04 | Connlach loisgt
CORA MCLAUGHLIN
— Infelizmente, Rei Kendrick, é pior, um grupo de vikings tem andando entre os nossos mares prontos para saquear reinos.
— Cora, vamos! — minha mãe voltou a gritar.
Descemos o mais rápido que pudemos em cada degrau e eu me esforço para ajudar com todas as minhas forças Eleonor acompanhar os meus passos.
Passamos o mais distante do local onde ocorre a matança, cruzamos a cozinha em direção aos estábulos que também ardem, mas, felizmente, os cavalos ainda estão todos em vida, embora extremamente agitados com o fogo, abro todas as portas e os animais saem em disparada.
Alcancei o meu cavalo, que se mantém agitado, e ajudo a minha mãe a subir antes de eu fazer a mesma coisa.
— Vamos ficar bem, mãe, eu prometo — eu prometi segurando as rédeas e o cavalo começa a galopar imediatamente
A frente do muro, o pouco de cavaleiros reais que nos resta lutam bravamente contra os invasores, mas não é difícil saber que estamos puramente em desvantagem, justamente por sermos pegos de surpresa.
Mas no meio de toda essa confusão não vejo Rowan e muito menos o meu pai.
Firmo as minhas mãos na rédea e quando estou prestes a passar o muro em direção a floresta, um grito lancinante chega no meu ouvido e viro a cabeça para atrás para encarar horrorizada a minha mãe.
Uma flecha a tinha atingido em cheio no ombro direito, mas ela continuou firme e eu também continuei tentando acelerar o galope o máximo que o meu cavalo conseguisse, sinto várias flechas perpassarem ao meu lado, mas quando estamos prestes a cruzar o muro para chegar a floresta e sair de todo esse horror, outra flecha atinge o ombro da minha mãe e ela cai do cavalo.
— MÃE! — gritei e a minha garganta ardeu infernalmente.
Tento parar bruscamente o animal para voltar, e busco a minha espada na bainha para retornar e proteger a minha mãe, mas o objeto já não se encontrava comigo.
Quando levantei a cabeça para observar os seus longos cabelos sendo direcionados pelos ventos, enquanto a mulher tenta se sustentar com a espada fixa na terra, aperto as rédeas e tento galopar na sua direção.
— FOGE, CORA! — ela gritou.
E tudo passou lentamente, assim, eu vi tudo, a Rainha das Terras Altas escocesas e do clã Mclaughlin até conseguiu desviar de alguns golpes, mas ela não teve tempo de fazer absolutamente nada quando o homem simplesmente se aproximou o suficiente, acompanhou e aguardou a sua vulnerabilidade para atravessar a espada em seu abdômen.
E como se tudo estivesse passando de um grande pesadelo, sinto que as minhas forças esvaíram.
O grito estridente que rasga a minha garganta vai se acoplando com o barulho esganiçado que soou da sua boca. A sua mão agarrou com força o braço do homem coberto por uma estranha armadura enquanto a sua vida vai esvaindo, os seus joelhos fixam o chão enquanto encara os olhos da figura à sua frente que está coberta por uma máscara qualquer.
O corpo magro e agora frágil vai caindo lentamente sobre a grama rasa e deixando-se aos poucos ser consumida pela amarga morte.
Forço a paragem brusca do cavalo, e o homem que antes olhava no corpo da minha mãe, agora o seu olhar está em mim, a máscara esconde a sua face, mas ainda assim consigo ver fios loiros escapando deles.
O homem retira o capacete da armadura e diante da sombra do fogo, não consegui vislumbrar o seu rosto, apenas os fios loiros do seu cabelo esvoaçando.
O gesto obsceno que ele direciona a mim me deixa com mais raiva ainda, ele realiza uma profunda reverência, em forma de insulto, questionando a minha nobreza.
— Eles já estão mortos! — gritou-me olhando nos olhos. — Eles já estão mortos desde o momento que os envenenaram, Cora, percebe isso, e nós duas daqui a pouco não estaremos vivas por tua teimosia, o clã precisa da sua rainha.
Eu já não posso voltar, seria fadada ao fracasso e jamais conseguiria recuperar o meu pai — se é que ele ainda esteja em vida — e muito menos o meu reino.
Matar a rainha aparentemente era aquilo que eles pretendiam, vários vikings começaram a se aproximar do homem loiro, alguns com as cabeças dos meus cavaleiros em mão e outros com espadas ensanguentadas, a sombra das chamas atrás deles não me permitiam ver nenhum rosto, e então eles começaram a cantar todos em uníssono:
A linha do horizonte se avermelha, agora o sol se vai.
A sombra pouco a pouco escala o arco a tarde cai.
Os homens calam-se diante do crepúsculo.
Com a lima, ele golpeia com força contra o aço.
A gagueira está sempre a caminho.
Com o cinzel das tempestades de neve.
Grande galho como remo.
Mas o feito a frio daquele salgueiro, a espada impiedosa.
Gestill o poeta com rajadas a usar a varinha de aço contra a ponta do navio.
Æsir nos dê coragem, para o salão eleitoral após a morte.
Na lama escura, brindamos alegremente.
Ali, na direção da serra, as luzes de uma aldeia vão trazer um pouco de conforto a toda solidão.
Povos passam calejadas em alma e músculo.
Perguntas muitas sobre nada.
Somos vikings, no norte partimos de costa a terra estrangeira, todos lutamos contra o homem.
Somos a quem a sua alma deve, e não podem voltar agora porque a guerra não terminou.
Somos a quem a sua alma, e não podem voltar cedo por que a guerra não terminou.
Mil léguas do mar afora, sem tréguas, Odin, o deus da poesia, da morte, da guerra, das runas, da vitória e do êxtase, declarou.
Escute as canções de guerra.
Lágrimas frias escorrem no meu rosto já molhado enquanto tomo controle das rédeas de novo, vou virando a minha cabeça lentamente em direção ao passo que o próprio cavalo também, não me preocupo com o lugar onde o animal galopa em direção, apenas me deixo levar com uma promessa no meu coração:
Irei vingar-me em nome do clã Mclaughlin.
Quem quer que seja o responsável por isso irá implorar para nunca ter nascido.
Quanto mais distante fico do castelo, mais o silêncio toma todo ambiente, o barulho das madeiras lascando e pedras caindo no solo, das solas dos sapatos dos homens e os gritos estridentes cessaram, assim como o cheiro de palha, sangue fresco e corpos carbonizados.
A floresta está escura e o meu cavalo já não galopa, caminha em passos ritmados enquanto me perco nos vários pensamentos que tomam por completo a minha cabeça, tentando assim compreender o que tinha de diferente neste dia.
Tudo aconteceu de forma tão rápida que mal tive tempo de processar todas as informações.
Pela manhã acordei com o calor do dia e a minha criada me berrando no ouvido para que levantasse porque o Rei de Tonsberg havia chegado, pela janela vi Cédric, Eleazar e Kavya brincando a frente do castelo enquanto vários cavaleiros sairam em direção a algo que o meu pai os ordenou.
Ao preparar-me para o almoço, podia ouvir como sempre as pragas que a minha criada lançava para o meu bom nome, ela podia até achar que eu não ouvia e eu podia continuar a fingir que não ouvia.
Posso lembrar de todas as brincadeiras e piadas que o meu pai fazia, deixando a minha mãe com um imenso mau-humor, todas as partidas que eu e os meus irmãos planeamos, todas as festas com os outros clãs que acabavam sempre com todos eles bêbados e fazendo danças humilhantes, todos os jantares que eu e os meus irmãos estragamos, todas as histórias que o pai contava para nós, todas as discussões que eu tinha com a mãe acerca dos bons costumes que uma dama deve ter, todas as expectativas que ela depositava em mim, todas as vezes em que eu a irritava por escapar dos eventos e até incentivar os meus irmãos a isso, todas as vezes em que eu levava reguadas por não prestar atenção na aula, todas às vezes em que acampamos em família, longe dos muros, ou quando o pai ia caçar durante o inverno e voltava com os objetos e animais mais peculiares...
Saber que tudo isso já não poderá ser vivido causa-me uma enorme aflição que começou a dar lugar ao vazio.
Eu já não tenho mais ninguém, nem casa e nem família.
— Não era isso que tanto almejavas? A liberdade?
Não dessa forma, não dessa maneira, é esse o preço que precisei pagar para finalmente ser livre?
Se soubesse, teria brincando mais com os meus irmãos, teria rido mais das piadas do meu pai, teria aproveitado todas as festas ao lado da minha família, teria calado e ouvido a minha mãe durante as aulas, teria satisfeito todas as expectativas que Eleanor depositava em mim, nem que fosse preciso casar com o primeiro pretendente que aparecesse a minha frente.
O que tem de diferente hoje?
Um grito desesperado e alto o suficiente para ecoar por toda a parte onde me encontro, escapa furiosamente da minha garganta.
Eleanor e Kendrick Mclaughlin eram bons reis, davam de tudo para seus súbditos, tinham terras férteis e água em abundância, o tratado de paz com o restante dos clãs era cumprido já fazia vários anos, não havia nem guerra civil e muito menos com outros reinos fazia séculos.
Será que o meu pai iniciou uma guerra sem o nosso conhecimento? Obviamente que não, todos os clãs iriam estar reunidos e nem a minha mãe, — engulo em seco — a rainha sabia o propósito do ataque, ou pelo menos parecia não saber.
Mas, pensando bem, a conversa de Rowan com os meus pais não me sai da cabeça.
— Infelizmente, Rei Kendrick, é pior, um grupo de vikings tem andando entre os nossos mares prontos para saquear reinos.
Vikings saqueando e destruindo reinos e os meus pais não foram informados? Nem a minha mãe, como a Rainha das Terras Altas, uma mulher diplomática, tinha conhecimento de tais boatos.
Alguma coisa não bate certo e eu farei questão de descobrir a verdade sobre a destruição do castelo do clã Mclaughlin.
O meu destino por enquanto é estar no cais para pegar um barco e direcionar-me aos outros clãs em busca de auxílio, ainda sou a princesa deles, e também sempre tiveram um enorme carinho pela nossa família, nem meia palavra vai precisar para acender a fúria neles e reivindicar a nossa terra e os corpos dos habitantes que tiveram o sangue derramado.
Acelero o galope do meu cavalo e seguro a capa presa para que não escapasse com o vento.
Eu em breve estarei segura.
Não se preocupe, eu encontrarei o responsável por isso e honrarei a nossa família com a vingança, mãe, eu prometo.
A falta de fôlego toma os meus pulmões e quase me faz cair do meu animal assim que cheguei aos cais de Glencoe.
Parei bruscamente o cavalo e posso ver todos os barcos queimados e alguns corpos já entrando em estado de decomposição.
É simplesmente um circo de horror.
Vários flashbacks tomam a minha memória e eu tento conectar tudo aquilo que consegui ouvir acerca do reino:
— Algo está estranho, hoje deveria vir o abastecimento de mantimentos, mas não houve nenhum movimento nos cais. — o guarda murmura baixo antes mesmo de eu passar por eles.
— Amanhã se vai investigar, recebi ordens diretas do rei Kendrick, inclusive tenho um mau pressentimento... — o outro declarou, mas silenciou-se ao nos ver e fez uma rápida reverência.
— Não é possível, não é possível, não é possível — sai de cima do cavalo e vou-me aproximando ligeiramente dos corpos. — Não, isso não está acontecendo!
O descarregamento dos mantimentos permanece intacto, foram todos tirados dos barcos e descansam ao lado das pontes de madeira que possibilitam a passagem das pessoas de terra firme para os barcos.
E analisando minuciosamente o local, consigo notar que eles todos caíram numa armadilha. É como se estivessem os esperando. O grande problema é, isso não pode ser uma armadilha planeada há muito tempo porque é a primeira vez que o meu pai mandou a maior parte dos cavaleiros e guardas reais irem ajudar no descarregamento.
E ele só tomou essa decisão por causa...
Devido à chegada do Rowan Westergaard.
Aproximo-me mais e tapo o nariz com a manga do vestido ao sentir o cheiro de podridão que os corpos soltam, e se os corpos já estão a apodrecer é porque isso definitivamente não aconteceu a pouco tempo, e houve apenas alguém que chegou pela manhã nas minhas terras: o Rowan.
Pronunciar o seu nome fez-me estremecer e ainda mais ao lembrar do sorriso sádico que delineou o seu rosto momentos antes do guarda aparecer para me avisar acerca da condição da minha mãe.
Diante da declaração do guarda, o mínimo que o grande rei de Tonsberg deveria fazer era acompanhar-me e não, ele apenas ficou especado olhando para mim enquanto eu corria desesperada, tentando ir socorrer a minha mãe.
Pior, faz todo sentido a sua chegada abrupta ao reino, que nem mesmo havia sido informada o dia da sua chegada aos anfitriões, o desespero em cortejar-me, porque caso ele demorasse um pouco mais, seria descoberto as pessoas mortas nos cais e automaticamente ele seria associado a chacina.
Há uma espada cravada em uma pilha de três corpos, aproximo-me o suficiente para identificar o símbolo nela, e não me surpreendo ao ver que além de ser bastante parecida com a que Vougan tinha, ela tem o símbolo de Tonsberg na sua lâmina.
Ele parecia igual aos outros homens que tive o desprazer de conhecer, todos sempre presunçosos e arrogantes, duvidando das minhas crenças e habilidades.
Contudo, Rowan foi inteligente, ele sabia que eu o subestimaria tal como subestimei todos os outros que passaram por mim e pediram para me desposar, ele foi bastante astuto em deixar-me pensar que seria mais um, ele soube e premeditou tudo disso.
Mas por quê? Por que Glencoe? Por que o clã Mclaughlin? Será que os outros clãs sofreram a mesma coisa? O que ele ganha com isso?
O que Rowan ganha com a destruição da minha família? Será que ele é aliado dos vikings? Os vikings não vieram saquear, então por que deixar todo o descarregamento intacto, queimar o castelo e não tentar roubar os tesouros da família real?
Eu já sabia que Rowan era um homem arrogante, e se eu não tinha medo, agora estou bastante aterrorizada.
Que carta esse maldito tem na manga?
E de repente a minha pele arrepiou por completo e sinto uma eletricidade nada agradável percorrer por toda a minha espinha, e com certeza não foram a brisa gélidas e nem a lembrança daqueles olhos de Rowan que transborda sutilmente toda maldade que há em si, não.
Foi uma voz grave arrastada, eu pude ouvir o barulho das folhagens sendo esmagadas, e sei que seja lá quem fosse estivesse a sair os arbustos. Viro-me em direção a barulho e tiro rápido o meu arco e uma das minhas flechas que descansa no suporte.
— Olá, Cora — o homem disse e eu não tive tempo de processar nada além de apenas arregalar os meus olhos.
Quem é esse homem?
