Capítulo 4
Xavier Narrando:
Saí da sala de desenrolo com o DVD na mão, ainda ouvindo os estalos lá de dentro. Era Laila. Destroçando o que sobrou do porco. Os ossos se partindo sob as mandíbulas daquela filha da puta eram quase musicais pra mim. Ele tinha gritado, tentado fugir, feito promessas que ninguém ali se importava em ouvir. E no fim... bem, ninguém foge de Laila. Ninguém foge de mim.
Atrás de mim, ouvi os passos pesados de Bruno (vulgo Br) e Felipe (vulgo Lipe). Eles vinham calados, com aquele respeito que só nasce do medo. Mas mesmo o silêncio deles me irritava. Me virei, segurando o DVD como se fosse uma arma.
– Quero ficar sozinho, porra.
Br assentiu com a cabeça, puxou Lipe pelo braço, e os dois pararam de andar. Me deixaram passar. Eu sabia que eles queriam perguntar o que tinha naquele disco. Talvez até me oferecer conforto. Mas conforto não existe depois que a cabeça da tua filha chega numa caixa de papelão.
Montei na Medusa, minha moto preta, cromada, com os canos cuspindo fogo e o guidão alto como os chifres do diabo. Dei partida e deixei o morro pra trás, o som do motor rugindo como se fosse minha própria alma querendo fugir do corpo. Desci os becos e vielas dos Dois Irmãos como um raio. Um fantasma de ódio.
A casa... a casa onde a Maria Marta e minha Serena deviam estar me esperando, agora era só parede fria e silêncio. Entrei sem acender a luz. Deixei a porta aberta. Foda-se. Quem quisesse me encontrar, que viesse. Quem quisesse me matar, que tentasse.
Foi ali, no escuro da sala, que a imagem daquela caixa invadiu minha mente de novo. A caixa de papelão, simples, surrada, com fita adesiva em volta. E dentro... a cabecinha da minha filha. Os olhos ainda abertos. O cabelinho manchado de sangue. Aquela era minha Serena. Minha princesa. Meu pedaço de céu. Cortado, separado de mim pra sempre.
Fechei os olhos. Respirei fundo. E por um momento, só um momento, eu vi ela correndo pela casa. Com aquele vestido rosa que ela amava. A boneca da Barbie na mão. A risada clara.
– Papai! Você chegou!
Ela veio até mim. Eu me abaixei, os braços prontos pra recebê-la.
Mas não tinha nada. Só ar. Só o vazio. Era ilusão. Era o inferno me lembrando do que eu perdi.
Serena tinha morrido.
E esse... esse era o verdadeiro filme de terror.
Subi pro quarto dela. Abri a porta devagar. O cheiro de morango ainda pairava no ar. O quarto era rosa, cheio de adesivos de princesas nas paredes. As almofadas com glitter. A cama feita. Tudo do jeitinho que ela gostava.
Me ajoelhei na frente da TV. Ela gostava de jogar ali, no PlayStation 5 que eu dei no último aniversário. Joguinhos da Barbie, da Frozen. Tudo colorido, inocente. Tudo destruído.
Peguei o DVD. Não sabia o que vinha. Mas o desgraçado que mandei pra Laila disse que ali estava a verdade. A resposta. Talvez a condenação.
Coloquei o disco no videogame. Liguei a TV. A tela azul apareceu. Depois o barulho do disco rodando. Coração na boca.
Play.
Demorou. Uns segundos que pareciam séculos. E então a imagem surgiu.
Foi como uma faca no peito.
Maria Marta.
Minha mulher. Minha companheira. A mulher por quem eu matei e morri. Ali, na tela, rindo. Rindo como uma vadia de beira de estrada.
E com ela... o Barão.
O filho da puta. Meu inimigo. O chefe do morro do Pazé. O verme que passou a vida tentando me derrubar.
Ele a beijava no pescoço. Passava a mão pelas coxas dela. Pegava nos peitos como se fosse dono. E ela... ela sorria. Gemia. Rebolava no colo dele como uma qualquer.
– Ai, Barão... o Perigo nem sonha. Aquele corno manso.
Ela disse isso rindo. Rindo pra câmera. Como se fosse um troféu. Como se fosse uma piada suja.
Ela gemia. Ria. Se contorcia. Não havia medo. Não havia dor.
Havia prazer.
E aí ela olhou direto pra lente da câmera.
E falou.
– Filma bem, que eu quero que o corno veja tudinho. O manso. O idiota do Perigo.
A voz dela. A voz que antes era mel. Agora era ácido.
Minha mão tremeu.
Mas eu não parei.
Eu precisava saber.
Eu congelei. A raiva me cegando. A dor me quebrando. Mas o pior ainda estava por vir.
A câmera tremeu.
E então, alguém entrou na sala.
Era outro homem. Mas ele não ria. Ele vinha arrastando algo.
Minha filha.
Minha Serena.
Pelos cabelos.
Ela chorava. Gritava.
– Mamãe! Mamãe, me ajuda!
Maria Marta se virou. Olhou pra ela. E cuspiu:
– Cala essa boca! Nunca te amei! Você é igual aquele merda do seu pai. Uma chata! Uma inútil!
Serena soluçava. Confusa. Com dor. E mesmo assim... chamava por mim.
– Papai! Socorro! Papai!
Minha visão ficou turva. Eu gritei. Gritei como um animal.
Mas a tela não parou. O vídeo seguiu.
O homem começou a bater nela. A chutar. A puxar com força. A humilhar.
Maria Marta assistia. Bebia. Ria.
Depois... eles começaram a torturar minha filha. A tocar nela. A violar. A destruir. Não posso nem escrever o que fizeram. Era monstruoso. Desumano.
Serena gritava por mim. Chamava. Implorava.
– Papai! Papai! Por favor! Papai, vem me buscar…
Mas eu não tava lá. Eu falhei.
Eu falhei.
Até que ela parou. A voz já não saia. Os olhos abertos. Mortos.
A tela escureceu.
Fiquei ali. De joelhos. A respiração pesada. O rosto molhado de lágrimas. O taco da Judite largado no chão ao meu lado.
Minha filha tinha sido assassinada.
Minha mulher era cúmplice.
E meu inimigo…
Meu inimigo tinha tocado no que eu mais amava.
Não dava mais pra segurar.
Joguei o controle longe. Ele bateu na parede e se espatifou. Me levantei num pulo e derrubei a estante de bonecas. As prateleiras caíram com estrondo. As Barbies se espalharam pelo chão, algumas com as perninhas quebradas, os olhos pintados me encarando como se julgassem minha fraqueza. Como se dissessem:
– Você devia ter protegido ela.
– CALA A BOCA! , eu gritei, pro nada, pra mim mesmo, pra casa inteira. Meus punhos cerrados, os olhos ardendo, o peito explodindo de um calor que não era dor nem raiva — era o fim de tudo. Era a alma se desmontando.
