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02 - Valentina Carson

Eu rio, a primeira risada genuína em dias, enquanto observo Juliet gesticular com aquele jeito exagerado e cheio de energia que só ela tem. Ela está narrando alguma história sobre um encontro desastroso, e cada detalhe que ela coloca parece mais absurdo que o anterior. As mãos dela voam pelo ar, e o cabelo balança junto, deixando-a ainda mais animada e espontânea.

Estamos largadas no meu sofá, almofadas espalhadas pelo chão, canecas de café ocupando todo canto que encontramos. Juliet nunca mudou. Mesmo com o tempo e a distância, ela continua com o mesmo brilho, com aquela risada que faz a gente rir junto sem saber o motivo. Somos amigas desde que éramos vizinhas, praticamente crescemos juntas, e a cada vez que ela aparece, é como se nunca tivesse ido embora.

Ela faz uma pausa no meio da história, se inclina para me olhar com um ar de quem está analisando cada detalhe, como se eu fosse um enigma.

— Val, sério, olha só pra você! Finalmente morando sozinha numa cidade nova, com emprego e tudo. — Ela solta uma risada e dá um empurrão leve no meu braço. — Quem diria que você, a garota de cabelo ruivo e cara de anjo, ia acabar aqui, numa cidade com mais mistérios do que pessoas!

Sorrio de volta, meio sem jeito. Em parte, ela está certa. Minha aparência sempre teve um toque meio angelical, talvez por causa do cabelo ruivo, herança de família, e do rosto que sempre me disseram ser suave. Mas Juliet, entre risadas e empurrões, sempre foi a única que via além dessa “cara de anjo”. Ela conhece cada detalhe do que eu deixei para trás: meus pais, que perdi tão cedo, e minha tia que me criou até eu entrar na faculdade e, depois, também se foi. Essa é a primeira vez que tento uma vida só minha, em um lugar completamente novo.

— Ei, não é qualquer cidade, tá? White Springs tem algo de especial — falo, tentando soar leve.

Juliet revira os olhos, divertida.

— Ah, então quer dizer que você veio aqui pra resolver mistérios, é? Quem sabe seja a sua cara de boa moça que vai atrair o próximo Sherlock Holmes. — Ela ri, e eu acabo rindo junto.

A verdade é que, por mais que eu tente esconder, esse pensamento já passou pela minha cabeça.

Juliet sempre disse que eu tinha o rosto de quem saiu de um romance antigo, com o cabelo ruivo herdado da minha mãe e um sorriso que ela dizia ser “meio melancólico”. Acho que ela via algo que nem eu mesma conseguia enxergar no espelho, mas talvez isso venha de todos os anos em que nos conhecemos. Juliet e eu fomos vizinhas desde que me lembro por gente, e a vida dela sempre foi a parte mais constante e segura da minha.

Perdi minha mãe muito cedo, uma perda que deixou uma marca profunda, e, pouco tempo depois, meu pai também se foi, deixando o vazio completo de uma infância solitária. Fui criada pela minha tia, uma mulher que se tornou o centro da minha vida. Ela me ensinou o pouco que sei sobre o que significa amor, e foi a força que me guiou até a faculdade. Mas até ela se foi cedo demais — logo no meu primeiro ano de faculdade, a doença que a desgastava finalmente levou o melhor dela. Foi quando percebi que não havia mais ninguém por mim.

Juliet foi a primeira a me estender a mão, a insistir que eu não estava completamente sozinha. Mesmo depois de eu me formar e partir, deixando nossa cidade natal para trás, ela continuou lá, com aquela lealdade inabalável. Ela não se importava de dirigir horas só para me ver, insistindo que fazia bem se distrair dos estudos de enfermagem e dos problemas de casa. A mãe dela estava adoentada, e Juliet nunca a abandonou, sempre ao lado dela, cuidando como podia.

Agora, estar em White Springs, sozinha e sem os rostos familiares do meu passado, era a chance de finalmente construir algo meu, ainda que a ideia me parecesse tão intimidadora quanto empolgante. Essa cidade representava uma nova possibilidade, talvez o começo de uma história que eu pudesse chamar de minha, sem as sombras do que eu perdi.

— Val, — Juliet diz, interrompendo meus pensamentos. — Não vai fazer sentido se você ficar aqui se escondendo desse novo começo, sabe? Você tem que se jogar.

Ela sempre me entendia, mesmo sem que eu dissesse uma palavra. Essa nova vida era um salto para o desconhecido, e, por mais que Juliet me incentivasse, havia algo que ela não conseguia tirar de mim — um certo medo que crescia, como se eu fosse vulnerável demais, como se essa cidade pudesse ver todas as cicatrizes que tentei esconder por tanto tempo.

Juliet me observa em silêncio por um instante, como se pudesse ler o turbilhão na minha cabeça. Ela sempre teve esse talento — saber quando eu estou sendo devorada pelas minhas próprias inseguranças. Então, ela se aproxima, me dá aquele olhar de irmã mais velha, que sempre me faz sentir segura.

— Ei, — diz ela, com um sorriso suave, — olha, é normal estar assustada. Mas você merece essa chance de começar do zero, de se encontrar. Não é todo mundo que consegue isso.

— Eu sei — murmuro, tentando desviar o olhar.

Ela revira os olhos, sorrindo, e faz um carinho rápido no meu cabelo, como fazia quando éramos adolescentes. Desde o começo, Juliet foi uma âncora, a constante em meio ao caos. Ela sempre cuidou de mim, mesmo quando ninguém mais estava por perto. Em contrapartida, ela carregava seus próprios pesos, suas próprias lutas. A mãe dela vinha sofrendo com problemas de saúde há alguns anos, e, mesmo entre a faculdade de enfermagem e todas as responsabilidades que acumulou cedo demais, Juliet nunca a deixou sozinha.

— Você merece ser feliz, Val. Não pode deixar que o medo te faça viver na sombra — diz ela, o tom firme.

Eu suspiro, absorvendo suas palavras. Juliet tem razão, e eu sei disso. White Springs é uma cidade diferente de tudo o que eu já conheci, e a proposta de emprego que me trouxe até aqui me deu uma desculpa perfeita para sair, para tentar. Eu só não esperava que a sensação de vazio fosse tão palpável, nem que o peso da solidão fosse me acompanhar aqui também.

— Eu sei… é que, às vezes, acho que tem algo errado em querer tanto me distanciar do passado. É como se eu estivesse abandonando tudo de uma vez. — minha voz sai baixa, quase um sussurro.

Juliet me olha, uma expressão de compreensão no rosto.

— Você não está abandonando nada, Val. Só está escolhendo viver. E se der medo? Que dê. Mas eu tô aqui sempre que precisar, certo?

Assinto, sentindo um calor de gratidão se espalhar por mim. Ela me passa uma segurança que eu mesma não sou capaz de gerar sozinha. Eu a observo, imaginando o que seria da minha vida sem essa amiga tão leal. Ela nunca reclamou da carga de responsabilidade que assumiu, seja com a mãe ou com o curso de enfermagem. Juliet é forte, e, ao mesmo tempo, ela é minha amiga, alguém que fez questão de me lembrar, sempre que possível, que eu não estava sozinha no mundo.

Ela se inclina para frente, com aquele brilho de animação nos olhos que eu conheço bem.

— Agora, me conta — diz ela, cruzando as pernas e ajeitando o cabelo —, o que mais tem de interessante nessa cidade? Fora o trabalho, é claro. Já encontrou alguém misterioso?

Solto uma risada, balançando a cabeça.

— Juliet! Não estou aqui pra… — começo, mas ela me corta com uma risada debochada.

— Ai, Val, não adianta fingir. Desde que eu te conheço, você sonha com o príncipe encantado ou, sei lá, um cara com um certo ar de mistério. Aposto que vai encontrar alguém interessante nessa cidade.

Dou de ombros, meio encabulada. Não posso negar que a ideia me fascina. Essa cidade é um mistério em si, um lugar de contrastes entre calma e escuridão, onde todos parecem esconder algum segredo. Mas, ao mesmo tempo, a inquietação dentro de mim só cresce. Porque sei que minha vida aqui também está cheia de pontos obscuros, um terreno instável que eu preciso explorar com cuidado.

— Tá, talvez eu esteja torcendo pra que algo interessante aconteça.

Juliet solta uma gargalhada, inclinando-se no sofá e cutucando meu ombro.

— Ah, Val, você é muito pé no chão. Eu sei que, lá no fundo, você tá esperando que algum cara misterioso cruze o seu caminho! Quem sabe um cara que te faça perder o rumo?

Eu reviro os olhos, rindo, mas não posso negar que, de certa forma, ela tem razão. A vida inteira eu fantasiei sobre algo assim, talvez influenciada pelos filmes e pelos livros que devorávamos na adolescência. Mas, ao mesmo tempo, a realidade sempre me puxa de volta. Nunca foi fácil confiar nas pessoas, especialmente quando se vem de uma vida com mais perdas do que qualquer outra coisa.

— Tá bom, tá bom, — cedo, cruzando os braços e sorrindo. — E qual é o seu tipo de cara, hein, Juliet? Porque eu lembro muito bem daquela sua fase apaixonada pelo instrutor de natação.

Ela dá uma gargalhada escandalosa, jogando a cabeça pra trás.

— Não, não! Pelo amor de Deus, não me lembra disso! Aquele homem era só… um carinha com braços fortes e sorriso fácil. Acho que era mais uma fase de… revolta adolescente, sabe? — Ela suspira, divertida. — Hoje eu quero algo mais interessante, alguém com um pouco mais de conteúdo.

— Tipo o quê? Um intelectual? — brinco, imitando o gesto de ajustar óculos imaginários.

— Talvez! — Ela dá de ombros. — Alguém que tenha histórias pra contar, sabe? Que tenha vivido coisas. Mas, sem mentira, um ar de mistério também ajuda. Quem sabe um daqueles detetives das séries policiais que você ama?

Eu gargalho e balanço a cabeça.

— Juliet, você assiste séries demais. Mas, confesso, teria seu charme… — Admito, meio relutante.

— Tá vendo! — Ela aponta para mim como se tivesse acabado de me desmascarar. — Você diz que não, mas bem que curtiria um cara com uma história complexa, um passado sombrio e, claro, um rosto que você não conseguiria tirar da cabeça. Quem sabe você não encontra um desses por aqui?

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