Prólogo - Alexander Campbell
O cheiro frio de metal e formol sempre tem o mesmo efeito. No instante em que atravesso a porta da sala de autópsia, sinto a familiar pressão no peito, um misto de respeito e repulsa. Aqui, o silêncio não é apenas ausência de som; é o eco de vidas interrompidas, de histórias que se desfazem num lampejo de violência.
Ela está ali, deitada sob a luz áspera, uma jovem que nunca saberei quem foi, mas de quem já guardo a última lembrança. Pele clara, salpicada de sardas. Cabelos ruivos que parecem arder contra o fundo estéril da mesa de aço. Tão jovem. Inquietantemente serena, como se estivesse em um sono do qual apenas alguém com um poder muito além do humano pudesse despertá-la.
Me aproximo, observando cada detalhe, enquanto o legista murmura as conclusões preliminares. Mas meus olhos são atraídos para a marca, cravada na pele do braço direito. Uma borboleta. Pequena, precisa, gravada como uma assinatura macabra. Imagino as mãos que a inscreveram ali, meticulosas, frias, vendo sua obra como um artista à sombra de seu próprio palco. Este “Obsessor” transformou-se em uma obsessão para mim.
No entanto, não é apenas a brutalidade que me inquieta. Há algo na forma como ela está ali, quase oferecida ao rio, como um tributo sombrio. O Blackwater corre implacável lá fora, lavando as margens com suas águas escuras, como se tentasse apagar as evidências de um ritual perverso. Mas a borboleta, ela sobrevive, marcando a pele pálida como um símbolo — talvez uma promessa de que haverá outras.
A borboleta me encara, sua quietude sugere movimento, quase como se dançasse entre vida e morte. E eu? Sou apenas o espectador, aquele que tenta reconstruir os pedaços deixados para trás, enquanto uma sensação antiga e perigosa me atravessa, uma certeza terrível: este jogo acabou de começar.
James ajeita os óculos, lançando um olhar grave em minha direção antes de começar a descrever os detalhes. Ele trabalha há tempo suficiente para lidar com o horror de maneira quase profissional, mas até ele parece hesitar diante da vítima.
— Feminina, idade estimada entre vinte e vinte e cinco anos — começa, a voz de James firme, mas com um traço de pesar que ele provavelmente tentaria negar. — Causa provável da morte: estrangulamento. Indícios de marcas circulares no pescoço, correspondentes ao uso de corda ou similar. O assassino foi… meticuloso, controlado. Sem sinais de luta nas unhas, sem ferimentos de defesa.
James aponta para as marcas no pescoço, onde a pele já começara a perder o tom natural, tornando-se pálida e desbotada. Não há cortes profundos, nenhuma violência que sugira improviso. Tudo foi preciso, planejado.
— O mais estranho, entretanto, é a borboleta — ele murmura, levando o dedo com cuidado até o braço direito dela. — Gravada com algo fino, talvez uma lâmina. Não há profundidade suficiente para causar sangramento abundante. É como se ele quisesse que ficasse assim… nítida, mas sem danificar o “quadro”.
Observo a borboleta mais de perto, traçando mentalmente as linhas delicadas e perfeitas, como se a própria pele fosse uma tela. A imagem é detalhada demais para ser um acidente. É uma assinatura, mas não só isso; é uma mensagem. Cada linha parece carregada de propósito, um aviso codificado para quem souber lê-lo.
James continua, interrompendo meus pensamentos:
— Corpo encontrado a aproximadamente cinco metros da margem do Rio Blackwater. Nenhum sinal de violência sexual ou abuso anterior. Vestígios de sujeira nas roupas, terra entre as fibras do tecido, compatível com a margem do rio. Mas não há nenhuma evidência de que ela tenha sido assassinada lá. Provavelmente foi… transportada.
Essa palavra, “transportada”, me deixa tenso. Não é comum que assassinos em série se arrisquem a mover seus corpos, mas o “Obsessor” parece ter se comprometido a apresentar sua obra com um toque teatral. Como se o próprio rio fosse parte do palco.
— Ela estava vestida? — pergunto, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
James confirma com um aceno.
— Sim. Roupa intacta, sem cortes. No entanto, há um detalhe curioso: foi encontrado um leve rastro de pó branco nas pontas dos dedos. Quase imperceptível, mas o suficiente para ser notado. Estamos aguardando o resultado da análise.
Fico ali, digerindo cada palavra, cada pista. O pó branco, a borboleta, o local do corpo… Cada detalhe parece gritar que nada aqui foi acidental. Tudo foi calculado, uma dança minuciosa de alguém que, ao que parece, já fez isso antes e pretende fazê-lo de novo.
James continua a análise, seu tom mais leve se chocando com o peso das palavras. Ele sempre teve essa habilidade desconcertante de manter uma certa calma, mesmo em meio ao horror. Diferente de mim, que encaro cada caso como se fosse uma batalha pessoal, um jogo silencioso e sombrio entre eu e a mente por trás do crime.
Ele percebe meu olhar fixo no corpo e solta um breve suspiro, como quem tenta, por um instante, tirar o peso da cena.
— Esse caso é um enigma dos bons, hein, Campbell? — ele comenta, quase com uma nota de entusiasmo, que me faz reprimir um suspiro. James nunca perde essa serenidade, mesmo na presença da morte. Ele vê o quebra-cabeça, a lógica, o desafio.
Eu, por outro lado, vejo o perigo. O que estamos enfrentando não é apenas um jogo ou um enigma. É uma presença, uma sombra, algo que parece me observar de volta. Meu olhar recai na borboleta novamente. Algo aqui me diz que estamos apenas no começo, que o “Obsessor” deixou exatamente o que queria que víssemos.
— Sabe, Campbell, talvez seja só um palpite… mas isso tudo — ele faz um gesto com as mãos, envolvendo o corpo, a borboleta, o cenário — parece mais do que um simples homicídio. Eu diria que é quase… ritualístico.
James tem o dom de falar sobre horrores com uma leveza quase irritante. É o jeito dele de processar, de lidar. Eu entendo, mas minha mente não trabalha assim. Para mim, cada detalhe pulsa com uma intensidade que só consigo explicar para mim mesmo. Eu sou sério, talvez excessivamente meticuloso. Não gosto de deixar espaço para incertezas, e essa calma de James, em meio a um assassinato tão detalhado, me incomoda.
— Ritualístico ou não, o que temos é um assassino que não hesita em planejar cada etapa. — Minha voz sai mais dura do que eu gostaria. Tento compensar com um breve aceno, deixando claro que não é contra ele.
James arqueia as sobrancelhas, mas me lança um sorriso suave, como se soubesse exatamente o que estou sentindo. Ele sempre consegue ver além do meu silêncio, perceber que essa intensidade é minha maneira de lutar contra as sombras.
— Calma, meu amigo — ele diz, tentando aliviar o peso que ele sabe que carrego. — Já lidamos com casos assim antes. Podemos lidar com esse também.
— Não é o mesmo, James. O “Obsessor” escolhe suas vítimas com propósito, o que significa que ele não vai parar. E se essa borboleta é alguma espécie de mensagem, então ele está só começando.
Minha mente já trabalha, calculando possibilidades. Se ele ousou deixar um corpo à vista, significa que quer ser encontrado, ou pelo menos quer que saibamos do que é capaz. Cada linha dessa marca gravada no braço dela parece falar, desafiando a investigação, um convite sádico para o próximo passo de uma dança que ainda não sabemos onde vai terminar.
James dá um leve tapinha no meu ombro, e seu toque é surpreendentemente reconfortante. Sua confiança na investigação é quase contagiante, mas eu sei que, para alguém como eu, essa confiança é algo perigoso demais para se cultivar. Para alguém que já viu o pior da escuridão humana, como eu, manter a distância é uma necessidade.
Ao sair, lanço um último olhar para o corpo. A borboleta brilha sob a luz fria, quase vibrante contra a pele pálida, como se fosse a marca de uma chama há muito apagada. Ela me encara — muda, mas com uma intensidade que deixa algo corroendo dentro de mim, como uma marca que agora carrego junto a ela.
Enquanto atravesso o corredor, sou invadido pela sensação de que este não será um caso comum. O “Obsessor” sabe como jogar, como instigar. Ele conhece os detalhes que farão seu rastro permanecer mesmo após a morte ter levado tudo. Mas o que realmente me inquieta é o que virá depois.
Porque a borboleta no braço da vítima é mais do que uma assinatura; é uma promessa, um presságio sombrio de que ele já está a caminho de sua próxima cena, talvez apenas aguardando por quem será o próximo a cair sob sua escolha cruel.
E agora, com a imagem da borboleta gravada em minha mente, só consigo me perguntar: quantas vidas serão levadas antes que eu o encontre?
