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Capítulo 02

PENÉLOPE VERONESI

Os lençóis de linho, acariciados por um sutil perfume de lavanda, convidam ao toque enquanto, gradualmente, eu abria os olhos, reconectando-me ao momento presente e ao espaço que agora ocupo. A brisa fresca do ar condicionado permeia o quarto, provocando involuntários arrepios que me fazem encolher sob os lençóis em busca de aconchego, apesar de ainda estar envolta no calor do sobretudo que não tive ânimo para retirar.

Neste lugar desconhecido, tento assimilar a avalanche de eventos que recentemente tumultuaram a minha vida. Hoje, o meu pai deixou-me, mergulhando-me numa tristeza profunda e abismal.

Enquanto lido com essa perda que deveria ser avassaladora, mas não a sinto tanto quanto gostaria, encontro-me inexplicavelmente sob a guarda de um homem cujo nome jamais cruzou os meus ouvidos.

A ironia da situação é amplificada pelo fato de que nem as autoridades, nem a austera Sra. Colleen, nem mesmo o tutor legal se deram ao trabalho de me informar sobre a existência desse indivíduo e o papel que agora desempenha na minha vida.

Os segundos escorrem como grãos de areia por entre os meus dedos, tornando tudo uma instância efêmera.

Os meus olhos se fixam na porta de madeira maciça do quarto, um obstáculo entre o que eu era e o que me tornei.

Recordo as palavras da dama de companhia, pronunciadas com uma gentileza formal, informando que o jantar será servido pontualmente às oito da noite. Um estrondoso ruído ecoa no ambiente, arrancando-me um sorriso tímido, enquanto o meu estômago expressa a sua insatisfação de maneira ruidosa, quebrando a serenidade do momento.

A fragilidade da existência humana torna-se patente diante das reviravoltas inesperadas. Aconchegada nesse quarto impessoal, sou forçada a refletir sobre a efemeridade da vida e a imprevisibilidade do futuro.

O toque suave dos lençóis, o aroma tranquilizador que exalam e o frescor do ar condicionado formam um contraste vívido com a sensação de perda que pesa no meu peito.

No entanto, enquanto aguardo o jantar que se aproxima, a fome que o meu estômago anuncia de maneira tão inoportuna recorda-me da continuidade da vida.

Mesmo em meio ao luto, a necessidade básica de nutrição persiste, sussurrando sobre a jornada que ainda tenho pela frente. Com cada grumble faminto, sou lembrada de que, apesar das tempestades que assolam o coração e da confusão que permeia o presente, a vida segue o seu curso implacável.

Ou seja, eu não poderia simplesmente isolar-me no meu quarto novo e esperar que trouxessem a comida até mim. Além de não ser bom tom, a casa não me pertencia, mesmo eu querendo lidar com a minha solidão por hora.

Assim, entre o desamparo da perda e a incerteza das mudanças abruptas, encontro-me aqui, nesse quarto silencioso, onde lençóis de linho e aromas suaves se entrelaçam com o ronco voraz do meu estômago.

Enquanto a escuridão gradualmente toma conta do espaço e as horas avançam na sua dança inexorável, sinto-me apegada à dualidade dessa experiência única, onde o peso do passado se encontra com a promessa do amanhã, e tudo o que posso fazer é enfrentar o presente, uma refeição de cada vez.

Ao voltar na cama, direciono a minha atenção para o crepúsculo que pinta o céu com tons dourados e rosados, brevemente tomando a escuridão como a sua aliada. A primeira ação é verificar o relógio, constatando que a urgência ainda não impera na minha rotina matinal.

Porém, o meu corpo parece uma carga pesada, como se cada membro estivesse impregnado de chumbo, e a minha cabeça insiste em pulsar com uma dor incômoda, martelando com cada batida do meu coração.

Opto por fechar os olhos, buscando abstrair-me da dor que lateja. Inspiro profundamente, segurando o ar por um breve momento, como se essa ação pudesse de alguma forma conter o incômodo que se irradia em minha mente.

As malas que guardam os meus pertences estão posicionadas convenientemente junto à porta, uma lembrança constante da minha jornada recente. Arrasto-as até a cama, decidindo que é hora de conferir um mínimo de organização ao caos que representam.

A minha intenção é realocar tudo de maneira ordenada no closet, mas antes disso, um banho tranquilo parece um remédio necessário.

Adentrei o banheiro, fechando a porta atrás de mim com um suave clique. A ponta dos meus dedos buscava o interruptor. Um rápido deslizar, e a luminosidade alva iluminou o espaço à minha frente, revelando uma visão que me deixou momentaneamente sem fôlego.

O branco cerâmico dominava, infundindo cada centímetro com uma aura de pureza e simplicidade. As paredes, ligeiramente texturizadas, exibiam padrões suaves que adicionavam uma dimensão sutil ao espaço. Cada linha, cada curva parecia projetada com uma precisão meticulosa, uma harmonia estética que ecoava em cada canto.

Entretanto, o que mais cativava os meus sentidos era o chão. Em um contraste notável com a cerâmica branca que dominava o cenário, o piso revelava uma elegância requintada na sua escolha de material.

O mármore, majestoso e luxuoso, conferia ao espaço uma sensação de nobreza. Os tons suaves e as veias graciosas do mármore proporcionavam uma riqueza visual que se destacava, mesmo dentro do domínio da palidez predominante.

Cada passo que eu dava parecia ecoar no espaço, um sussurro suave que reverberava nas superfícies imaculadas ao redor. As nuances de branco interagiam entre si, criando uma ilusão de movimento constante, como se o próprio ambiente estivesse a respirar.

Depois de um tempo fascinada, cada item meu encontrou o seu lugar designado nos compartimentos do meu espaço pessoal, como um quebra-cabeça meticulosamente montado.

E com o dever cumprido, preparei a banheira com água quente, observando o vapor que se elevava e adicionando sais de banho de flor de laranjeira, cujo aroma doce preencheu o ar do cômodo fechado.

Despojando-me das roupas que de repente parecem pesadas demais, cedo à tentação de imersão na água perfumada.

Os meus cabelos, emaranhados e rebeldes, acompanham-me nessa jornada aquática, mergulhando nas profundezas da banheira na esperança de domar a sua selvageria.

E o reflexo que o espelho imenso proporciona revela olhos inchados e vermelhos, testemunhos das lágrimas que antes inundaram o meu rosto.

Numa tentativa sutil de pentear os meus cabelos, submergi todo o meu corpo na água, ao menos parecia uma vã esperança de parecer minimamente apresentável.

No entanto, dentre a melancolia e a sensação de perda, uma determinação cresce em mim.

As motivações que impulsionaram o meu pai e as intenções do meu tutor presente permanecem envoltas em mistério. Uma certeza toma forma dentro de mim: descobrirei o que há por trás dessas escolhas, mesmo que isso signifique enfrentar as verdades desconfortáveis que possam surgir.

A voz do arrependimento sussurra, sugerindo que poderia ter agido de maneira mais audaz, que o meu destino poderia ter tomado rumos diferentes se eu tivesse ousado mais. Contudo, esse pensamento não me imobiliza. Pelo contrário, fortalece a minha resolução de agir, de compreender, redefinir o meu caminho daqui para frente.

Enquanto a água continua a acariciar a minha pele e o perfume cítrico envolve os meus sentidos, sinto-me renovada, recarregada pela água e pelo propósito emergente no meu coração. O crepúsculo lá fora cede lugar à noite, assim como a escuridão do meu passado tumultuado parece estar a ceder à luz da esperança que brota em minha mente.

E assim, na quietude do meu refúgio, eu permito-me sonhar com um amanhã moldado pela minha determinação, onde as respostas que busco se revelarão e onde as decisões que tomarão forma se tornarão a força propulsora de novas decisões, e talvez a minha liberdade.

Após uma espera prolongada, a água na banheira cedeu ao frio, persuadindo-me a emergir dela. O tapete macio absorve o excesso de umidade que escapa do meu corpo enquanto alcanço uma toalha branca, envolvendo-me para preservar a minha nudez.

Seguindo um ritual familiar, cuido da minha higiene bucal, desembaraço com paciência os cabelos que descem como uma cascata, e então os seco devagar. Da paleta de vestimentas, escolhi uma blusa de alças finas e decote quadrado, um amarelo torrado que contrasta suavemente.

O seu comprimento se encerra acima do meu umbigo, enquanto a saia marfim, de corte amplo, toma a responsabilidade de ocultá-lo, alongando-se até os meus tornozelos. Para os pés, simples sandálias castanhas completam o visual.

Enquanto a escova desliza pelos fios úmidos, batidas ressoam na porta. Com um consentimento murmurado, Annie entra no recinto, a sua figura se materializando após a autorização que lhe conferi.

— Boa noite, Srta. Veronesi. Precisa de ajuda? — Annie indagou, aproximando-se da cadeira em que estou assentada.

— Penélope, apenas — corrigi, os meus olhos fixando-se na sua postura. — Você pode se referir a mim como Penélope, Annie — encorajei, um convite para uma relação mais informal.

Um sorriso de acordo se forma nos lábios de Annie, e ela prontamente se prontificou a auxiliar-me com a escova.

— Você pode fazer uma trança como a sua? — pedi, esperançosa. Ela acenou afirmativamente, e um lampejo de expectativa surge em mim. — Quem mora aqui? — perguntei depois de alguns minutos de quietude, a minha curiosidade é inevitável.

— O Sr. D'Artagnan e os funcionários, e agora a senhora também — ela respondeu.

— O Sr. D'Artagnan não tem esposa ou filhos? — a pergunta fluiu naturalmente, mas Annie desviou o olhar, como se estivesse a resguardar segredos.

— Não sou autorizada a discutir a vida pessoal do meu senhor, Penélope — ela respondeu enquanto se afastava, voltando ao trabalho no meu cabelo. — Por que não lhe pergunta diretamente?

O som da chuva batendo contra a janela ressoa pelo quarto, enchendo o espaço com uma melodia suave. Observando a parede ao lado da cama, percebo que gotas de água deslizam pelo vidro, um espetáculo singelo e cativante.

O meu pai sempre foi enigmático, um homem com nuances peculiares. As suas atitudes eram muitas vezes dominadas por um desejo de controle e proteção, como se estivesse fugindo de algo invisível. No entanto, o símbolo "D'AR" parecia estar entrelaçado com a sua identidade, gravado em cada item do seu escritório — cadernos, canetas, documentos. Apesar disso, nunca tive a coragem de indagar, e ele nunca ofereceu explicações voluntárias.

Após um breve momento de reflexão, volto o meu olhar para Annie, concedendo-lhe um sorriso tranquilo.

— Você está certa. Vou seguir o seu conselho e perguntar diretamente a ele. Afinal, não há motivo para não buscar respostas quando elas estão ao alcance.

Não quero que ela pense que tentei arrancar informações, e ela também tem razão. Se quiser respostas, então pedirei a fonte dos questionamentos: meu tutor.

Saímos do quarto e posso reparar que metade de algumas paredes também são feitas de vidro e a luz do luar invade os corredores com quase nenhuma iluminação.

Descendemos a majestosa escadaria, direcionando os nossos passos rumo à sala de jantar. Com um gesto suave, Anne empurra a imponente porta de madeira, que cede como se fosse um sussurro, revelando o espaço que se desenrola à nossa frente. Um suspiro de admiração involuntariamente escapa dos meus lábios diante da grandiosidade da cena diante de mim.

A luz que inunda a sala de jantar emana uma tonalidade dourada e calorosa, envolvendo o ambiente em um abraço convidativo. Desde o primeiro instante, uma sensação de conforto se instala no meu ser, como se as próprias paredes emanasse tranquilidade. Os tons terrosos dominam a decoração, uma paleta que se desdobra em castanhos, beges, caquis, marfins e areias, contribuindo para uma atmosfera natural e acolhedora.

O foco de atenção repousa sobre a mesa de jantar, um móvel aparentemente modesto, porém imerso em um espaço de proporções surpreendentes. A madeira escura da mesa cria um contraste elegante com o restante da sala. Ao seu redor, seis assentos esperam, como testemunhas silenciosas daqueles que compartilharão refeições ali. A parede atrás da mesa é um espetáculo por si só, adornada com uma coleção de obras de arte que ecoam a paleta de cores da sala. No piso de madeira, um tapete simples de sisal repousa como um convite para pousar os pés.

A parede oposta abriga uma adega de madeira, uma exposição tentadora de garrafas que ostentam uma variedade de vinhos. Uma ode ao prazer e à apreciação dos sentidos, as garrafas alinham-se em um padrão harmonioso, esperando o momento certo para serem desfrutadas.

A sala de jantar não se limita a esse enquadramento. Do lado oposto, uma visão inesperada surge: uma ampla televisão e um sofá de um azul profundo, ambos generosamente dimensionados. O sofá é uma declaração de conforto, uma ilha de tranquilidade naquele oceano de tons terrosos.

Mas o cenário se transforma quando o olhar alcança a parede oposta à entrada. Uma vasta parede de vidro se estende em um abraço arquitetônico com a paisagem noturna. E ali, à sombra dessa janela panorâmica, repousa ele: Ezra. Vestido em um terno cinza que harmoniza com a serenidade do ambiente, Ezra permanece de costas para mim. Um ar de mistério o envolve, uma aura que combina com a atmosfera intrigante da cena.

O seu foco parece ser o mundo lá fora, onde as chuvas caem com vigor e as trovoadas iluminam o céu noturno com faíscas de energia. Ezra, na sua postura enigmática, parece absorver essa tempestade com uma quietude que é ao mesmo tempo, imponente e contemplativa. Ele não demonstra pressa em se voltar para me cumprimentar, como se fosse uma extensão natural da harmonia que a sala exala, conectado com o espetáculo da natureza que dança lá fora.

Procuro Annie com o olhar, mas não há sinal nenhum da sua presença, o que me faz arfar um pouco.

Eu não deveria ficar sozinha com esse homem.

Quando ele finalmente decidiu voltar o olhar na minha direção, deparei-me com a presença avassaladora da sua beleza exótica, que por paradoxal que pareça, também emanava um sentimento de sufocação. A peculiaridade dos seus traços tinha o poder de prender a atenção de qualquer um, mas era a intensidade daquela característica que tornava a contemplação quase opressiva.

Na sua face, não havia vestígios de um sorriso, e os seus olhos transmitiam apenas frieza. Essa hostilidade latente se direcionava a mim, apesar de não haver motivo algum para tal atitude.

A sua postura rígida e distante era como um escudo impenetrável, uma muralha construída com o propósito de manter os outros à distância. Mesmo eu, que não tinha desempenhado papel algum para instigar esse comportamento, era alvo da sua indiferença gélida.

Considerando melhor, talvez essa atitude fizesse parte intrínseca da sua personalidade. Talvez fosse apenas um mecanismo de autodefesa, uma maneira de lidar com o mundo ao seu redor. Afinal, cada pessoa possui a sua complexidade singular, as suas razões particulares para erguer certas barreiras invisíveis.

Antes que eu pudesse continuar especulando sobre a natureza desse homem, a sua voz quebrou o silêncio de maneira brusca e áspera.

— Boa noite, Penélope — proferiu ele, enquanto levava o copo curto e largo aos lábios e sorvia o líquido no seu interior. A forma como ele bebia, com um ar de despreocupação calculada, era tão intrigante quanto o restante da sua postura impenetrável.

Por um instante, fechei os olhos involuntariamente.

Era como se aquela ação momentânea de reclusão fosse uma tentativa de me preparar para o que estava por vir. Respirei profundamente, buscando a clareza de pensamento necessária para lidar com aquele cenário surreal.

Quando abri os olhos mais uma vez, encontrei-o próximo a mim, surpreendentemente próximo. A sua proximidade repentina enviou uma onda de choque por meio de mim, fazendo-me sentir uma mistura de desconforto e curiosidade. Os seus dedos, com uma delicadeza inesperada, roçaram os fios soltos da minha trança.

Movendo-se com uma lentidão quase ritualística, ele esticou os fios até que eles alcançassem o seu nariz, onde ele os aspirou profundamente. Os seus olhos permaneceram fixos nos meus durante todo esse estranho ritual, observando com atenção cada reação estampada no meu rosto. Era como se estivesse a avaliar a minha surpresa e desconcerto diante daquela situação peculiar.

De forma tão abrupta quanto a sua aproximação, ele afastou-se, retornando à sua posição original. Ele sentou-se à mesa, como se nada tivesse acontecido, como se aquele momento fugaz de intimidade fosse apenas mais um capítulo na história daquela noite enigmática.

A sua próxima ordem foi dada com a mesma autoridade e distância que caracterizava a sua presença.

— Aproxime-se, Penélope — instruiu ele, e levei um momento para assimilar e responder a esse comando direto. As minhas pernas se mover passos cautelosos em direção a ele.

Sentei-me na cadeira do lado oposto à sua, criando assim um espaço quase ritualístico entre nós, cada um em uma extremidade oposta da mesa. A magnitude da mesa parecia sublinhar a distância entre os nossos mundos internos.

O Sr. D'Artagnan toca um sino e pouco depois algumas criadas chegam com a entrada, uma sopa cremosa de legumes e servem-nos vinho.

Eu me abstenho de consumir vinho.

Enquanto a refeição se desenrola, um manto de silêncio paira sobre nós, ritmado pelo tamborilar das grossas gotas de chuva no vidro. Paralelamente, lembranças da sua conduta momentos atrás ecoam como marteladas persistentes em minha mente.

— Amanhã, a sua agenda reserva aulas com o Professor Parker e treinamento com Hans — ele comenta em tom neutro, recorrendo a um guardanapo de linho para limpar a sua boca de maneira elegante, concluindo assim o primeiro prato. — O horário foi designado em consonância com a sua acompanhante. — acrescenta.

Uma inquietação invade-me, e a pergunta emerge abruptamente, escapando dos meus lábios enquanto os fito. No entanto, o meu olhar é incapaz de sustentar o seu.

Ele recosta a sua figura na cadeira, estudando-me mais uma vez, como se buscasse desvendar os cantos mais recônditos da minha essência.

— Penélope, você não consegue experimentar um senso de liberdade? — A indiferença na entonação da sua voz gera em mim uma perplexidade maior do que a própria questão formulada.

— Sinto-me desconcertada, senhor — admiti, tentando capturar com palavras o turbilhão de sentimentos que a sua pergunta provocou.

O silêncio retorna, estabelecendo-se como um protagonista silente na trama desse encontro. Ele ressoa como um espaço eloquente entre as nossas palavras e ações, um vácuo que as circunda, enfatizando a imprecisão das coisas não ditas.

Num gesto que parece quase ritualístico, ele toca um pequeno sino disposto à mesa. O próximo prato é apresentado com uma coreografia cuidadosamente orquestrada, no entanto, dessa vez, a conversa não é retomada. A minha voz permanece repousada, enterrada sob camadas de significados não explorados.

As paredes ao redor parecem exalar uma espécie de observação constante, como se a própria atmosfera estivesse imbuída da capacidade de absorver cada palavra silenciada, cada olhar fugaz, cada respiração contida.

Enquanto os talheres dançam em harmonia coreografada com os sabores que desfilam perante o paladar, o peso de uma presença não expressa pesa sobre a mesa. Há muito mais acontecendo ali do que a mera culminação de ingredientes refinados.

Ergo o olhar, de relance, procurando entender os matizes daquele que partilha esse momento comigo. Em meio aos traços que definem a sua expressão, busco por pistas que possam-me conduzir a um entendimento mais profundo.

A chuva lá fora continua a compor a trilha sonora dessa cena, uma batida suave que serve de contraponto para os pensamentos que reverberam internamente.

Os pratos são trocados, revelando novos sabores e texturas que preenchem a paleta gustativa, mas as palavras permanecem adormecidas. À medida que a noite avança, percebo que há uma linguagem não verbal sendo tecida, uma conversa que transcende o domínio das palavras.

O serviço se encaminha para o seu ápice, o momento do último prato. O ambiente parece impregnado de uma sensação quase etérea, como se os sentimentos e reflexões que se desenrolaram entre nós fôssemos materializados nas sutilezas do cenário.

E então, no limiar da noite, quando a refeição se completa, eu percebo que às vezes a verdade mais profunda não necessita ser articulada em frases completas. A comunicação se manifesta em suspiros silenciosos, em olhares que desvendam camadas ocultas, e em uma sinfonia de sabores que reverberam além do paladar.

As gotas de chuva cessam, e o som que permanece é apenas das gotas de água riscando o vidro.

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