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Capítulo 03

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

— Rubem Braga , A Traição das Elegantes, Editora Sabiá, Rio de Janeiro, 1967.

Gotas espessas deslizavam pelo vidro blindado, embaçando a visão do comprido corredor mergulhado na obscuridade. A ausência de iluminação conferia ao ambiente uma aura misteriosa e sombria. Atrás do vidro, o corredor se estendia, um enigma visual de contornos distorcidos.

Além do vidro, no exterior, uma floresta se erguia em imponência. A chuva pesada a banhava incessantemente, transformando as folhas em espelhos de gotículas reluzentes. Era como se a natureza estivesse em sintonia com a atmosfera enigmática da casa.

Olhos tão verdes quanto olivas observavam essa cena da escuridão do interior da mansão. Esses olhos, gelados e imperturbáveis como a própria noite, eram os de um homem atormentado.

Do interior dos seus pensamentos, ele podia jurar que o cheiro da terra molhada se misturava ao doce aroma da jovem adormecida. A garota repousava em um quarto a poucos metros de distância. Profundamente imersa nos seus sonhos, ela era um enigma dentro de outro, um mistério que o homem não conseguia decifrar.

O homem, que vivia atormentado por dúvidas incessantes, não era capaz de ignorar o impacto da chegada da jovem Veronesi. A sua mente estava envolta em uma teia de incertezas desde que ela pisara naquela casa. As razões por trás dessa intranquilidade não eram simples de elucidar, mas ele sabia que algo havia mudado, algo que não conseguia definir claramente.

E não o surpreende agora os motivos árduos de Coniffer, que estava empenhado em ocultar a jovem Veronesi do mundo exterior. No entanto, as suas tentativas eram inúteis, como se estivessem fadadas ao fracasso desde o princípio.

A verdade sobre a garota, a razão da sua presença ali, era um enigma que se aprofundava a cada tentativa de escondê-la, que agora ele sabia. Essa batalha silenciosa entre as intenções de Coniffer e a inexorável curiosidade do homem só intensificava o clima de mistério.

Os dias transcorriam nesse clima carregado de dúvidas e segredos não ditos. O homem encontrava-se frequentemente à beira do corredor, contemplando a floresta encharcada e tentando desvendar os pensamentos que o atormentavam. A presença de Veronesi na casa era como uma gota de tinta dispersa em um copo de água cristalina, tingindo toda a sua percepção e mudando a dinâmica do seu mundo.

Cada olhar lançado em direção ao quarto da jovem era repleto de perplexidade. A proximidade física não diminuía a distância que separava os seus pensamentos. Ele sentia que estava à beira de desvendar algo crucial, algo que tinha relação com a garota e o propósito da sua estadia ali.

A floresta, agora lavada pela chuva que continuava a cair, permanecia como uma testemunha silenciosa de todos os eventos que se desenrolavam na casa. A natureza, indiferente aos dilemas humanos, seguia o seu curso enquanto o homem lutava para encontrar clareza em meio à névoa de incertezas.

Uma menina, uma estúpida e frágil menina...

Já fazia duas semanas que ela se encontra dentro da sua residência, Isadora fez questão de o notificar sobre cada passo que a garota dava, não o surpreendendo por ser uma pessoa extremamente entediante.

Mas para ser franco, imaginava o seu sabor, arriscando talvez a sua dignidade, a sua honra e sensatez para ter uma ínfima hipótese de se deliciar.

Ela deveria ser dele, somente dele e talvez quando se deleitasse da sua essência poderia saciar a sua repentina curiosidade, o repentino desejo pela garota insignificante.

Isso quase o faz rir, uma menina está prestes a fazê-lo cruzar a linha do bom senso, onde nenhuma, em toda extensão do seu poder, foi capaz de o fazer.

Não podia apenas a culpar, pelo menos não hoje, os seus instintos estavam à flor da pele, embora que a sua lucidez ainda reinava, a menor parte dela.

O homem alto guarda as enormes mãos dentro das calças de cetim, ainda olhando firmemente nas árvores.

Isso seria uma armadilha? — não se surpreenderia se o fosse.

Coniffer sabia que mais tarde ou mais cedo ele próprio cederia, a sua dúvida seria velada, nada mais prudente do que deixar uma armadilha caso de fato encontrassem a sua tão preciosa filha, Penélope.

A família D'Artagnan havia o ensinado muito bem, tinha que o admitir.

Não via nada de especial na menina, pelo menos em aparência, não podia dizer que a sua beleza era incomum, pelo menos, tinha certeza que não havia puxado de Kora, tirando o seu jeito estranhamente singular e tentador.

Lembranças vividas inundam o homem onde são enturvadas pela figura de Penélope treinando com Hans pela manhã. O seu rosto corado só não era mais atrativo que o seu corpo se movendo com uma bela agilidade.

Mas não era isso que o atormentava, com certeza não era isso.

Os olhos da menina transbordam constantemente o vazio, diferentemente dele, sabia que muitas pessoas possuem uma fixação por sentimentos irracionais como a constante alegria, algo que não compreendia, mas que sempre observou com descaso.

Pelo menos os seus empregados eram movidos a isso, a sua alegria poderia irradiar até mesmo pelo simples sentimento de gratidão, algo que não compreendia também muito bem.

No fundo, nunca precisou ser grato por coisa alguma.

Ela? Ela parece carregar consigo demónios que até ele, um assassino, teria remorsos de descobrir quais são, tinha certeza de Coniffer não foi um grande exemplo paternal.

Mas por que eu, Ezra, estou preocupado com isso?

Quando tenta se virar para finalmente abandonar o local, encontra nada menos que a responsável pelos seus tormentos.

Penélope estava envolta em uma aura de simplicidade e elegância. Vestia uma camisa de dormir vitoriana, confeccionada em malha fina que parecia quase transparente sob a luz baixa que preenchia o ambiente. A vestimenta cobria o seu corpo de forma sutil, quase tapando os seus pequenos pés descalços, cujas formas apenas se insinuavam sob o tecido. Contudo, o jogo de luz e sombra permitia, para quem observasse atentamente, vislumbrar as curvas delicadas das suas aréolas e os contornos suaves dos bicos dos mamilos.

Os seus cabelos longos e cacheados, de um negro profundo, caíam em cascata até alcançar o seu quadril, criando um contraste elegante com a pele pálida das suas costas. Essa disposição estratégica realçava o foco do observador no seu rosto, e especialmente nos seus olhos — o epicentro das reflexões de Ezra naquela noite gélida.

Ao se deparar com essa visão, o corpo de Ezra experimentou uma paralisia momentânea. Ele não pôde evitar a inalação profunda e discreta, uma tentativa de conter a tempestade de emoções que a presença de Penélope evocava nele. O contraste entre a luz e as sombras que delineavam o seu corpo, somado à pose graciosa que ela mantinha, constituíam um cenário de beleza e magnetismo que capturavam a sua mente.

A voz dela irrompeu no silêncio como uma brisa suave em uma tarde de verão. Tinha um timbre feminino, suave e acolhedor, que parecia derreter as tensões no ar.

— Sr. D'Artagnan, boa noite — A saudação soou obediente, quase como uma reverência ao tempo e à posição, enquanto mantinha a calma de alguém acostumado a deslizar pelo terreno escorregadio das formalidades.

— Boa noite, Penélope.

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