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04 - Valentina Carson

O som insistente da campainha me despertou antes mesmo que o sol pudesse alcançar o céu completamente. Olhei para o relógio no criado-mudo: 7h03. Juliet ainda dormia no sofá da sala, onde havia se acomodado depois da nossa conversa na noite anterior. A TV estava desligada, e o apartamento mergulhado em um silêncio inquietante, agora quebrado por aquele toque firme.

Levantei-me apressada, os pés descalços contra o piso frio, e fui até a porta, ajeitando o cabelo rapidamente. Meu coração acelerava sem motivo aparente — ou talvez houvesse, considerando os eventos recentes.

Ao abrir a porta, dei de cara com ele.

O homem parado ali era um contraste marcante contra a luz suave da manhã. Alto, porte imponente, com uma expressão séria que parecia cortar o ar ao meu redor. Seus olhos, de um azul acinzentado intenso, tinham a capacidade desconcertante de observar tudo ao redor como se nada escapasse ao seu radar. Ele vestia um terno escuro que, mesmo simples, carregava uma autoridade difícil de ignorar.

— Valentina Carson? — Sua voz era grave, carregada de algo que soava como urgência, mas também um controle quase frio.

Assenti, sentindo meu estômago revirar ao ouvir meu nome completo em sua boca. Não havia como negar — ele era da polícia. Ou pior, estava aqui por um motivo que eu preferia não conhecer.

— Sou o detetive Alexander Campbell. Preciso conversar com você. Posso entrar?

Olhei para ele e, então, para o apartamento. Juliet ainda estava jogada no sofá, o edredom cobrindo parcialmente seu rosto. Hesitei por um instante, mas algo em sua presença tornava impossível recusá-lo.

— Claro. Entre, por favor.

Afastei-me da porta, e ele passou por mim, preenchendo o ambiente com sua energia tensa e dominadora. Fechei a porta e o segui até a sala. Alexander deu uma olhada rápida ao redor, como se catalogasse cada detalhe, até mesmo Juliet, que ainda parecia alheia a tudo.

— Podemos conversar a sós? — Ele perguntou, e o tom mais parecia uma ordem disfarçada de pedido.

Assenti novamente e caminhei até Juliet, tocando seu ombro para despertá-la.

— Ju, você pode ir ao meu quarto? Só por alguns minutos.

Ela piscou sonolenta, e ao perceber o homem em pé na sala, franziu a testa, curiosa. Mas não fez perguntas. Apenas se levantou, ainda enrolada no edredom, e seguiu para o corredor.

Quando fiquei sozinha com ele, senti o peso do silêncio entre nós. Ele cruzou os braços, parecendo medir cada reação minha antes mesmo de começar.

— O que está acontecendo? — Perguntei, tentando soar firme, mas minha voz saiu mais frágil do que eu gostaria.

Ele soltou um suspiro breve, mas não menos carregado de tensão.

— Acredito que você já tenha visto as notícias sobre os assassinatos recentes.

Assenti, engolindo em seco.

— Sim… mas o que isso tem a ver comigo?

Alexander deu um passo em minha direção, os olhos fixos nos meus.

— Tudo indica que você pode estar envolvida, senhorita Carson. E, neste momento, não tenho certeza se é como uma vítima em potencial… ou algo mais.

Fiquei estática, tentando assimilar as palavras dele. “Envolvida?” A palavra reverberou na minha mente como um eco interminável, distorcido pelo pânico crescente.

— Eu… não entendi. Como assim, envolvida? — Minha voz saiu trêmula, quase um sussurro.

Alexander manteve o olhar fixo em mim, sem desviar por um segundo sequer. Sua postura permanecia firme, mas havia algo na forma como ele me observava que parecia pesar cada palavra antes de serem ditas.

— As vítimas, Valentina — ele começou, o tom mais baixo, mas não menos sério. — Todas elas têm características em comum. Jovens, ruivas, recém-chegadas à cidade… e, mais especificamente, todas tinham o mesmo símbolo gravado no corpo.

Meu coração disparou, e a garganta se apertou. A borboleta. Instintivamente, minha mão foi até o braço direito, onde a tatuagem ficava escondida sob a manga do moletom.

— Isso não faz sentido — murmurei, o medo agora escorrendo para cada canto da minha mente. — Eu não conheço essas pessoas. Não conheço ninguém aqui, além de Juliet.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça, avaliando minha reação como se procurasse algo mais nas minhas palavras.

— A tatuagem no braço direito delas — continuou, ignorando minha justificativa. — É idêntica à sua.

Minhas pernas pareceram ceder por um instante, e me segurei no encosto do sofá para não vacilar. Era como se o ar tivesse sido arrancado do ambiente.

— Isso… isso só pode ser coincidência. Eu fiz essa tatuagem anos atrás, quando ainda estava na faculdade. Eu… — As palavras travaram na minha garganta. A lógica parecia inútil diante do olhar intenso que ele me lançava.

— Coincidências podem ser perigosas, senhorita Carson — respondeu ele, cortante, embora não houvesse agressividade. Apenas uma frieza que tornava a conversa ainda mais sufocante.

Minhas mãos tremiam, e eu cruzei os braços na tentativa de esconder isso. Minha mente lutava para juntar peças que nem ao menos existiam.

— Por que eu? — perguntei, a voz quase quebrando.

— Essa é a pergunta que também estamos tentando responder. — Ele deu um passo à frente, e a gravidade em seu tom deixou claro que não havia espaço para discussões. — Mas, considerando o padrão até agora, não posso ignorar a possibilidade de que você seja a próxima.

A palavra “próxima” ressoou na minha cabeça como um alarme, reverberando com a força de um golpe. Senti o estômago se revirar, e meu corpo inteiro pareceu gelar.

— Então, o que eu faço? — perguntei, a respiração descompassada.

Alexander respirou fundo, como se estivesse se preparando para me dar uma notícia ainda mais difícil.

— Por enquanto, você será colocada sob proteção. Eu estarei encarregado de garantir que nada aconteça com você até resolvermos isso.

Aquelas palavras, que deveriam soar reconfortantes, apenas reforçaram a gravidade da situação. Se eu precisava de proteção, então o perigo era real — e estava muito mais perto do que eu imaginava.

A ideia de estar “protegida” soava mais como uma sentença do que como segurança. Meus olhos buscavam alguma pista no rosto de Alexander, algo que me dissesse que ele estava exagerando, que havia alguma outra explicação. Mas sua expressão continuava inabalável, como uma rocha.

— E como exatamente isso vai funcionar? — perguntei, tentando soar mais confiante do que realmente me sentia.

Ele ajeitou o casaco, como se se preparasse para um argumento que já sabia que eu não gostaria de ouvir.

— Você virá comigo, para um local seguro. — Ele fez uma pausa, avaliando minha reação antes de continuar. — Não é negociável.

— Ir com você? — Minha voz subiu um tom, o pânico começando a tomar conta. — Eu acabei de me mudar para cá! Minha casa… minhas coisas…

— Não valerão nada se você estiver morta, Valentina. — As palavras foram diretas, cortantes, e ele não se desculpou por isso.

Engoli em seco, sentindo as pernas vacilarem novamente. A frieza em sua voz apenas reforçava a gravidade da situação. Ele não estava ali para me tranquilizar ou oferecer consolo; estava ali para me dizer uma verdade que eu não queria ouvir.

— Olha, eu entendo que isso é difícil de aceitar — continuou ele, o tom um pouco menos cortante, mas ainda firme. — Mas você precisa confiar em mim. Esse assassino… ele sabe o que está fazendo. Até agora, ele não cometeu um erro sequer. Isso não é obra de alguém impulsivo ou amador.

A ideia de ser alvo de alguém tão calculista fez um arrepio percorrer minha espinha. Eu podia sentir meu corpo inteiro tremendo, mas fiz o possível para me manter firme.

— E se ele estiver errado? — Minha voz saiu mais baixa, quase inaudível. — E se… eu não for a próxima?

Alexander inclinou a cabeça levemente, os olhos azuis brilhando com algo que parecia ser impaciência misturada a um toque de compreensão.

— Eu não posso correr esse risco. E você também não deveria.

Olhei para ele, sentindo uma mistura de raiva e desespero. Ele falava como se fosse fácil largar tudo, como se minha vida pudesse ser colocada em pausa enquanto ele lidava com a situação.

— E se eu não quiser? — desafiei, embora minha voz tremesse.

Ele deu um passo à frente, e a intensidade em seus olhos me fez recuar instintivamente.

— Isso não é uma escolha, Valentina. — Sua voz era baixa, mas carregada de autoridade. — Você está no meio disso, quer você aceite ou não.

Meus olhos começaram a arder, mas eu não podia deixar as lágrimas caírem. Não na frente dele. Havia algo na presença de Alexander que fazia parecer que ele podia ler tudo o que passava na minha mente, e eu odiava isso.

— Quando? — murmurei, a voz embargada.

— Amanhã de manhã — respondeu ele sem hesitar. — Venho buscar você às nove. Prepare apenas o essencial.

Assenti lentamente, ainda processando tudo. Ele deu um último olhar em minha direção antes de se virar para sair.

— Valentina. — Ele parou à porta, olhando por cima do ombro. — Fique alerta esta noite. Não abra a porta para ninguém, a menos que seja eu.

Com isso, ele se foi, deixando a sala em um silêncio sufocante. Fiquei parada, encarando a porta fechada, sentindo como se minha vida inteira tivesse sido arrancada debaixo de mim.

Enquanto me virava, um pensamento insistente martelava em minha mente: e se ele não conseguir chegar a tempo?

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