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01 - Alexander Campbell

A chuva fina pingava nas janelas do escritório, trazendo aquele odor metálico e frio que impregnava o ar de White Springs. Era o clima perfeito para lidar com um caso como este — um que carregava consigo a ameaça constante de morte e o suspense de algo perverso. E eu tinha aprendido a não confiar em coincidências.

As vítimas do “Obsessor” pareciam seguir um padrão. Jovens ruivas, todas recém-chegadas, tentando recomeçar longe de uma vida que deixaram para trás. Cada uma delas carregava, de alguma forma, uma marca de isolamento, um desejo de fugir de seus passados. Mas o que fazia alguém como ele as perseguir?

Passei os olhos pela lista de nomes que tinha em mãos, cada um ligado por aquele mesmo padrão obscuro que o “Obsessor” seguia. Jovens, todas com cabelos ruivos, com vidas recém-reiniciadas em White Springs. O perfil era específico, quase pessoal. Na minha linha de trabalho, aprendi que os assassinos seriais sempre seguiam um padrão, mas o “Obsessor” parecia ir além. Ele conhecia suas vítimas, como se tivesse algum tipo de ligação íntima com cada uma.

Nos últimos dias, tinha passado horas revisando as informações de cada uma das mulheres que poderiam estar na mira. Susan Harris, vinte e dois anos, bartender no centro da cidade, veio de New Orleans há seis meses. Tinha um histórico complicado, uma tentativa de recomeço. Marcas do passado que talvez a tornassem vulnerável, exatamente o tipo de fragilidade que o “Obsessor” explorava.

Depois, havia Emily Ward, vinte e cinco, professora substituta na escola local. Viera de uma pequena cidade no interior, talvez para fugir das memórias da morte de um irmão mais novo, segundo alguns conhecidos. Esse tipo de sofrimento fazia parte do padrão: o “Obsessor” parecia sempre escolher mulheres que carregavam perdas ou feridas profundas. Isso o atraía, como um lobo farejando o cheiro de sangue.

As pistas eram mínimas, as similaridades sutis, mas todas se conectavam de um jeito que não podia ignorar. O “Obsessor” não era um assassino qualquer; era um predador meticuloso e, provavelmente, alguém que as observava de longe, aprendendo seus segredos, suas rotinas.

Enquanto investigava as potenciais vítimas, as imagens dos corpos encontrados não saíam da minha cabeça. Cada uma das mulheres mortas pelo “Obsessor” tinha sido deixada às margens do Rio Blackwater, em posições cuidadosamente planejadas, como se fossem parte de uma macabra instalação. A perícia revelava sempre a mesma coisa: nenhuma impressão digital, nenhum traço de DNA, nenhuma pista que pudesse nos dar uma vantagem. Era como se ele dançasse ao redor de cada detalhe, intocável.

O “Obsessor” era mais do que apenas cuidadoso. Ele demonstrava um controle absoluto sobre seus impulsos, algo raro nesse tipo de criminoso. A precisão com que agia, o tempo que levava para deixar suas vítimas no estado exato em que as encontrávamos — tudo indicava um planejamento meticuloso, uma paciência que não era comum. Ele sabia exatamente o que estava fazendo e, pior, parecia se orgulhar disso.

Todas as vítimas tinham algo em comum além da aparência e do histórico emocional: uma tatuagem de borboleta marcada no braço direito. A princípio, acreditávamos que o símbolo era apenas um detalhe pessoal das vítimas, mas, depois do segundo corpo, ficou claro que essa era uma marca deixada por ele, um sinal de possessão. A borboleta, desenhada em linhas finas e perturbadoramente detalhadas, não estava ali por acaso. Para ele, aquilo era um símbolo de transformação — da vida para a morte, da liberdade para o cativeiro de sua violência.

Os legistas identificaram um padrão de tortura psicológica antes da morte. Nenhum dos corpos apresentava ferimentos violentos ou sinais de resistência extrema. Pelo contrário, as vítimas pareciam ter aceitado, em algum momento, o fim que ele lhes impôs. Era como se ele fosse capaz de criar uma conexão distorcida, quase hipnótica, que as levava a uma calmaria macabra. Isso me dizia muito sobre sua mente: ele não era impulsivo, nem agressivo. Ele era calculista, frio, um manipulador nato.

As investigações indicavam que o “Obsessor” conhecia suas vítimas muito bem. Ele sabia onde encontrá-las, conhecia suas rotinas e explorava cada um de seus traumas. Esse era o jogo dele: escolher aquelas que já carregavam fardos e adicionar um peso maior. Com cada nova vítima, parecia que ele refinava sua técnica, como se estivesse em busca de um troféu final, alguém que simbolizasse o auge de sua “coleção”.

Enquanto revisava a lista das potenciais vítimas, ouvi a porta da sala de autópsia se abrir. Sem precisar olhar, já sabia quem era. Madelyn Carter, ou Maddie, como a chamavam no departamento, entrou em silêncio e se posicionou ao meu lado, observando as imagens dos corpos na tela. A detetive, com o cabelo preso de forma prática e a postura segura, exalava confiança. Tinha olhos atentos, daqueles que não deixavam escapar nada, nem detalhes das investigações, nem sutilezas de um envolvimento casual como o nosso.

Maddie Carter era o tipo de mulher que chamava atenção sem esforço. Tinha olhos castanhos intensos, quase dourados sob certas luzes, que refletiam uma inteligência afiada e um toque de mistério. Os cabelos eram de um castanho escuro, sempre presos de forma prática, mas algumas mechas soltas escapavam, emoldurando seu rosto com uma leveza natural.

Ela era alta e esguia, com uma postura que exalava confiança, e seus movimentos sempre eram calculados, de quem está acostumada a medir cada passo. Nos dias de trabalho, ela usava trajes discretos e formais, mas a elegância era inegável, e a presença dela se fazia notar sem precisar de nada além de um simples olhar.

Eu e Maddie éramos uma espécie de contrapeso um para o outro. Nossos encontros eram discretos, casuais, e carregavam o mesmo distanciamento metódico que levávamos ao trabalho. Para mim, ela era um alívio temporário da tensão constante do caso. Para ela, parecia ser apenas uma forma de passar o tempo entre investigações e as longas noites de trabalho. Havia uma simplicidade nisso, algo direto e sem complicações.

Ela cruzou os braços, focando no relatório com o mesmo desinteresse aparente que eu exibia. Quando falávamos sobre o caso, a dinâmica entre nós era fria, quase clínica. Ela não fazia perguntas pessoais, e eu não dava respostas que fossem além do necessário. Esse era o entendimento entre nós.

— Então, o nosso artista ainda não deixou rastro, não é? — murmurou, com um meio sorriso enquanto estudava as imagens dos corpos na tela.

— Nenhum. Ele é meticuloso demais para isso, e parece gostar de nos manter na escuridão. — Mantive o tom baixo, neutro.

Maddie se inclinou um pouco mais, o olhar focado no detalhe da tatuagem de borboleta no braço de uma das vítimas. — Ele sabe o que está fazendo, Alexander. Esse tipo de planejamento… ele está buscando algo mais do que apenas o prazer de matar.

Fiz que sim, absorvendo as observações dela. Maddie tinha razão. O “Obsessor” não era alguém que matava por impulso; ele escolhia suas vítimas com o tipo de precisão que eu só via em predadores calculistas.

Maddie deslizou os olhos da tela para mim, com aquele meio sorriso que só mostrava quando estávamos sozinhos. Os dedos dela ainda seguravam o relatório, mas o olhar agora era mais interessado, quase desafiador.

— Já está há quanto tempo com essas imagens, Campbell? — perguntou, com uma leve provocação na voz. — Às vezes acho que precisa de um pouco mais de… distração.

Dei um leve sorriso de canto, mas mantive o tom impassível.

— Me distrair, Maddie? — retruquei, erguendo uma sobrancelha. — Tenho certeza de que você não quer me ver menos focado.

Ela riu, uma risada baixa e discreta, e deu de ombros.

— Foco é ótimo, mas até você sabe quando deve relaxar. — Maddie fez uma pausa, como se estivesse considerando suas próximas palavras, antes de encostar no balcão ao meu lado. — E relaxar é uma especialidade minha.

Havia uma facilidade e leveza na forma como ela jogava as palavras, quase como se fossem uma espécie de jogo entre nós. Inclinei-me levemente na direção dela, deixando o ar entre nós ficar mais denso, a tensão casual com que sempre levávamos esse tipo de interação.

— Parece que você já tem algo em mente, Maddie, — murmurei, sustentando o olhar. — Mas preciso saber se essa sua “especialidade” vai me ajudar ou atrapalhar com tudo isso.

Ela se aproximou um pouco mais, seu rosto apenas a centímetros do meu. Os olhos, frios e atentos no trabalho, agora carregavam um brilho de pura provocação.

— Isso vai depender de você, Campbell, — sussurrou. — Não costumo atrapalhar ninguém… a menos que eles peçam.

O espaço entre nós era tão pequeno que eu podia sentir o perfume dela, leve e discreto, mas suficientemente intenso para me distrair, pelo menos por alguns segundos. Maddie sabia a hora certa de recuar e de avançar, e jogava esse jogo com a mesma habilidade com que resolvia casos.

Ela soltou um último sorriso antes de se afastar, retomando o tom prático que carregava desde que havia entrado.

— Bom, enquanto você decide se aceita a minha “distração”, acho que temos uma nova linha para seguir — disse, referindo-se aos potenciais alvos. E, com uma piscadela rápida, virou-se para sair, deixando apenas a sugestão de que aquela conversa poderia, ou não, continuar depois.

Assim que Maddie deixou o escritório, o leve perfume dela ainda pairando no ar, respirei fundo e voltei os olhos para a tela à minha frente. As fotos das vítimas permaneciam ali, cruas e implacáveis, cada detalhe capturado em uma nitidez que chegava a ser perturbadora. O semblante sedutor que mantinha com Maddie evaporou no instante em que foquei novamente nas evidências.

Havia também Jenna Callahan, nova assistente no escritório do cartório. Era uma jovem discreta, retraída, e os rumores diziam que deixara sua cidade natal após o término de um relacionamento turbulento. Seu passado escondia segredos que a tornavam uma candidata ideal para o tipo de terror psicológico que ele parecia gostar de infligir.

Parei, então, no último nome da lista: Valentina Carson. O nome ainda era novo no sistema, e eu sabia pouco sobre ela. Recém-chegada, jovem, sem família por perto. Eu não podia descartar nenhuma dessas mulheres, mas algo nela me chamava a atenção. Algo no modo como se encaixava no perfil, de forma quase… precisa demais.

Com cada nova vítima, o “Obsessor” se aproximava do que parecia ser seu “alvo final”, como se buscasse por uma perfeição macabra em sua obsessão. E se Valentina era essa peça final?

A princípio, Valentina Carson era apenas mais um nome na lista de potenciais vítimas. Ela se encaixava em tudo: o perfil físico, o histórico de perdas e, principalmente, o ar de solidão mascarado por um sorriso leve. Para o “Obsessor”, aquilo era uma presa em potencial.

Passei a mão pelo relatório aberto na mesa, estudando cada detalhe que havia encontrado sobre ela. Valentina parecia ter surgido do nada, atraída por uma oportunidade de emprego em White Springs — uma jovem órfã de mãe e pai, criada por uma tia que, ironicamente, havia falecido antes que ela completasse a faculdade. Esse era o padrão dele, eu sabia. Ele procurava alguém assim, alguém que o espelhava de um jeito que só ele entenderia. A única diferença é que, desta vez, ela ainda estava viva. E eu precisava mantê-la assim.

Eu folheava o arquivo de forma mecânica, até que um detalhe prendeu minha atenção. A tatuagem no braço direito. Uma borboleta.

Parei por um segundo, relendo a informação. O mesmo símbolo marcado nos braços das vítimas. Não era apenas uma coincidência; aquilo não poderia ser ignorado. A questão era: será que Valentina sabia que carregava, sem saber, a marca que o assassino buscava? Ou isso a conectava de alguma forma a ele?

Senti um frio na espinha. Mesmo sem nenhuma prova de que ela sabia de algo ou tinha algum envolvimento, eu sabia que não poderia deixá-la fora do radar. Não quando ela parecia tão perfeitamente encaixada no perfil que o “Obsessor” caçava.

Respirei fundo, tentando alinhar os pensamentos. Sabia que o tempo não estava a nosso favor, e cada dia que passava tornava Valentina um alvo mais fácil. Se o “Obsessor” já a havia identificado — e eu não duvidava disso —, ele poderia estar esperando apenas o momento certo para agir.

Meu olhar voltou àquele relatório, agora com uma precisão fria. Eu precisava entender mais sobre ela, sobre as circunstâncias que a levaram até White Springs, sobre o que, além da coincidência, a colocava no caminho de um serial killer. Às vezes, o perigo se esconde nas escolhas mais simples: aceitar um emprego em uma cidade desconhecida, usar uma tatuagem com um símbolo que para muitos é inofensivo, mas que agora parecia o convite perfeito para um caçador.

Eu me levantei e fui até a janela. A cidade parecia adormecida sob a chuva, mas eu sabia que algo se movia nas sombras, esperando para destruir outra vida. A sensação de urgência me fez tomar uma decisão rápida: eu precisava falar com Valentina o mais cedo possível. Precisava alertá-la e deixá-la ciente de tudo. Mais que isso, precisava garantir que ela fosse protegida.

Mas o que me preocupava era que, em muitos casos, quanto mais a vítima tentava se proteger, mais intrigante ela se tornava para o agressor. E o “Obsessor” não parecia ser o tipo de homem que recuava. Ele possuía uma mente distorcida, obcecada, e eu conhecia bem o tipo — alguém que se alimentava de controle, que planejava cada detalhe e que se satisfazia com o medo nos olhos de suas vítimas.

Valentina era uma mulher jovem, inexperiente, recém-chegada a essa cidade desconhecida. Tinha sonhos de recomeçar, talvez de encontrar um novo propósito. E agora, sem sequer desconfiar, era parte de um jogo sádico que ela nem imaginava.

No fundo, eu sabia que encontrar Valentina era só o início. Se o “Obsessor” realmente estava atrás dela, então ela carregava mais do que uma coincidência em comum com as vítimas anteriores. Ela era uma peça essencial no quebra-cabeça do assassino, mesmo que ainda não soubesse disso.

Antes de sair, coloquei o coldre no ombro, sentindo o peso da arma familiar. No meu trabalho, aprendi que é preciso ser mais frio e mais implacável que aqueles que caço. Valentina Carson seria o próximo alvo do “Obsessor” — mas, enquanto eu estivesse no caso, não seria sua próxima vítima.

Abri a porta, com um propósito firme em mente. Ela não sabia o que a esperava, mas eu contaria tudo…

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