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05 - Valentina Carson

Assim que Alexander saiu, fechei a porta com as mãos ainda tremendo. O som da tranca ecoou pela sala, um lembrete frágil de segurança. Antes de ir, ele havia garantido que dois policiais ficariam estacionados do lado de fora durante toda a noite. “É só uma precaução”, ele disse, mas suas palavras não conseguiram apagar o medo crescente no meu peito.

Eu me encostei na porta, tentando recuperar o fôlego. Juliet apareceu na sala, os olhos arregalados e curiosos.

— Quem era? — perguntou, segurando a xícara de chá que havia preparado minutos antes.

Olhei para ela, ainda processando a sequência de eventos. Como eu explicaria tudo isso sem parecer que minha vida tinha virado um filme de terror?

— O detetive Alexander Campbell — murmurei, cruzando os braços na tentativa de esconder meu desconforto.

— Detetive? O que aconteceu? — Juliet franziu o cenho, dando um passo à frente. Ela largou a xícara na mesa e sentou no sofá, os olhos presos em mim.

— Ele… Ele veio falar sobre os assassinatos. — Sentei ao lado dela, tentando manter minha voz firme, mas não era fácil. — Ele acha que eu posso estar envolvida. Não como suspeita, mas como… próxima vítima.

Juliet arregalou os olhos, a boca abrindo em um “o” silencioso antes de murmurar:

— O quê?

— Parece que o assassino está seguindo um padrão. As vítimas… elas… — Minha voz falhou por um momento, e eu respirei fundo antes de continuar. — Elas se parecem comigo, Juliet. Jovens, ruivas…

A expressão dela passou de surpresa para puro terror.

— Isso é sério, Val. Ele disse o que vai fazer?

— Disse que preciso sair daqui por segurança — expliquei, o peso das palavras pressionando meu peito. — Ele vai me buscar amanhã de manhã, mas, até lá, deixou dois policiais lá fora.

Juliet olhou pela janela, onde eu sabia que os carros estavam estacionados. Ela mordeu o lábio, claramente preocupada, mas tentou suavizar o momento, algo típico dela.

— Bom, se tem uma coisa que posso dizer, é que você tem um detetive muito… eficiente no caso.

— Juliet! — protestei, mas uma risada curta escapou, aliviando, ainda que por um segundo, a tensão.

— Desculpa, mas ele parecia bem sério. Charmoso também, mas sério. E perigoso.

— Sério é pouco para descrever — murmurei, lembrando da intensidade no olhar dele. — Mas, Juliet… estou com medo.

Ela segurou minha mão, os olhos dela firmes nos meus.

— Você não está sozinha nisso. Eu não vou te deixar enfrentar isso sem apoio, Val.

Aquelas palavras me acalmaram um pouco, mas o medo continuava ali, como uma sombra pairando no fundo da minha mente. O silêncio se instalou por um momento, até que Juliet olhou para a televisão, onde o noticiário ainda passava imagens do último crime.

— Valentina, você acha que ele pode estar perto?

Eu não sabia responder. Não sabia nada além do fato de que, de alguma forma, alguém estava olhando para mim — como uma presa. E, no fundo, eu sabia que amanhã traria respostas. Algumas que eu temia descobrir.

[…]

A noite chegou mais rápido do que eu esperava. O dia inteiro, tentei seguir com uma rotina normal, mas era impossível ignorar os policiais estacionados do lado de fora ou o silêncio estranho que parecia ter se instalado dentro de casa. Juliet fazia o possível para me distrair, mas até ela parecia nervosa. Quando a campainha tocou, meu corpo inteiro ficou tenso.

— Deve ser ele — murmurei, levantando do sofá enquanto Juliet me seguia com o olhar.

Abri a porta devagar, e lá estava Alexander Campbell, agora sem o casaco de manhã, vestindo apenas a camisa escura com as mangas arregaçadas. Ele segurava um pequeno bloco de anotações em uma mão e uma expressão que parecia ser sua marca registrada: severa e misteriosa.

— Boa noite, senhorita Carson. — Ele assentiu levemente, os olhos me analisando de forma quase mecânica. — Podemos conversar?

— Claro… entre. — Dei um passo para o lado, gesticulando para que ele entrasse.

Juliet lançou um olhar rápido para mim, e eu sabia exatamente o que ela queria dizer: ‘Eu fico ou dou espaço?’. Fiz um gesto sutil com a cabeça, indicando que ela poderia subir.

Assim que a escada rangeu sob os passos de Juliet, Alexander se aproximou da sala. Ele parou em frente ao sofá, mas não sentou. Eu permaneci de pé também, sentindo um nó se formar no estômago.

— Alguma novidade? — perguntei, a voz saindo mais hesitante do que eu gostaria.

Ele balançou a cabeça levemente.

— Algumas. Estou aqui para esclarecer certos pontos. Não é exatamente fácil prever os movimentos de alguém como o Obsessor, mas quanto mais informações tivermos, melhor.

O apelido “Obsessor” me fez estremecer. Não havia como me acostumar com isso.

— Quais pontos? — perguntei, cruzando os braços mais por conforto do que por desafio.

Ele abriu o bloco de notas e começou calmamente:

— Senhorita Carson, quero saber se há alguém que poderia, de alguma forma, ter algo contra você. Desentendimentos, brigas…

— Não… — comecei, mas ele ergueu a mão, me interrompendo.

— Pense bem. Mesmo algo que parece pequeno pode ser relevante.

Respirei fundo, passando os dedos pelo cabelo. Revirei mentalmente meus últimos anos, buscando algo que pudesse parecer suspeito, mas a verdade era que minha vida sempre foi… simples.

— Eu realmente não sei, detetive. Não me lembro de ninguém. Nunca fui de me meter em confusão.

Ele inclinou a cabeça levemente, como se estivesse analisando minhas palavras e, ao mesmo tempo, a mim.

— E quanto ao passado? Alguma situação mal resolvida antes de vir para White Springs?

Mordi o lábio, lembrando da cidade que deixei para trás. Minha tia, minha faculdade, minha antiga vizinhança… nada disso parecia se encaixar com a sombra de um assassino me perseguindo agora.

— Não consigo pensar em nada, sinceramente.

Ele permaneceu calado por um momento, o silêncio entre nós sendo preenchido pelo tic-tac do relógio na parede.

— E ameaças? Mensagens estranhas, ligações desconhecidas? — Ele estava firme, mas seu tom não era agressivo, apenas direto.

— Não que eu me lembre — respondi, agora tentando me lembrar de qualquer detalhe. — Eu sou… era bem discreta.

Ele fechou o bloco de notas, guardando-o no bolso interno da camisa.

— Isso é tudo por enquanto. Mas devo avisá-la, Valentina, que o Obsessor é meticuloso. Ele não deixa pistas claras. Cada movimento dele é planejado. Ele sabe como manipular as pessoas e os cenários. É possível que ele já tenha te observado por mais tempo do que imaginamos.

Meu coração afundou.

— Isso significa que ele…

— Não significa nada ainda — interrompeu Alexander, a voz mais firme. — Mas significa que você precisa estar alerta. Não saia sozinha, não atenda a porta para ninguém que você não conheça, e, se notar algo estranho, qualquer coisa, me avise imediatamente.

Eu assenti, incapaz de dizer qualquer coisa enquanto sentia o pavor tomar conta de mim novamente.

Ele olhou para mim por um instante mais longo do que o necessário, como se tentasse avaliar o quanto eu estava pronta para lidar com aquilo.

— Há outra coisa que precisamos discutir, senhorita Carson. — Sua voz era ainda mais grave agora, carregada com o peso de algo que eu sabia que não gostaria de ouvir.

— O quê? — perguntei, a garganta seca.

— Permanecer aqui, nesta casa, não é seguro.

Fiquei paralisada por um momento, encarando-o, enquanto as palavras demoravam para fazer sentido na minha mente.

— Não é seguro? — repeti, com um toque de incredulidade. — Então, onde eu devo ficar?

Ele se endireitou, assumindo uma postura de quem sabia que precisaria explicar tudo de forma direta, talvez até com certa paciência.

— Temos um local temporário preparado para situações como esta. É discreto, afastado, e já organizamos uma equipe maior para garantir a sua segurança.

A ideia de abandonar minha casa, meu espaço, meu refúgio, para me isolar em algum lugar desconhecido me fez sentir ainda mais vulnerável.

— Não posso simplesmente sair da minha própria casa assim… — comecei, mas ele me interrompeu, a voz cortante como uma lâmina.

— Com todo respeito, você não tem escolha. Estamos lidando com alguém que não só planeja os assassinatos com precisão, mas que também gosta de controlar cada detalhe de sua narrativa. Se ele te marcou como alvo, ficar aqui é o mesmo que facilitar o trabalho dele.

Eu senti o ar sumir dos meus pulmões, o peso das palavras dele caindo sobre mim como uma âncora.

— É só por um tempo — acrescentou ele, agora um pouco mais suave. — Até termos certeza de que você está fora de perigo.

— E se isso nunca acontecer? — perguntei, a voz quase falhando.

Alexander suspirou, passando a mão pelo queixo, como se estivesse escolhendo cuidadosamente a próxima frase.

— Não vou mentir pra você, Valentina. Não é uma situação fácil, mas é a melhor solução que temos agora.

Ele fez uma pausa, inclinando levemente a cabeça.

— Você tem alguém que possa cuidar das suas coisas enquanto estiver fora?

Imediatamente, pensei em Juliet. Ela saberia exatamente como lidar com tudo, mas eu odiava a ideia de arrastá-la ainda mais para essa confusão.

— Minha amiga Juliet… Ela está aqui comigo, mas…

— Certo. Ela pode permanecer aqui, se isso for necessário. Nossa equipe ficará de olho em tudo.

Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu tentava processar o que ele dizia. Parecia que minha vida inteira estava sendo arrancada de mim, pedaço por pedaço, e eu não conseguia fazer nada para impedir.

— Quando isso começa? — perguntei, tentando ao menos soar prática, mesmo que por dentro eu estivesse desmoronando.

— Amanhã cedo. Vamos te levar ao local antes do amanhecer. Até lá, minha equipe continuará aqui, garantindo que você e sua amiga fiquem seguras durante a noite.

A gravidade na voz dele era inconfundível, e eu sabia que discutir seria inútil. Ainda assim, a ideia de me isolar em um lugar estranho, longe do pouco que eu conhecia, fazia meu estômago revirar.

— Isso… isso é loucura — murmurei, mais para mim mesma do que para ele.

Seus olhos, intensos e cheios de uma autoridade inabalável, encontraram os meus.

— Pode parecer loucura agora, mas você vai agradecer depois. Confie em mim, Valentina. Se não fizermos isso, as chances não estarão ao seu favor.

Eu queria discutir, gritar, fazer perguntas que ele provavelmente não tinha as respostas. Mas, no fundo, sabia que ele estava certo. Sabia que lutar contra aquilo só pioraria as coisas.

— Tudo bem — murmurei, desviando o olhar.

— Ótimo. — Ele parecia satisfeito, mas não demonstrou nenhum sinal de alívio. — Vou passar as coordenadas para o restante da equipe. Amanhã será um dia longo.

Ele se afastou um pouco, já se encaminhando para a porta, mas antes de sair, parou e me lançou mais um olhar sério, como se quisesse reforçar a importância de tudo aquilo.

— Lembre-se, Valentina. Estou aqui para te proteger. Não vou deixar que nada aconteça a você.

Mesmo com a intenção tranquilizadora, as palavras dele deixaram um peso no ar. Ele saiu logo depois, deixando-me sozinha na sala, com a sensação de que minha vida estava prestes a mudar de um jeito que eu jamais poderia imaginar.

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