu ainda nem tinha idade para entender as coisas que ele dizia, isso porque eu percebia como as coisas que cuspia pela boca com o seu tom de ironia feriam o meu pai. Dava para enxergar pelas suas expressões como Lúcio se sentia incomodado pela desaprovação da sua própria família ao que ele fazia e aquilo, de certa maneira, também me machucava.
A companhia que o meu avô havia herdado do meu bisavô e que estava na família há várias gerações se chamava Eletroporto e ocupava todo um galpão de escritórios na esquina de uma das avenidas mais movimentadas do Jardim Europa. Tinha aquele nome como uma homenagem dos ascendentes portugueses da família que haviam nascido e crescido na cidade de Porto, a noroeste da costa de Portugal e era uma das empresas mais respeitadas do ramo em São Paulo.
Como não entendia coisa alguma do assunto e nem se interessava por nada que envolvesse circuitos, placas e eletrodos, no breve período em que papai deu o braço a torcer e se tornou parte dos negócios da família, ele se dedicou a trabalhar no escritório da empresa, cuidando da parte burocrática que tanto ele dominava. Apesar das gracinhas que costumeiramente tinha que ouvir do pai e do irmão Luciano, Lúcio foi de importante ajuda para o crescimento da empresa naquele período e soube organizar toda a documentação do lugar com seus conhecimentos administrativos.
Papai tinha adiado o seu sonho de se tornar um turismólogo respeitado para que o adianto financeiro que conseguiu dentro da Eletroporto desse à sua família a sustentação básica que ela tanto precisava nos primeiros anos difíceis do seu casamento com mamãe. Eu entendia que ele estava se sacrificando para que eu tivesse as condições das quais atualmente gozava e exatamente por isso não o condenava por ter partido em busca da sua realização profissional em Vitória. Embora morresse de saudades da sua presença, dos seus afagos e de toda a pouca atenção que ele conseguia me dar com a sua vida profissional sempre tão agitada, eu conseguia entender o que o tinha motivado a viajar para tão longe de mim e o perdoava por isso.
Mesmo longe, o meu pai continuava sendo o meu grande herói e eu o amava muito.
