03| Connlach loisgt
CORA MCLAUGHLIN
A minha relação com a minha mãe nunca foi perfeita, confesso. Sempre foi marcada por discussões e conflitos, Eleanor Mclaughlin sempre pensou de uma maneira diferente de mim.
A minha mãe sempre quis que eu fosse a perfeita donzela que ela outrora já foi, com habilidades e qualidades de uma dama, mas com a ciência de todas as responsabilidades de uma princesa, e isso inclui:
1° Não desafiar os cavaleiros em competições de arco e flecha.
2° Não sair às escondidas durante as festas reais para se divertir (isso inclui a proibição do hipismo selvagem e natação no rio sem a companhia de uma dama de companhia)
3° Se comportar com uma dama à mesa.
4° Jamais incentivar os irmãos a pregar partidas aos pretendentes
5° Nunca desafiar os cavaleiros em jogos de lutas de espadas.
E outras regras que prefiro não salientar muito.
Mas por uma razão que eu nunca soube explicar, ela sempre foi a primeira pessoa que recorro quando estou enfrentando um problema, ela sempre foi o meu refúgio, o porto seguro que nem sequer o meu próprio pai é capaz de me assegurar.
E ver ela nesse estado acaba lentamente comigo, e pior, a minha mente trabalha a mil tentando processar tudo o que se passou nas últimas horas.
Nada de muito diferente aconteceu, os acontecimentos de hoje sempre se repetem quando chega uma visita, principalmente um pretendente. Tenho certeza de que não se trata do hidromel, eu estou muito bem, o meu pai está muito bem...
— Cora, você precisa fugir — ela disse quase desesperadamente, a sua voz saiu enfraquecida e bem baixa para que apenas eu a pudesse ouvir. — Leva os teus irmãos, você precisa proteger os teus irmãos.
As suas mãos frias apertam as minhas enquanto os seus olhos azuis encararam-me num pedido mudo.
— O quê? Como assim? Você precisa de um médico, mãe — eu disse de forma eufórica e virei em busca de alguém para amparar a minha mãe, mas o único sujeito no cómodo, além de mim, é um maldito guarda-real.
Um guarda que nunca vi na minha vida e que permanece como uma estátua nos encarando, a sua anca pendurava uma espada nunca vista por mim, observando toda a situação sem se desesperar. Não há sequer um empregado no quarto para auxiliar, e lembrando direito, o castelo está vazio.
Por quê?
— E por quanto tempo tenciona cá ficar? — perguntou o meu pai.
— Na verdade, não muito, tenho ouvido uns rumores que me têm deixado bastante alerta — comentou o que chamou bastante a minha atenção e a dos meus pais também. — ele respondeu
— Que tipo de rumores? Espero que nada esteja relacionado à guerra — Rowan não negou.
— Infelizmente, Rei Kendrick, é pior, um grupo de vikings tem andando entre os nossos mares prontos para saquear reinos.
— Tragam o hidromel, por favor — Eleanor pediu a uma das criadas. — Sabe por acaso onde foi o último ataque deles, para nos prevenirmos? — Rowan apenas cruzou os braços e abanou lentamente a cabeça em negação.
— Não possuo essa informação ainda, Rainha Eleanor, não obstante, assim que os meus aliados informem-me, eu irei os alertar, mas claro, não quero falar nada do género enquanto estiver na presença da princesa Cora, cujo interesse fez-me estar aqui na Escócia.
Memórias de poucas horas atrás começaram a se tornar amargas com a possibilidade de que estejamos a ser invadidos.
Sinto o olhar do guarda em mim e evito olhar para ele. Como o protocolo real manda, ele deveria estar na porta e não nos aposentos reais adjunto da sua rainha, é proibido para um cavaleiro, apenas criados têm esse direito.
Isso deixa-me mais alerta quanto às suas origens e posicionamento.
O resto da minha família não está connosco, os meus irmãos estão do outro lado da ala também extremamente doentes e o meu pai por alguma razão está ausente. Todos os criados desapareceram, incluindo os de Rowan.
Então, de repente, como se fosse uma indicação de tudo o que está se passando, percebo a temperatura cair e o sentimento de inquietação se instala por todo o meu corpo.
— Quem é você? — perguntei de súbito, agora o analisando.
— Chamo-me Vougan — respondeu indolentemente, sustentando a sua inexpressividade.
— Eu nunca o vi por aqui, Vougan — sinto as mãos da minha mãe ainda apertando firmemente as minhas, me alertando em silêncio de que eu deveria ser cautelosa.
— Eu cheguei ontem ao castelo, fui encarregado hoje de cuidar da saúde da Rainha Eleonor — respondeu.
Ele mente.
Ele não se dirige com respeito diante da sua suposta futura rainha, o que me convence que ele serve a outra pessoa.
— Então mostre-me a sua marca — ordenei firmemente, sem desviar o olhar dele em nenhum segundo.
— Marca? — perguntou confuso, ele pisca várias vezes os olhos como se tivesse perdido alguma coisa e eu curvo os meus lábios num sorriso.
— Sim, a marca, Vougan, todos os eleitos guardas pela cavalaria são marcados com o brasão dos Mclaughlin, onde está a tua?
— Ah, sim, perdoe-me, minha senhora, não fui marcado devido à pressa em receber o Rei de Tonsberg, ordens do Rei Kendrick. — justificou.
— Sabe por acaso das regras aplicadas quanto os aposentos da realeza para os cavaleiros? — questionei de novo, mas ele não respondeu. — Bom, se não sabe, eu lhe direi: É proibido cavaleiros ou guardas estarem nos aposentos reais — Vougan mexeu ligeiramente no pomo da sua escada.
Consigo notar que ele está inquieto e olha sutilmente na enorme janela do quarto procurando por alguma coisa por alguns instantes antes de direcionar os seus olhos para mim.
— Ordens do Rei Kendrick — falou simplesmente e com um sorriso presunçoso nos seus lábios.
Eu não confio nele, e tampouco na sua história de merda, mas pela segurança da minha mãe, permaneci calada e me virei para olhar no seu rosto que me observa com os seus doces olhos acastanhados.
Voltei a tocar na sua testa úmida pelo suor e constato que ela continua febril.
— Irei ver os meninos, mãe, já volto — murmurei suficientemente alto para que Vougan pudesse ouvir.
Levanto então calmamente e distancio-me do corpo da minha mãe, saindo então do quarto.
Caminho rapidamente até ao quarto dos meus irmãos e ao abrir a porta deparo-me com mais um guarda desconhecido por mim e sem a presença de qualquer criado.
Sinto-me agora mais preocupada e com bastante medo, o meu coração bombeia tão rápido e o meu corpo permanece estagnado no mesmo sítio que demoro um tempo antes de parar de olhar para ele.
Suspiro fundo e caminho até as quatro camas dos meus irmãos, Cédric, Eleazar e Kavya.
Aproximo-me primeiro de Cédric, o que veio depois de mim, após dez anos. Ele mal consegue abrir os olhos, sua e treme tanto quanto os outros. A pele deles parecia ficar cada vez mais pálida e é como se a morte os estivesse a esperar ansiosamente.
Um nó se forma na minha garganta e tento manter a compostura.
— Cédric, diga-me o que aconteceu — pedi quase implorando, toquei as suas mãos frias e a suas pálpebras tremiam, mas seus lábios começaram a se mover lentamente e a sua voz saiu de forma baixa.
— Trouxeram-nos leite e nós tomámos, Kavya foi a que tomou mais, acho que ela já deve estar morta — quando a última palavra chegou aos meus ouvidos, afastei-me tão depressa de si que bati com as costas na cama de Eleazar.
Arrastei-me de joelhos rapidamente até a cama da mais nova.
Kavya é a mais nova dos quatro, enquanto Cédric tem oito anos, Eleazar tem seis, Kevya tem quatro anos apenas, e apesar de ser uma pequena donzela com um aposento próprio, sempre se recusou em dormir longe dos irmãos, e obviamente, com muita insistência, os meninos permitiram que ao menos ela passasse a noite com eles, pelo menos até ela ganhar coragem para dormir longe deles.
Tanto eu e ela puxamos a nossa avó materna, que possuía cabelos ruivos, Eleazar e Cédric puxaram o nosso pai, cabelos lisos e negros, enquanto a nossa mãe possui cachos acastanhados.
O rostinho que sempre ostentou uma pele alva com bochechas rosadas, agora está completamente cinza, mas Kevya ainda respira, contudo, bem pouco, confiro também a respiração de Eleazar antes de sair do quarto.
Quase corro em direção aos meus aposentos e entro nele sem muita cerimónia, não encontro nenhum guarda dentro dele, portanto aproveito para pegar uma capa preta com capuz e o meu arco e o meu suporte com as flechas.
Já próxima ao quarto da minha mãe, deparo-me com a parede que está defronte a porta do seu quarto, há duas enormes espadas cruzadas no suporte com o brasão da família, eu não perco tempo em a arrancar do local e adentrar o espaço abruptamente, assustando Vougan.
Ele até tenta desembainhar a sua espada, mas sou mais rápida e encosto a minha na sua garganta, a ponta da lâmina no seu pomo de adão o faz ficar imóvel, já que bastava apenas um ligeiro movimento para que ela atravessasse na sua garganta.
— Eu não estou aqui para colaborar, quem é você? — volto a perguntar e ele mantém uma afeição agora bem mais assustada e surpresa. — Quem é o senhor que você serve e o que fizeram aos meus irmãos e a minha mãe? — a minha voz saiu mais controlada do que eu imaginava.
— Minha senhora, eu apenas... — pressionei mais a espada na sua pele branca e vejo uma pequena linha de sangue sujar a ponta da lâmina.
— Não minta para mim, você não está em posição de mentir para mim — ouço o ranger da cama e olho ligeiramente para trás a tempo de ver a minha mãe atrás de mim e empurrar com força a espada na garganta do homem, dividindo-o e o deixando entalado na parede.
A sua espada pesada caiu no chão e todo o barulho ecoou forte pelo cómodo.
Só então me apercebo que se eu demorasse um pouco mais, ele teria cravado a espada em mim. A minha intenção não era matá-lo, apenas arrancar algumas respostas.
Agachei-me a fim de pegar a espada do homem morto e reconheço muito rápido o símbolo de Tonsberg desenhado por toda lâmina prateada.
Guarda do Rowan? Por que e o que ele pretende em disfarçar um homem norueguês em escocês?
— Imaginei que sim — os seus olhos não desviaram dos meus em nenhum momento. — De qualquer forma, eu só tenho a lamentar, eu de fato tentei ser misericordioso — desliza novamente as mãos para agarrar as minhas.
A minha mão tremeu e eu soltei a espada que caiu no chão enquanto eu me afastei horrorizada do corpo, virei para encarar a minha mãe que caiu de joelhos no chão, logo corri em seu auxílio.
— Mas o quê que se passa, mãe, o quê está acontecendo? — perguntei já bastante desesperada, tentei, mas não consigo segurar as lágrimas que deslizam pelo meu rosto, Eleonor agarra o meu braço fortemente e fita-me.
— Presta atenção, Cora, eu acho que fui envenenada, e eu não sei onde está o seu pai e os seus irmãos. — olhou para o chão e estremeceu entre os meus abraços. — Você precisa fugir, eles querem nos matar a todos, eu não sei o que se passa, mas, Cora, é o fim do clã Mclaughlin se tu não escapares. — olhou-me de novo com os olhos agora marejados. — Vai, Cora, procure os teus irmãos e foge em busca de auxílio em outros clãs.
— Não! Eu não irei sem você, mãe — afirmei, levantei e ajudo-lhe a se erguer enquanto carrego o seu corpo juntamente ao meu. — Os meninos também foram envenenados, Cédric disse que lhes deram leite, imagino que o teu envenenamento foi a partir do copo de hidromel.
Ponho-lhe sentada por alguns instantes enquanto pego um saco com o máximo de joias que sei que mais tarde eu precisaria, cobri a minha mãe com uma manta de urso que o meu pai costuma a usar bastante durante as caçadas do inverno para o proteger contra o frio. Prendo outra bainha para guardar a espada que ainda descansa no suporte da parede fora do quarto.
De repente um sonoro grito invade o castelo, pareciam vários homens a gritar em alguma língua que eu definitivamente não entendia:
— Dh'òrduich an rìgh: Loisg an caisteal.
Volto a aproximar-me de Eleanor que engancha o seu braço no meu pescoço e eu tento a sustentar com o meu próprio peso. Ao sair do quarto, uma fumaça espessa invadiu todo o corredor e o cheiro de palha queimada é tudo o que conseguimos sentir.
— Temos que ir pegar os meninos — eu disse quase gritando e depois de tirar a espada, caminhamos num ritmo moderado para não machucar mais a minha mãe e, ao mesmo tempo, para alcançar o bendito quarto.
Mas ao chegar perto, vários e enormes pedaços de madeira bloqueiam o caminho, chamas colossais preenchem o espaço e a fumaça só aumenta, começando a irritar a minha garganta e lentamente consumir o meu oxigênio.
— Não, não, não... — desespero-me e largo a minha mãe que cambaleia para trás, mas consegue se equilibrar segurando-se na parede de pedra.
O castelo está a arder e ouço o barulho das vigas de madeira que sustentam o telhado do castelo caírem no chão, a essa altura, o quarto dos meninos já deve estar todo cheio de fumo e se eu não for rápida eles morrem sufocados.
Tento então aproximar-me, tapando o meu nariz com a manga do meu vestido, mas Eleanor puxa com força o meu vestido, me impedindo de continuar o trajeto.
— Mãe, os meninos ainda estão... — tentei fazê-la soltar-me, mas Eleanor segura firmemente para então agarrar o meu braço duramente.
— Temos que ir, Cora — ela ordenou rapidamente. — Eles não irão sobreviver — não a deixei terminar e puxo o meu vestido, ignorando a sua ordem e tentando voltar a fazer o trajeto sem ser queimada.
— Eu não saio daqui sem os meus irmãos. — mas ela voltou a alcançar o meu braço e dessa vez puxa-o com mais força ainda.
— Eles já estão mortos! — gritou-me olhando nos olhos. — Eles já estão mortos desde o momento que os envenenaram, Cora, percebe isso, e nós duas daqui a pouco não estaremos vivas por tua teimosia, o clã precisa da sua rainha.
— A rainha é você, não eu! — gritei de volta e logo tusso pela quantidade de fumo que inalamos.
Eleanor olhou-me demoradamente e apenas soltou um suspiro.
— Cora, por favor, esse não é o momento de nós discutimos — largou o meu braço. — Você precisa vingar a morte deles, da tua família, do teu clã, olha à tua volta, estamos a alguns segundos na ruína, eu imploro a você, Cora, vamos.
A minha garganta apertou-se e sinto muita vontade de chorar, mas apenas dou uma última olhada no corredor bloqueado e aproximo-me novamente da minha mãe para a ajudar a andar.
Aceleramos os passos e curvamos os corredores para sair por fim da ala real, muitos já ardem e caem vários pedaços de madeira, ao chegar por fim no parapeito do primeiro andar, pronta para descer a escadaria, vejo entre o fumo os nossos cavaleiros sendo assassinados por outros homens que não são de Rowan e que muito menos pertencem aqui.
Quem são eles?
