03 - Valentina Carson
A televisão no canto da sala, que estava baixinha como plano de fundo, capta nossa atenção com uma música tensa e um anúncio de última hora.
“Interrompemos nossa programação para uma notícia urgente: foi encontrado o corpo de uma jovem às margens do Rio Blackwater. Este é o terceiro assassinato em série que atinge White Springs nas últimas semanas. A polícia está em busca de mais informações e orienta a população a tomar precauções. Mais detalhes em instantes.”
A voz grave do apresentador ecoa pelo ambiente, e, por um momento, toda a leveza da conversa se esvai. Juliet olha para a televisão, a expressão preocupada.
— Isso tá ficando sério… — murmura ela, ajeitando-se no sofá. — Você acha que é mesmo um serial killer?
— Não sei, mas parece que sim. — minha voz sai num tom mais baixo. A realidade dessa cidade parece, de repente, muito mais sombria.
Juliet me observa, os olhos cheios de preocupação.
— Sabe, Val… talvez você devesse tomar um pouco de cuidado por aqui.
Fico olhando para a televisão, absorvendo cada palavra do repórter enquanto uma sensação de inquietação se instala no meu peito. O perfil das vítimas que já li nas notícias começa a se desenrolar na minha mente: mulheres jovens, ruivas, encontradas próximas ao rio, com o mesmo símbolo de uma borboleta marcado na pele. Era um detalhe peculiar, quase como uma assinatura macabra.
Juliet me olha e franze a testa, percebendo a minha expressão.
— Val… você tá bem? — Ela inclina a cabeça, estudando o meu rosto. — Você tá… pálida.
— É que… — hesito, tentando sacudir aquela ideia absurda da cabeça. — Juliet, você reparou como as vítimas… como elas… bem, como elas se parecem comigo?
O rosto dela fica sério, e ela se endireita no sofá, como se as palavras que acabei de dizer tivessem caído sobre nós como um peso.
— Valentina, não fala isso. — Ela tenta rir, mas a tensão ainda está lá. — A cidade tem várias garotas ruivas, você sabe disso. Não precisa se preocupar.
Mas a tranquilidade dela não consegue me alcançar. Eu me lembro do meu reflexo no espelho essa manhã — os cabelos longos e ruivos, os traços que se encaixam, a marca discreta no meu braço direito… igual à das vítimas.
Sinto um arrepio subindo pela espinha, o tipo de sensação que faz o estômago se contrair de nervoso.
— É que… eu me mudei há pouco tempo, e… esse tipo de coisa é estranho. Não sei. Parece que é uma questão de tempo até ser… — as palavras morrem nos meus lábios.
Juliet toca meu ombro, com o olhar solidário.
— Ei, você tá segura, Val. Não vamos deixar que nada aconteça com você. É só tomar cuidado, e… — Ela para, suspirando. — Acho que você precisa se distrair um pouco, se focar em coisas boas. Talvez no trabalho, em fazer novos amigos, algo assim.
Assinto, mas a preocupação continua pairando. Algo dentro de mim me diz que essa coincidência pode não ser tão inocente, que talvez eu esteja mais envolvida nessa história do que gostaria de admitir.
E se, de alguma forma, eu for a próxima peça desse quebra-cabeça doentio?
Minha mente começa a acelerar, criando cenários que eu preferiria nunca ter imaginado. E se ele já estivesse me observando? Estaria eu sendo seguida? Vigiada? A sensação de estar sendo alvo de algo que não posso ver nem controlar me invade com uma intensidade esmagadora.
Juliet parece captar minha preocupação, e, tentando amenizar, se levanta e me puxa pela mão.
— Vamos, Val! Você não vai ficar se martirizando por isso. Vamos dar uma volta, tomar um café e respirar um pouco de ar fresco. Eu sei que, no fundo, é só uma coincidência, e ficar trancada em casa só vai deixar tudo pior.
Eu respiro fundo, lutando para acalmar a mente. Juliet tem razão — eu preciso deixar esses pensamentos de lado, pelo menos por algumas horas. Concordo em sair, e a vejo sorrir, satisfeita, enquanto pega a bolsa e me espera na porta.
— Isso, garota! Essa é a Valentina corajosa que eu conheço. — Ela diz, forçando um tom otimista.
Saímos para a rua, e o clima fresco da cidade consegue amenizar um pouco da tensão. Enquanto caminhamos pelo centro, com as pessoas passando distraídas ao nosso redor, tento me convencer de que realmente não há nada de concreto me ligando àquele assassino.
Mas então, ao cruzar uma esquina, meus olhos se deparam com algo que me paralisa.
Na vitrine de uma loja, em meio aos jornais expostos, há uma manchete estampada com letras fortes, quase gritando para mim:
“Serial Killer do Rio Blackwater faz terceira vítima. Polícia segue sem pistas.”
A foto da última vítima está ali, bem na capa, e meu coração dá um salto ao ver o rosto dela. Mais uma mulher jovem. Ruiva, pele clara… as semelhanças com o meu reflexo são perturbadoras. Era quase como olhar para um espelho distorcido.
Juliet percebe que parei, e volta os olhos para o jornal, seu rosto perdendo toda a cor ao notar a imagem.
— Val… — ela murmura, a voz tensa. — Talvez seja uma boa ideia falar com a polícia. Só por precaução, você sabe?
Sinto um frio na espinha, mas, de alguma forma, a ideia traz uma estranha sensação de alívio. Talvez, se eu conversasse com alguém, pudesse me proteger. Podia até ser que tudo isso fosse apenas paranoia.
Concordo com a cabeça, mesmo que a ideia de envolver-me no caso me assuste profundamente.
— Você tem razão… amanhã, eu vou à delegacia.
Mas enquanto falo, um pensamento me ocorre. E se, ao procurar ajuda, eu acabasse me envolvendo ainda mais com algo que, no fundo, preferia manter a distância? Algo me diz que ao dar esse passo, estarei cruzando uma linha da qual não há volta.
mE que, a partir desse momento, minha vida nunca mais será a mesma.
Sigo ao lado de Juliet, tentando ignorar a sensação inquietante de que cada passo meu ecoa com um peso maior do que deveria. As risadas e conversas ao nosso redor soam distantes, abafadas pelo turbilhão de pensamentos que tomam conta de mim.
Mas então, um último pensamento me atinge: talvez fosse tudo coincidência. Talvez eu estivesse exagerando, deixando o medo me dominar por causa de detalhes que nem faziam sentido.
A ideia de conversar com a polícia ainda me parece a escolha certa, mas, de repente, uma pontada de incerteza se infiltra. A quem eu realmente poderia confiar algo tão sério? Algo que, mesmo sendo improvável, tocava em um medo primal de ser perseguida, de ser… caçada.
Juliet aperta meu braço com um sorriso reconfortante, trazendo-me de volta à realidade, como se soubesse o que estou pensando.
— Vai ficar tudo bem, Val. — Ela diz, com um olhar tão familiar e tranquilo que quase acredito.
Assinto, forçando um sorriso, mas algo dentro de mim hesita. No fundo, uma voz sussurra que talvez, na busca por proteção, eu esteja mais perto do perigo do que jamais poderia imaginar…
