Capítulo 1
Solange
__Eu gosto d'oce sol. __ Jairo diz novamente essa besteira.
__Eu também, mas eu gosto de océ como meu amigo, já te disse isso.
Ele aperta o chapéu na mão e me olha decepcionado.
__Eu sei, sol. Mas o coração não escolhe de quem se gosta.
Eu queria poder corresponder esse sentimento dele, mas eu não posso, não sinto o mesmo.
Desvio meu olhar da cerca para o moreno ao meu lado.
__Sei disso, e juro por minha vida que eu queria gosta de océ como cê gosta deu, mas como cê mesmo disse agorinha: o coração não escolhe de quem se gosta.
__Sol...
__Eu gosto muito de océ jairo, mas se océ insistir nesse assunto eu não vou querer nem sua amizade mais.
__Desculpa sol, não vou mais encontrar oce.
Ele sai de perto de mim e sei que tá cuspindo marimbondo mas eu não posso fazer nada pra ele.
Como ele menso disse, no coração não se manda.
Olho mais uma vez para o potro que acabou de nascer e já mama com gula na mãe dele.
Quando eu tinha dez anos minha mãe faleceu de pneumonia, eu sinto falta até hoje mas minha madrinha sempre foi mais minha mãe do que minha mãe de sangue.
Todos os dias eu sinto falta da minha mãe, massa como eu já disse Laura, minha madrinha sempre fez um papel de mãe na minha vida.
Antes quando ela me acolheu para morar com ela na casa grande, minha madrinha amigou com o Tenório, isso ninguém esperava.
Na verdade antes quando ele era casado, haviam boatos que a muie dele metia gaia na cabeça dele.
E quando eu ainda era uma criança me lembro que a mulher e o fi o largou, alguns dizem que ele sempre teve um caso com a madrinha, mas eu não acredito nisso, Laura sempre foi uma Muié direita.
E o Tenório também, não acho que ele ia fazer uma cachorrada dessa com a própria muie.
Já o fi do homi nunca mais apareceu aqui, hoje já deve ser um home feito, e a madrinha que me desculpa viu, mas o Tenório parace vinho, enquanto mais velho mior.
Ele e a madrinha forma um casal tão bonito, quando eu arruma um namorado eu quero ter um amor igual o dês, é lindo por demais.
O sol já está bem quanto lá fora do estabulos, o que só prova que eu passei mais tempo do que devia aqui, tenho que correr para ajudar a madrinha no almoço.
O casarão da fazenda é bem grande, e tem muitos empregados também mas todos os dias minha madrinha faz questão de fazer o almoço, a não ser se ela estiver adoentada.
A casa não fica muito longe do estábulo, quando me aproximo vejo dona Nadir varrer as folha de frente a casa.
__Bom dia Nadir. __ Nadir é a mãe do Jairinho.
__Bom dia Sol. __ me olha sorridente__ Jairo passou por aqui brabo no mundo o que cê fez dessa vez.
Vejo que a fumaça do fugao a lenha já desponta na chaminé.
__eu não fiz nada não nadir. Só falei que gosto dele apenas como amigo.
Não tem como cê se apaixonar por uma pessoas que cresceu como irmão.
A mulher suspira e me olha colocando uma mão na cintura e a outra segurando o cabo da vassoura.
__Ce fez bem minha fia, pelo menos não fica iludindo o coitado.
__ce sabe que eu gosto dele como irmão.
__Eu sei, mas ele parece não entender não é?__ aceno com a cabeça.__ Ele precisa e tirar um pouco do foco d'oce e caçar uma namorada.
Sorrio do seu jeito de falar.
__Eu acho também, viu. Agora eu vou entrar antes que madrinha venha atrás de mim.
Ela acena para mim e volta a varrer as folhas, que não vai durar nem meia hora limpa.
Bato minhas botinhas no tapete antes de entrar na sala, os móveis de madeira escura deixa tudo mais rústico e com um ar de fazenda. Eu amo isso.
Vou até a cozinha e vejo madrinha e Tenório danado uns amassos, eles já estão velhos para ficar com esse fogo todo.
Raspo a goela e vejo ele se separar assutado, minha madrinha arregala os olhos e fica vermelha.
__Ta muito cedo para ficarem de safadezas.__ provoco, Tenório fecha a cara para não rir.
__E voce dona Solange deveria procurar algum para ficar de safadezas. __ Tenório, sempre com a resposta na ponta da língua.
__Tenorio! __ madrinha repreende e se afasta dele. __ e océ sol quando for entrar faz algum barulho que anucie sua presença.
É tão bonitinho ela com vergonha.
__Madrinha, lugar de safadezas é no quarto. __ digo e a vejo arregala os olhos.
__Essa semana vou te levar na missa para cê se confessar sol.
Tenório da um beijo na testa dela e passa por mim mas antes diz:
__Empata foda.
Sorrio para ele e quando minha madrinha escuta ela grita com ele e o mesmo sai correndo igual criança.
__Ce foi fazer o parto da égua é? __ ela me pergunta e abre a geladeira para pegar os legumes.
__Tava a prosear com o Jairo. __ madrinha coloca na mesa um punhado de cenoura e batata.
__Fia, se cê não quer nada com esse moço, não der esperanças a ele. __ vou até a garrafa de café e coloco um pouco na xícara.
Dou um gole no líquido forte e fecho os olhos sentindo meu dia ser renovado.
__É justamente isso que eu estava a fazer madrinha.
__So tome cuidado.__ balanço a cabeça__ agora descasque as batatas e as cenouras.
__Sim senhora! __ dou um último gole no meu café fumegante e lavo minhas mãos.
Sento na grande mesa com um pano de flores e primeiro pego a vasilha de batata, enquanto descasco as batatas e ela pica quatro cebolas, e dois descasco as cenouras e em seguida pico tudo.
Quando dá dez para meio dia madrinha termina o almoço, ele sempre faz comida a mais, geralmente todas as pessoas que trabalham na casa almoçam aqui.
Minha madrinha fez um cozido de carne de boi com batatas e cenouras, arroz branco e feijão com bacon.
Depois de comer igual gente grande, espero todo mundo termina de comer e lavo as louças e passo pano na cozinha.
O sol quente só me faz pensar no ribeirão que passa bem atrás da fazenda, mas eu tenho medo de ir lá sozinha, fico com medo de encontrar uma cobra.
Sempre quando entro na água eu olho todos os cantos, mas quando tô sozinha não fico mais que cinco minutos.
É o Jairo que vai comigo mas desde daquela conversa que tivemos há três dias ele não voltou a falar comigo.
Sentada na varanda vejo que um leve garoa fina começa a cair fazendo a grama ficar úmida, o cheirinho de terra quando a chuva molha é muito bom, eu amo o cheirinho de poeira que sobe no ar.
Todos trabalhadores já se recolheram, a essa altura muitos já devem está dormindo, o povo daqui dorme cedo e acorda cedo.
Hoje mais cedo a casa tava numa euforia danada, acho que o fio do Santiago vai vim finalmente visitar o pai.
Eu não me lembro de ter conhecido o filho do Tenório, talvez eu até tenha conhecido mas pela a pouca idade não me lembro dele.
Vejo Jairo correndo em meio a garoa fina, enquanto segura o chapéu e um porte na mão.
Ele chega na varanda e sua blusa marrom tem leves respingos de chuva, ele me olha e sorri.
__Noite sol. __ diz sorrindo__ minha mãe mandou eu vim cá trazer esse doce de mamão pro cê.
__Noite Jairo, sua mãe adivinhou que hoje eu estaria sedenta pra um docinho. __ minha boca chega a salivar.
Ele abana o chapéu e me estende o doce e só pelo o vidro vejo que já deve tá delicioso.
__Sol... __ começa cauteloso.
Olho para ela e o vejo amassar o chapéu na mão.
__Me desculpa por aquele dia, eu não quero perde sua amizade.
__Uai, se océ fica com essa bobagem vai perde mesmo, mas se entender que nós é só amigo aí vou ser sua amiga até fica velha gagá!
Um sorriso se abre no rosto dele.
__Obrigado por me entender sol, prometo que não tocarei mais nesse assunto.
__Assim eu espero. __ logo jairo se despede e vai embora com medo da chuva engrossar.
Entro para dentro de casa e vou até a cozinha pegar uma colher para experimentar o doce mas me assusto ao ver o Tenório olhando para a janela da cozinha pedido em pensamento.
__Uai, madrinha te expulsou do quarto? __ pergunto para lhe chamar a atenção.
__Nunca. Só vim beber um cafezinho.
Pego a colher e uma xícara e taco duas colher de doce bem cheia e me sento na mesa.
Posso dizer que esse homem que está na minha frente foi meu pai pórtico por isso tenho tanto respeito e carinho por ele.
__Aqui, te fazer uma pergunta. É verdade que seu fi perdido vai vim te visitar?
Ele tenta de manter sério e indiferente mas logo Tenório abre um sorriso maior que a cara.
__Vai, depois de tantos anos ele finalmente vai vim ver o caco de pai dele.
__Que caco que nada Tenório, já ouvir dizer que cê dá um caldão ainda.
Ele sorri e abana a cabeça.
__Deixa sua madrinha escuta isso mocinha. E você o que faz acordada até essa hora?
__Tava na varanda quando Jairo veio trazer esse pote de doce para mim. Quer uma colher? __ digo e lhe mostro o doce.
__Nao quero, já passei da idade de comer doces a noite. Só tome cuidado, você sabe como a língua do povo é comprida por aqui.
__Somos apenas amigos Tenório.__ digo levando uma colher de doce na boca, e nossa senhora dá uma vontade danada de comer esse trem é tudo.
__Quando conheci sua madrinha ela também era minha amiga.
__Cada qual é um caso.
__So tome cuidado. __ diz e vira as costa.
Termino de comer meu doce e vou para meu quarto também.
Eu tenho uma casa, na verdade, era a antiga casa da madrinha mas ela me deu para mim e está em reformas então por isso eu fico aqui na casa grande, mas gosto de ficar em um quarto que tem aqui em baixo, pois prefiro evitar sons indesejados. Digamos que minha tia e o Tenório são bem fogosos.
Vou até meu quarto e me deito na cama esperando o sono vim, mas algo me perturba. Essa ideia de todos mandar eu tomar cuidado com o Jairo, será que eles tem medo que eu me envolva com ele e acabe cheia, ou é outra coisa.
Por que se for sobre sexo eles podem ficar tranquilos, continuo tão virgem com quando eu nasci, uns amasso e uns beijos não contam. Contam?
Quando eu me entregar a um homi eu quero que seja especial e que eu guarde pata sempre na minha lembrança, não quero uma coisa passageira.
Se fosse para ser uma vez só, ou algo insignificante eu teria abrido as pernas para qualquer um.
Em cidade pequena geralmente não tem muita opção de arruma um namorado, ou é alguém que cê conhece a vida toda ou um forasteiro que vem de longe.
Não que eu esteja pensando em namoro, não, mas e que as vezes eu queria ter uma companhia para ir comigo tomar sorvete na praça, nadar lá no rio, andar a cavalo, mas também não quero ninguém no meu pé e me dizendo o que eu tenho e o que eu não tenho de fazer.
Em meio aos pensamentos acabo adomecendo.
