O Início do Sacrifício
Amy sentiu o corpo estremecer. Era como se o ar à sua volta se tornasse denso, opressor, quase impossível de respirar. O olhar de Oliver Santiago sobre ela era tão invasivo que parecia despila, camada por camada, até que nada restasse de sua dignidade. Seus olhos azuis, frios como lâminas mergulhadas no gelo, cravavam-se nela como punhais, vasculhando cada traço seu, cada falha, cada fragilidade.
A gargalhada dele ecoou pelo salão como uma sentença. Longa, debochada, cruel.
— Que piada mal feita — murmurou, balançando a cabeça com um meio sorriso sardônico. — Os Carson realmente acham que podem me comover com isso?
E como se sua risada tivesse sido a senha, todo o salão explodiu em uma sequência de gargalhadas. Homens rindo alto, mulheres se contorcendo no colo deles, brindes sendo erguidos, vozes zombeteiras cuspindo piadas ofensivas como punhais no peito de Amy. Ela não olhou para ninguém. Não queria ver os rostos dos que a ridicularizavam. Se olhasse, talvez não conseguisse manter a compostura.
Mas quando Oliver voltou a encará-los, o salão inteiro silenciou de imediato. Bastou um olhar. Um único olhar.
Um olhar que dizia: “Riam mais uma vez... e eu faço esse lugar virar um funeral.”
Era isso que Oliver Santiago provocava nas pessoas: medo absoluto. Um silêncio constrangido se instalou como um peso sobre os presentes. Amy engoliu em seco. Sentia-se um cordeiro cercado por lobos, e à frente dela estava o pior de todos.
Oliver deu alguns passos em sua direção. Parou a poucos metros, cruzou os braços e a observou com mais atenção. Aquela garota parada diante dele, com o lenço cobrindo os cabelos dourados e os olhos baixos, parecia deslocada naquele inferno de luxúria e poder. Disseram-lhe que ela tinha vinte e dois anos, mas Oliver juraria que não passava de dezoito. A pele clara, o rosto delicado, os cílios longos que tremiam levemente... Ela parecia uma pintura antiga, como uma santa de vitral, frágil demais para a sujeira do mundo real.
E então, ele viu o rosto de Adriana.
A lembrança veio como uma lâmina. A imagem da irmã sorrindo, os olhos vivos, a voz doce chamando por ele, brincando com os cabelos escuros enquanto dizia que ele era seu herói. Mas agora... agora ela estava em silêncio. Em uma cama de hospital, os olhos vazios, as mãos frias. Um fantasma do que já fora.
Tudo por causa de Tiago Carson.
E lá estava ela. A irmã bastarda. A oferenda miserável que os Carson tentavam enfiar pela garganta de Oliver, como se isso fosse suficiente para apagar o que fizeram.
Oliver soltou outra risada, desta vez sem humor.
— Vocês realmente acham... — murmurou para si mesmo — ...que eu vou me compadecer só porque ela veio fantasiada de santa?
Amy não entendeu as palavras, mas o tom era o suficiente para arrepiar sua pele.
Oliver a encarou com desprezo puro e cristalino. Sua voz, quando falou, foi um chicote.
— Livre-se dessas roupas ridículas.
Amy engoliu em seco. Os dedos se apertaram ao redor da alça da mala que segurava. Ela hesitou. Não sabia o que dizer, nem como dizer. A verdade era simples e humilhante: ela não tinha outras roupas. Tudo o que possuía estava ali. Tudo que vestia era o que tinha.
E a roupa de noviça não era só um uniforme. Era seu escudo, seu lar, sua escolha. Era tudo o que ainda a conectava a um mundo onde ainda existia fé, propósito, salvação.
— Eu... — começou ela, a voz falhando. — Eu não tenho outras roupas, senhor.
Oliver arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
Amy apertou os olhos, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair. Respirou fundo, engoliu o choro.
— Eu não tenho outras roupas — repetiu, com mais firmeza, embora a voz ainda tremesse.
Ela evitava olhar para ele. Manteve os olhos no chão, no carpete luxuoso que seus pés mal ousavam pisar. Em sua mente, um mantra desesperado se repetia: não chore, não chore, não dê a eles essa satisfação.
Oliver a observou por alguns segundos. Depois, seu olhar caiu sobre a mala velha em sua mão. Caminhou até ela, arrancando o pequeno objeto com brusquidão. O zíper rangeu quando ele o abriu, e sem qualquer cerimônia, virou o conteúdo sobre o chão diante dela.
Três itens caíram com um som seco: uma Bíblia encapada em couro, um terço de madeira escura e duas trocas de roupa igualmente modestas.
Oliver olhou para aquilo e soltou um riso irônico, mais de raiva do que de humor.
— Os Carson são realmente brilhantes — murmurou, sarcástico. — Querem me fazer de idiota até o fim.
Amy, ao ver seus objetos mais preciosos no chão, ajoelhou-se de imediato. Estendeu as mãos para pegar o terço e a Bíblia, mas a voz de Oliver cortou o ar como um trovão:
— Quem mandou você pegar?
Amy congelou.
— Seu pai não te avisou? — a voz dele agora era grave, ameaçadora. — Você é minha agora. Durante um ano inteiro. Para eu fazer o que quiser. Você só anda se eu mandar. Só respira com a minha autorização.
Ela tremia.
— Agora... — ele deu um passo à frente, os olhos cravados nela — ...tire a porra desse vestido.
Amy arregalou os olhos. O pânico atravessou seu corpo como uma corrente elétrica. Ela olhou ao redor. Os presentes haviam parado novamente para assistir. O salão estava mergulhado em silêncio. Nenhum dos homens ousava rir. Nenhuma mulher sorria. Todos estavam presos à cena, como espectadores famintos por uma tragédia anunciada.
Amy se levantou lentamente, a respiração acelerada. Os olhos marejados, mas ainda sem deixar cair uma lágrima. Não. Ela não choraria. Não diante deles.
Deus, me salve.
Mas Deus parecia ausente.
Ali, quem dominava era o El Diabo.
Ela levou as mãos ao pescoço, trêmulas, hesitantes. Mas o corpo não obedecia. O medo paralisava. A vergonha queimava. O desespero a sufocava.
— Eu... — tentou falar, mas a voz morreu.
Oliver apenas a encarava. A expressão não era de desejo. Era algo mais cruel. Era como se ele esperasse ver até onde ela iria, até onde quebraria. Ele não queria o corpo dela. Ele queria a alma. Queria destruí-la como Tiago havia destruído Adriana. Queria vingança. E Amy... Amy era o preço.
Lágrimas quentes escorriam por seu rosto, finalmente vencendo sua resistência. Mas ela não caiu de joelhos. Ainda não.
Oliver aproximou-se mais. Ela podia sentir seu perfume — amadeirado, sofisticado, perigoso. Podia ver a linha forte do maxilar dele, os olhos que não piscavam. Ele parecia feito de pedra. Como se fosse incapaz de compaixão.
— Está esperando o quê? — ele murmurou, encostando um dedo em seu queixo e erguendo seu rosto. — Um milagre?
Amy fechou os olhos.
E naquele momento, pela primeira vez desde que entrara naquele cassino, ela soube que havia cruzado uma linha sem volta. Nada da vida que teve antes existia mais. Nada do que acreditava, do que rezava, do que esperava... poderia protegê-la agora.
Ali, diante do El Diabo, ela era só uma oferenda.
E o sacrifício estava apenas começando.
