A primeira noite
Os dias seguintes se misturaram em uma sequência exaustiva de passos, olhares e comandos. Meu corpo doía como nunca, minha mente implorava por descanso, mas eu não podia parar.
Cada manhã começava com a mesma voz fria de Mirna:
— Postura. Caminhada. Sedução.
Eu obedecia, mecanicamente, tentando ignorar a vergonha, tentando matar aos poucos a garota assustada que ainda vivia dentro de mim.
Foi numa dessas manhãs, quando minhas pernas quase falharam, que ouvi uma risada diferente.
— Relaxa… no começo é assim mesmo.
Virei o rosto e dei de cara com uma mulher linda, de cabelos curtos, tingidos de um ruivo vibrante, olhos castanhos cheios de vida e um sorriso que parecia sincero coisa rara ali dentro.
Bea- Sou Beatriz… mas todos me chamam de Bia. — Ela estendeu a mão.
Apertei, um pouco desconfiada, mas seu olhar era diferente dos outros… não tinha julgamento, não tinha desprezo.
Luna - Luna… — respondi, com um meio sorriso.
Ela se encostou na barra de dança, observando enquanto eu tentava repetir os movimentos que Mirna ensinava.
Bia- Você está indo bem… pra quem começou agora.
Revirei os olhos, sem conseguir disfarçar um sorriso.
Luna- Estou um desastre.
Ela riu, jogando o cabelo para trás.
Bia- Todas somos no começo. Mas a gente aprende… e sobrevive.
Beatriz se aproximou, segurando minha mão e me guiando na coreografia.
Bia - Olha… não é só sobre mexer o corpo. É sobre o olhar… o controle. Não é eles que controlam você. É você que decide até onde eles podem ir.
Sua voz soou tão segura, tão confiante, que me deu uma estranha esperança.
Luna- Obrigada… — sussurrei.
Ela sorriu, cúmplice.
Bia- A partir de agora… somos amigas. E nesse lugar, amiga é coisa rara, então agarra essa sorte.
E, pela primeira vez desde que entrei naquele mundo, senti que não estava completamente sozinha.
Beatriz passou a me ajudar nos treinos, me corrigia com paciência, me dava dicas que Mirna jamais daria:
Bia- Nunca olhe para baixo… — dizia, segurando meu queixo.
Bia.- Quem olha para baixo, perde.
Ou:
Bia- O medo… nunca deixa transparecer.
Entre um treino e outro, conversávamos sobre coisas simples nossos sonhos, o passado, as feridas. Descobri que ela também tinha entrado ali por alguém… por uma irmã mais nova que precisava dela.
Nos entendíamos no silêncio.
E foi graças a ela que, semanas depois, quando Mirna me chamou para a primeira apresentação… eu não tremi.
Pelo menos… não por fora.
O espelho à minha frente refletia uma versão de mim que eu mal reconhecia.
Beatriz estava atrás de mim, finalizando a maquiagem com mãos hábeis enquanto eu respirava fundo, tentando acalmar o coração que parecia querer escapar do peito.
Bia- Pronta? — perguntou, com aquele tom leve, como se estivéssemos indo para uma festa qualquer.
Neguei com a cabeça, mordendo o lábio inferior.
Luna- Nunca vou estar…
Ela sorriu, compreensiva, e colocou as mãos nos meus ombros, me virando para encará-la.
Bia- Olha pra mim… você treinou, aprendeu, superou. Você é mais forte do que pensa, Luna. Só precisa acreditar nisso agora.
Assenti, mesmo sem ter certeza.
Beatriz me entregou o vestido escolhido por Mirna: vermelho colado ao corpo, tomara que caia e fenda lateral que parecia feita para me expor, para me lembrar que ali… não havia mais espaço para pudores.

Bia- Não precisa ter medo — disse Bia, me ajudando a fechar a lateral do vestido.
Bia - Não é sobre eles… é sobre você. Sobre como você quer ser vista.
Puxei o ar, ajustei o tecido e me calcei nos saltos altos que pareciam absurdamente instáveis sob meus pés frágeis.
Luna- E se eu cair? — perguntei, nervosa.
Beatriz riu, ajeitando meu cabelo em ondas soltas:
Bia- Levanta, sorri e continua andando. Como a gente sempre faz.
Antes que pudesse responder, a porta se abriu com força.
Mirna surgiu, impecável como sempre, os olhos escuros me analisando como quem avalia uma mercadoria prestes a ser exibida pela primeira vez.
Mirna - Finalmente — disse, se aproximando e girando meu rosto levemente para avaliar a maquiagem.
Mirna - Vai causar impacto.
Engoli seco, tentando não demonstrar o medo que me rasgava por dentro.
Mirna - Você está pronta. — Mirna afirmou, como quem dá uma sentença, não uma escolha.
Mirna - Sua primeira noite… é hoje.
Beatriz apertou minha mão discretamente, me passando a coragem que eu já não encontrava sozinha.
Mirna apontou para o corredor:
Mirna - O salão te espera.
E, com os joelhos vacilando, mas o olhar erguido, comecei a caminhar para o lugar onde enterraria, de vez, a última parte da garota inocente que fui um dia.
Apenas não sabia… que naquela mesma noite, sob aquelas luzes artificiais, meus olhos cruzariam com os de alguém que mudaria tudo.
