Onde Começa o Inferno
A limusine preta estacionou suavemente diante de um edifício imponente no coração de Manhattan. Seus vidros escurecidos refletiam a luz das lâmpadas douradas da entrada como um espelho negro. Amy não fazia ideia de onde estava — apenas que aquilo não era o céu, tampouco um refúgio. Era a boca do inferno.
O segurança, calado e impassível, abriu a porta para ela e indicou com um gesto que o seguisse. Amy desceu com dificuldade, a barra do vestido colando nas pernas por causa da leve garoa da noite. Os saltos emprestados pela mulher do cassino ainda a incomodavam, mas ela não reclamou. O elevador de serviço era apertado e cheirava a cigarro velho e desinfetante. O homem ao seu lado permaneceu em silêncio até o momento em que as portas se abriram diretamente para a cobertura.
Ali, diante de uma porta dupla de madeira escura, com entalhes dourados, ele apertou a campainha.
A porta se abriu com um leve rangido. Uma senhora de cabelos grisalhos, presos num coque impecável, olhou para Amy com surpresa, quase assustada. Seus olhos varreram o vestido colado ao corpo da jovem e voltaram ao rosto dela, hesitantes.
— O chefe mandou ela esperar aqui — disse o segurança com voz áspera.
A mulher assentiu devagar e abriu mais a porta.
— Entre.
Amy passou pela soleira sem olhar para trás, mas ainda podia sentir o peso do olhar do segurança sobre suas costas. Quando a porta começou a se fechar, ele a deteve por um instante. Seu rosto endurecido suavizou-se por uma fração de segundo.
— Moça... é melhor obedecer tudo que o chefe mandar. Se você sair um pouquinho da linha... ele vai saber. E você vai desejar estar morta.
Amy quis responder, mas as palavras morreram em sua garganta. O homem não esperou por sua reação. Com um meneio de cabeça, virou-se e sumiu pelo elevador. A porta se fechou com um baque surdo.
A governanta, ainda observando a jovem como se estivesse diante de algo sagrado — ou perdido — suspirou.
— Ele não disse que traria uma... — Ela parou antes de completar, talvez por compaixão. — Sente-se, menina. Quer um chá?
Amy balançou a cabeça. Seus olhos verdes estavam fixos na grande sala à sua frente. Cada centímetro exalava luxo: lustres de cristal, sofás brancos impecáveis, obras de arte abstrata nas paredes. Era o tipo de ambiente em que sua presença destoava por completo.
Ela caminhou até o centro da sala e, com o mesmo movimento calmo e obediente de quando ainda vivia no convento, ajoelhou-se. As mãos repousaram sobre as coxas, a postura ereta, o olhar no chão. O tapete era macio sob seus joelhos, mas não trazia conforto algum. Parecia uma prisão acolchoada.
A governanta a observou por mais alguns segundos. A garota parecia tão nova, tão frágil, mas havia algo em sua postura — não submissão, mas resignação. Como alguém que aceitava o próprio destino, por mais cruel que ele fosse.
— Boa sorte, menina — murmurou, antes de se retirar para os seus afazeres.
Amy ficou sozinha.
O silêncio era sufocante. E, por mais que tudo ali brilhasse, a escuridão parecia crescer ao seu redor, invisível e presente. Ela pensou na Bíblia e no terço — seus únicos companheiros — deixados no chão daquele antro de pecado. Sentiu um aperto no peito, mas engoliu seco. Não choraria. Não diante dele. Não neste lugar.
Respirou fundo e repetiu, como tantas vezes no convento:
— Senhor, dai-me força.
Mas nem mesmo Deus parecia morar naquele lugar.
Sua mente voltou à infância. Sua mãe, Teresa, era a mulher mais forte que já conhecera. Bonita demais para a própria sorte, com olhos doces e um sorriso que resistia à miséria. Amy se lembrava dela dançando com os pés descalços na cozinha apertada do pequeno apartamento, cantando canções antigas enquanto mexia o arroz no fogão.
— Filha, se o mundo lhe der limões... — dizia ela com os olhos brilhando — faça uma limonada bem azeda e jogue na cara de quem te feriu.
Mas o mundo não havia lhe dado limões. Tinha lhe dado ferro em brasa, fogo, pecado. E agora, um demônio chamado Oliver Santiago.
Amy foi fruto da violência.
Teresa trabalhava como faxineira no banco de Paulo Carson quando ele a violentou no escritório. Depois, a acusou de sedução para se livrar de qualquer culpa. Teresa não o denunciou. Tinha medo. Meses depois, soube que estava grávida.
Ela queria criar Amy longe de tudo isso. Lutou como pôde. Nunca pediu ajuda a Paulo — e ele, por sua vez, nunca ofereceu. Só registrou Amy no cartório quando Teresa ameaçou a reputação dele publicamente. Ainda assim, não deu um centavo sequer para criar a filha bastarda.
Mesmo assim, Amy teve uma infância de amor. Pobre, sim. Difícil, também. Mas repleta de carinho. Até o dia do acidente.
Amy tinha dez anos quando sua mãe foi atropelada por um motorista bêbado. O impacto foi brutal. Teresa entrou em coma e nunca mais acordou.
Desesperada, Amy procurou o pai. Lembrou-se do nome dele em letras douradas no letreiro do banco no centro de Nova York. Foi até lá, com uma boneca no braço e lágrimas nos olhos. Ele a reconheceu imediatamente. Horrorizado.
Arrastou-a até seu escritório e, sem dó, desferiu um tapa tão forte que ela caiu no chão.
— Como uma bastarda ousa aparecer em público? — cuspiu, os olhos cheios de ódio.
Amy não reagiu. Chorando, implorou por ajuda.
Ele pensou por um tempo. Disse que a ajudaria, mas só se ela desaparecesse. Mandaria dinheiro para o tratamento da mãe, mas ela teria que viver em um colégio de freiras, longe dali.
Amy aceitou sem hesitar. E assim foi enviada a um convento afastado. Nos primeiros meses chorava todas as noites. Mas as notícias semanais sobre a mãe — que ainda respirava, que ainda lutava — a mantinham firme. Cresceu acreditando que o silêncio era força. Que o mundo lá fora era perigoso. Que o pai havia a esquecido para sempre.
Até que,alguns dias atrás, Paulo e Miriam apareceram no convento. Amy pensou que era o fim. Que sua mãe havia morrido. Mas a verdade era ainda mais cruel.
Paulo, frio como sempre, disse:
— Seu irmão está em apuros. Só você pode salvá-lo.
Amy não entendeu. Até que ouviu o nome de Oliver Santiago.
— Um ano — ele disse. — Você vai morar com ele, obedecer a tudo. Depois estará livre. Se recusar, sua mãe deixa de receber o tratamento. E morre na rua como uma indigente.
Amy tentou resistir. Faltavam poucas semanas para os votos. Mas não podia condenar a mãe. Aceitou.
E agora, ali estava ela. De joelhos no meio de um palácio de ouro e pecado, esperando um demônio que a queria como troféu, como castigo.
Mas ela não choraria.
Ela resistiria.
Porque, no fundo, acreditava que o amor de sua mãe ainda a protegia — mesmo que Deus tivesse virado o rosto.
O relógio na parede marcava 23h15.
Amy não sabia quanto tempo já tinha passado. Mas continuava ali, firme. Seus joelhos doíam. Os pés ardiam. O estômago estava vazio. Mas ela permanecia.
Na cobertura, o tempo não passava como no mundo real. Era como se o relógio risse dela. Como se o próprio tempo estivesse preso na teia de Oliver Santiago.
Ela ergueu os olhos para a porta fechada do corredor. Sentia, com todas as células do corpo, que ele chegaria logo. O ar parecia mais denso, como se a presença dele o contaminasse.
Então, sem aviso, as luzes do corredor se acenderam. Passos firmes ecoaram.
Ele vinha.
Amy apertou os olhos e murmurou baixinho:
— Seja forte. Seja forte.
Mas quando Oliver Santiago surgiu na sala, alto, impecável, os olhos azuis tão frios quanto a morte, Amy soube que sua fé seria testada até os ossos.
E ali, de joelhos, ela entendeu:
O inferno não era um lugar. Era um homem.
E ele tinha olhos de gelo.
