Mirna De Lá Vega
Minhas pernas mal me sustentam quando sigo a mulher pelos corredores apertados. O coração martelando no peito como se quisesse me impedir de seguir em frente.
Quando chego no camarim, ela me entrega aquela roupa minúscula e me encara, esperando que eu vista. Mas as palavras simplesmente escapam de mim, sem que eu consiga segurá-las:
Luna- Eu… eu não sei fazer isso… nunca fiz nada… assim.
Ela franze a testa, confusa.
— Como assim, garota?
Engulo seco, a vergonha me queimando por dentro.
Luna - Eu sou… virgem.
Ela arregala os olhos, como se eu fosse um ser de outro mundo. Em seguida, dá uma risada abafada e corre até Mirna, que está conversando ao telefone do outro lado do salão.
— Mirna… você não vai acreditar! — cochicha, mas eu ouço. — A garota… é virgem!
Mirna lentamente vira o rosto em minha direção, os olhos brilhando como os de uma predadora que acabou de encontrar a presa perfeita.
Ela se aproxima com aquele andar elegante e perigoso, me observando como quem avalia uma joia rara.
Mirna - Virgem… — repete, pensativa, com um sorriso enviesado.
Mirna - Uma oportunidade única.
Engulo seco, apertando o casaco contra o corpo.
Mirna me segura delicadamente pelo queixo, me obrigando a erguer o rosto e encará-la.
Mirna- Menina… — ela sussurra, quase com carinho, mas o gelo na voz dela me faz estremecer Mirna - você não faz ideia do que tem nas mãos.
Ela solta meu rosto, se vira para a funcionária e diz com firmeza:
Mirna - Vamos preparar ela. Ensinar tudo o que precisa.
Depois se volta para mim, com aquele olhar superior e calculista:
Mirna- Primeiro, vamos arrumar você. Treinar. Te deixar… um pouco mais atraente.
A funcionária dá uma risada curta e cúmplice.
Mirna - No final das contas, ela vai se sair melhor do que imagina.
Mirna dá mais um passo, tão perto que consigo sentir o perfume forte e enjoativo dela:
Mirna- Eu vou te transformar, Luna Monteiro. Você vai aprender a usar tudo que tem… e o que ainda nem sabe que possui.
Quero correr. Gritar. Desaparecer.
Mas então penso em Matheus… sozinho, com o corpo quebrado naquele hospital, dependendo de mim.
E simplesmente abaixo a cabeça.
Luna- Tudo bem — digo, com a voz fraca, mas decidida.
Luna- Me ensine.
Mirna sorri como quem já sabia a resposta.
Mirna - Ótimo… começamos amanhã.
E assim… com uma única frase, eu entreguei minha inocência não só ao mundo, mas a ela… Mirna De La Vega.
Na manhã seguinte, eu já não era mais a mesma.
Mirna não perdeu tempo. Antes mesmo que o sol aquecesse as janelas altas daquele lugar, a funcionária cujo nome eu nem sabia já estava batendo na porta do quarto minúsculo onde me acomodaram.
— Levanta, boneca. Hoje começa sua nova vida.
Eu me arrastei até o banheiro, lavei o rosto e encarei meu reflexo: olhos inchados, expressão abatida, uma sombra do que um dia fui.
“Por Matheus…”, repeti, como um mantra.
Fui levada até uma sala ampla, espelhada de ponta a ponta. Tapetes vermelhos no chão, uma barra de dança no centro e diversas cadeiras alinhadas.
Mirna estava lá, sentada como uma rainha, de pernas cruzadas, segurando uma taça de vinho, mesmo sendo tão cedo.
Mirna - Chegou a nossa aluna. — Ela sorriu, debochada.
Ao lado dela, duas outras mulheres, altas, exuberantes, com maquiagem impecável. Elas me olharam com aquele misto de pena e superioridade.
Mirna- Primeira lição: postura. — Mirna se levantou, caminhando até mim.
Mirna - Aqui, não há espaço para vergonha.
Ela puxou meus ombros para trás e ergueu meu queixo com firmeza.
Mirna - Você é bonita… mas ninguém vai acreditar nisso se você mesma não acreditar.
Engoli seco, sentindo meu corpo rígido, desconfortável.
Mirna - Agora… caminhe.
Eu hesitei.
Mirna - Vamos, Luna. Mostre-me como anda uma mulher que quer sobreviver.
Dei um passo… depois outro… tropecei. As mulheres ao fundo soltaram uma risada abafada.
Meu rosto ardeu.
Mirna - De novo! — ordenou Mirna.
Respirei fundo, limpei a vergonha com a força que me restava e tentei mais uma vez. Dessa vez, com os ombros erguidos, mesmo que meu coração estivesse esmagado.
Mirna sorriu satisfeita.
Mirna - Melhor.
Depois me apresentou à barra de dança, aos movimentos de quadril, aos olhares sugestivos. Cada toque, cada comando, era como se ela estivesse esculpindo uma nova versão de mim.
Mirna - Você tem uma vantagem — disse, enquanto eu girava desajeitada.
Mirna - Sua pureza. Homens pagam caro… muito caro… pelo que você tem.
Engoli seco, sentindo a bile subir.
Ela percebeu meu desconforto e se aproximou, afagando meu cabelo como se fosse uma mãe carinhosa… mas o olhar dela não tinha nada de afeto.
Mirna - Você vai aprender a usar o que é seu, Luna Monteiro. — Seu tom foi firme, definitivo.
Mirna - Ou esse mundo vai engolir você viva.
Fechei os olhos, segurando as lágrimas.
E ali, naquele salão espelhado, eu comecei a deixar minha antiga versão morrer.
