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Capítulo 1 - O começo

OI, PRAZER. Eu me chamo Nicole e vou ser a sua condutora nessa jornada incrível de recordações pelos anos que foram os mais felizes e também os mais tortuosos de toda a minha vida.

Eu era uma adolescente na época em que grande parte dessa narrativa foi escrita e a gente costuma cometer uma porção de erros nessa fase. É, eu sei. Eu também tive os meus deslizes.

Espero que você que está lendo essas linhas possa se identificar um pouco com a minha história, ou que pelo menos, se sensibilize com o que tenho para contar. Eu não sou nenhuma grande escritora e nem tampouco tenho pretensões de sê-la, mas vou tentar manter um mínimo de coerência em meu texto para me fazer entender.

Ok.

Vamos lá então, do começo…

Meus pais se conheceram enquanto ainda estudavam no Ensino Médio, no final dos anos 90.

Ele, Lúcio, fazia o tipo esportista, daqueles que matavam aula para jogar bola na quadra da escola. Ela, Silvana, era a baladeira popular que agitava as festas e que gostava de todas as atenções voltadas para si.

Minha tia Silvia, irmã mais velha de mamãe, contava que os dois tinham se interessado um pelo outro logo de cara, numa festa de fim de ano dos alunos da escola particular em que estudavam. Papai já dizia que achava Silvana muito exibida no começo e que não ia muito com sua cara. Mamãe contava que só tinha se apaixonado mesmo por ele depois do primeiro beijo que os dois trocaram ainda na tal festa, depois de beberem muito.

Nunca soube qual era a verdadeira versão daquela história.

Lúcio e Silvana se tornaram namorados oficialmente na metade do terceiro ano do Médio, e logo, passaram a frequentar um a casa do outro. Papai era de uma família bem abastada cujos ascendentes haviam herdado uma empresa de engenharia elétrica, e se tornar um engenheiro elétrico parecia ser o mesmo destino de Lúcio, até que ele conheceu alguns amigos que o convenceram a enveredar pelo caminho do turismo.

Quando meu pai chegou em casa naquele dia e revelou qual curso havia escolhido para ingressar na faculdade, vovô não gostou nada da novidade e ficou sem falar com o meu pai por quase dois meses. Vovó foi mais receptiva com a escolha do filho e deu-lhe todo o apoio que ele precisava, dizendo que faria o marido mudar de ideia. “Que seus outros irmãos sigam os negócios da família”, havia dito a mulher, carinhosa.

Papai tinha dois irmãos mais novos — Luciano e Luiz —, e como a vovó Vanda havia profetizado, eles se tornaram mesmo engenheiros elétricos anos depois. O velho Licurgo Rodrigues tinha se sentido traído por seu primogênito, mas para seu alento, ao menos os dois filhos mais novos honrariam a herança da família.

Enquanto papai enveredava para o mundo do turismo, mamãe nunca tinha deixado de sonhar em cursar medicina. Já na metade do terceiro ano do Médio, começou a estudar vorazmente para o vestibular de dezembro. Sabia que teria concorrência forte nas principais universidades públicas do país e começou a se preparar com afinco para a batalha que teria pela frente.

Queria ser a primeira da família humilde a ingressar numa faculdade, aspirava ajudar as pessoas com seu diploma de medicina, tinha mil sonhos…

Foi então que ela engravidou de papai.

Eu cresci com o peso nas costas de saber que não tinha sido planejada por meus pais, que na época, eram estudantes sonhando com seu futuro universitário, uma carreira e uma vida sem filhos.

Mamãe tinha apenas dezessete anos, meu pai mal tinha completado dezoito. A notícia da gravidez caiu feito uma bomba nas duas famílias. Meu avô materno ameaçou expulsar a mamãe de casa quando descobriu que ela estava grávida e junto de meu pai, a coitada teve que adiar seus planos de se formar numa faculdade de medicina, começando a procurar uma casa para morar e criar a filha que antes eles nem queriam.

Sim, era duro carregar a culpa de ter estragado os planos de meus pais e eu sabia que precisaria fazer terapia um dia para me curar daquilo.

Vovô Licurgo acabou ajudando meu pai com a casa e o coroa comprou um imóvel muito bem localizado no bairro do Itaim Bibi em São Paulo, dando de presente ao filho.

Prestes a se formar no Ensino Médio, papai agora tinha a obrigação de arranjar um emprego e sustentar aquela casa de bairro nobre, e foi a mamãe quem não deixou que ele desistisse de fazer a sua faculdade por conta da nova responsabilidade.

Ele começou a trabalhar como vendedor em uma loja de shopping para poder bancar os custos da mobília que os dois precisaram comprar para a casa — após recusar veementemente a vaga na empresa de engenharia da família oferecida por vovô — e assim, meus pais começaram sua nova vida. No começo, como era de se esperar, o casal passou por muitas dificuldades juntos, mas acabaram se unindo ainda mais, superando todos os obstáculos.

Eu nasci num mês de agosto e meu pai teve que largar o trabalho correndo quando soube pela tia Silvia que minha mãe tinha entrado em trabalho de parto num hospital particular. Na época, a tia também estava com um bebê de colo, o meu primo Igor que é só alguns meses mais velho que eu, e o pai da criança tinha lhe dado todo o suporte que ela precisava, embora ambos não tivessem ficado juntos.

Minha tia era mãe solteira e meu primo Igor só via o pai de vez em quando, o que fez com que nós dois crescêssemos praticamente juntos, sempre com as irmãs Silvia e Silvana uma visitando a casa da outra.

Depois que eu nasci, papai passou a se desdobrar ainda mais para tentar conciliar a vida de vendedor, a de estudante universitário e a de chefe de família, e pelo que mamãe contava, ele parecia que estava sempre exausto.

As duas avós ajudavam bastante com o que minha mãe precisava para cuidar de um bebê recém-nascido e disso ela nunca pode reclamar. Quando o primeiro ano passou, papai deixou o orgulho de lado e aceitou o cargo na empresa de engenharia da família, passando a ganhar um salário mais alto e outros benefícios como horários mais flexíveis e folgas nos finais de semana. Mamãe então voltou a sonhar com a faculdade de medicina, e mesmo comigo ainda no colo, ela se inscreveu para o vestibular do ano seguinte, cheia de esperanças de que iria conseguir.

(…)

Não conseguiu.

Aquele ano a concorrência tinha sido ainda mais acirrada para as vagas das principais universidades públicas do país e a minha mãe não tinha tido tempo de se dedicar aos estudos para cuidar de mim.

Embora frustrada, Silvana decidiu se inscrever num programa de bolsas de estudo de uma faculdade privada e mudou o curso para enfermagem. Ela foi classificada entre as dez primeiras e no semestre seguinte, voltou a estudar, tomando conta de mim durante o dia e me deixando com a tia Silvia durante as noites.

Como tinha cuidado de mim por um longo período de minha vida, eu acabei estabelecendo uma relação muito saudável de amizade com minha tia e muitas dessas informações sobre o casal Rodrigues eu conseguia mais com ela do que com a minha própria mãe. Silvia me contou que aqueles primeiros anos foram bem conturbados entre os dois e que pela falta de tempo que tinham um para o outro, as ameaças de separação estavam sempre em pauta no seu casamento.

Enquanto trabalhava com meu avô, papai dava duro para se dedicar à faculdade de turismo, me vendo rapidamente à noite quando mamãe me buscava na casa da tia de segunda à sexta, e nos finais de semana em que passávamos os três juntos em nossa casa.

Mamãe começou a fazer residência já no segundo ano do curso de enfermagem, e naquele período, eu praticamente me mudei para a casa da tia Silvia, tendo meu primo como principal parceiro de brincadeiras no quintal largo e arborizado da casa dela. Me lembro que sentia muitas saudades de meus pais diariamente e nosso contato noturno era tão breve que aquele sentimento se estendia até aos sábados e domingos.

A maioria das minhas lembranças de infância era na casa de Silvia, e minha referência de presença masculina era mais a do tio Dário — o pai do Igor — do que de meu próprio pai, mesmo ele indo visitar o filho só uma vez por semana na casa da tia no Itaim. Era bizarro lembrar aquilo!

Quando eu completei meus nove anos, o casamento de meus pais entrou numa crise muito grande e eles enfim decidiram se separar. Ela já estava formada e exercia sua profissão num hospital particular de São Paulo com escalas de horário cada vez mais puxadas. Às vezes, virava vinte e quatro horas no trabalho e tinha direito a apenas uma folga por semana. Suas folgas nem sempre batiam com os dias em que meu pai estava em casa e eles quase nem se viam mais.

Ele, por sua vez, estava fazendo pós-graduação em administração e tinha começado a trabalhar numa agência de turismo a três horas do centro de São Paulo. Tinha sábado que ele nem voltava para casa acompanhando algumas viagens com as equipes da agência e eu só tinha o domingo para vê-lo em casa. Mesmo assim, era raro que ele conseguisse desgrudar do telefone onde parecia continuar trabalhando mesmo de folga.

Não era culpa de nenhum dos dois, mas a separação acabou acontecendo meio que naturalmente. Meus pais tinham escolhido profissões que os mantinham quase que o tempo todo longe um do outro, e sem sexo, sem carinho ou mesmo a companhia de casal, a melhor opção foi o divórcio.

Por mais que eu já esperasse por aquilo, eu chorei por quase uma semana sem parar e mais uma vez foi a tia Silvia quem me acolheu.

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