Capítulo 7
P.O.V BBoy
Estava dormindo de boas, sonhando com várias vadias dando pra mim, até que alguém atrapalha meu sonho, colocando uma mão no meu ombro, já saquei minha arma, pronto pra atirar quando vejo Júlia assustada.
-PUTA QUE TE PARIU JÚLIA! QUER ME MATAR DE SUSTO?! EU PODERIA TER TE MATADO SABIA?! -Gritei abaixando a arma.
-Dá pra parar de gritar e falar como uma pessoa civilizada uma vez na sua vida? -Que marrenta! Bufei e sentei na cama.
-Tá, foi mal! É que você me deu um susto, não se faz isso. -Falei e ela assentiu.
-Então, o que deseja com a minha pessoa? -Perguntou ela e a olhei de baixo a cima, que short é esse? Aliás, isso É um short?
-Cadê o resto do seu short? -Perguntei e olhei atrás dela. -Deixou cair no caminho? -Pergunte irritado, porra, aquilo era muito pequeno.
-Para de ser chato, é um short normal. -Falou ela e eu neguei com a cabeça.
-Não, isso é um pedaço de pano. -Falei e ela revirou os olhos, mas é a mais pura verdade.
-Fala logo o que você quer antes que eu vá embora. -Falou ela irritadinha.
-Quero que pare de cu doce, porque sexta e domingo você falou pra mim te esquecer. -Falei meio irritado lembrando de ontem.
-Primeiro que "mim" não conjuga verbo, então o certo é "você falou para eu te esquecer". -Ela falou arrumando os cabelos e revirei os olhos. -Você mentiu pra mim, falou que não ia fazer nada, você faz o Biel mentir pra mim e descobrir quem me machucou, depois fez aquela ceninha fazendo o Faísca me barrar na saída e agora teus robôs acham que eu sou a tua mina, não é cu doce, eu não sou acostumada com isso, a gente nem se conhece direito. -Falou ela o que me causou um sorriso convencido.
-Todos me obedecem, é isso que você tem que entender, todos nesse morro e em outros lugares me obedecem e fazem o que eu mando, por que você tem que ser diferente? -Perguntei e ela revirou os olhos, que mina mimada.
-Porque não nasci pra depender dos outros, não nasci pra obedecer os outros, ainda mais um homem bruto igual você, nasci pra viver a minha vida e as minhas ordens. -Falei.
-Tá, você é marrenta, já sei disso, mas sobre mentir pra você, não menti. Nem quebrei promessa nenhuma, eu não matei o Babo, foi o Faísca, e não mandei o Cato mentir pra você, mandei ele descobrir quem te machucou, ele mentiu porque quis. -Falei e ela revirou os olhos, ela faz isso o tempo todo, dá uma raiva.
-Mas você sabe que eles te obedecem então você tem culpa sim por mandar. -Falou ela e dei de ombros sem ligar muito.
-Mas a bala não saiu da minha arma, e nem fui eu que apertei o gatilho.
-MAS VOCÊ MANDOU ELES MATAREM UMA PESSOA INOCENTE! -Gritou impaciente.
-ELE TE MACHUCOU! APARTIR DO MOMENTO QUE ELE ENCOSTOU EM VOCÊ E DEIXOU A MARCA DA MÃO DELE NO TEU BRAÇO ELE NÃO É MAIS INOCENTE! E NÃO É A PRIMEIRA FEZ QUE ELE FAZ MERDA! ELE JÁ MATOU, JÁ ROUBOU, JÁ ESTUPROU! -Fiquei nervoso e ela ficou quieta.
-E você? Já fez essas coisas? -Perguntou ela e fiquei quieto. -JÁ FEZ? -Gritou irritada, já falei que odeio que gritem comigo?
-JÁ! -Grito sem pensar e vi a merda que fiz.
-Então você é tão inocente quanto ele. -Júlia falou me dando as costas, também odeio quando fazem isso.
-ONDE VOCÊ PENSA QUE VAI? NÃO TERMINEI DE FALAR COM VOCÊ! -Gritei colocando uma calça qualquer.
-MAS EU SIM! JÁ VI QUE VOCÊ É O PIOR DE TODOS! -Ela gritou e desceu as escadas correndo.
-NÃO SOU NÃO! VOCÊ NÃO SABE DE NADA! ENTÃO CALA A BOCA E VOLTA AQUI! -Gritei indo atrás dela que desceu as escadas correndo e já estava no portão descendo o morro.
-VOCÊ É SIM O PIOR DE TODOS! ACABOU DE ADMITR ISSO! -Gritou ela, e já tô ficando puto, todos começam nos olhar, mas nem ligo.
-NÃO SOU! -Gritei chegando perto dela, tô loco pra pegar a minha linda arma e meter pipoco nessa carinha de anjo dela.
-É SIM! E APOSTO QUE FUMA, BEBE, SE DROGA, TRANSA COM TODAS E DEPOIS DESCARTA ELAS COMO SE FOSSEM OBJETOS! -Gritou se virando pra mim, algumas lágrimas caem de seus olhos, explodo de vez.
-ELAS SÃO MULHERES! É PRA ISSO QUE SERVEM! -Gritei irritado mas no segundo seguinte tive um choque de realidade e vi o que acabei de falar e me arrependi amargamente. Não penso realmente assim, mas sei que isso vai deixar Júlia pocessa.
-TÁ VENDO COMO QUE VOCÊ É O PIOR DE TODOS?! TÁ VENDO?! VOCÊ É REPUGNANTE! É UM LIXO! -Ela gritou e tudo que passava pela minha mente era cenas em que eu estrangulava ela, ou arrancava a pele dela fora ou simplesmente atirava entre seus olhos, mas me segurei. -Eu não te quero mais perto de mim, nunca mais quero ver a sua cara de novo, nunca mais quero que me toque de novo, esquece que eu existo, porque a partir de agora, você não existe mais pra mim. -Falou ela cheia do ódio, Okay, essa doeu. Ela deu de costas e eu segurei o braço dela, completamente arrependido. -NÃO ME TOCA! -Ela gritou se soltando de mim, parabéns Guilherme, você é o maior idiota do universo!
-Júlia, desculpa, eu não queria te xingar, eu só... -Tentei me desculpar, mas ela me interrompeu.
-Pare de falar comigo, eu não te conheço. -Ela falou me machucando, ela começou a descer o morro, mas não ia deixar ela sair, nem fodendo.
-PEZINHO NÃO LIBERA! -Gritei e Pezinho virou e barrou ela.
-SAI DA MINHA FRENTE AGORA! -Ela gritou empurrando Pezinho longe que se desequilibrou e caiu no chão enquanto ela ia em direção ao beco.
-VOCÊ NÃO PODE FUGIR DE MIM, ME ESCUTA PORQUE AGORA EU VOU FALAR! -Gritei indo em direção a ela, que nem se virou pra me ouvir. -Me olha agora! -Falei irritado. Outra coisa que eu odeio, quando eu to falando e não me dão atenção.
-OU O QUE? VAI ME BATER? -Gritou se aproximando de mim e respirei fundo.
-Ju, vem comigo, Pezinho, libera ai. -Falou Biel se aproximando da gente e abraçando Júlia. Da onde saiu essa intimidade toda??
-BBoy, libero? -Pezinho me olhou e olhei irritado pro casalzinho.
-Lógico que não. -Falei e Cato sacou a pistola, a Júlia logo fechou os olhos.
-Abre a porra da passagem, Pedro! -Ele falou grosso e rude.
-Foi mal. -Pezinho falou e Cato atirou na perna dele, o mesmo grunhiu de dor e a Júlia soltou um grito, ainda chorando.
-Caralho Gabriel! Qual é a sua? -Perguntei.
-QUEL É A SUA?!! OLHA O QUE VOCÊ FEZ COM A JÚLIA! ELA PARECE SORRIDENTE? ELA PARECE A MENINA POR QUEM VOCÊ XONOU? EU ACHO QUE NÃO! Olha o papelão que você tá fazendo ela passar! Xingou ela e todas as mulheres e deixa eu te falar, eu sou seu melhor amigo, cresci com você e sei como foi educado pela sua mãe e posso garantir que se estivesse aqui, essa bala estava em você e não no vapor! -Gabriel estava irado, chega ficou vermelho de raiva e nunca vi ele assim. -Manda liberar essa porra, vou conversar com ela e depois volto. -Falou ele mais calmo.
-Por que tem que sair do morro? Em? -Perguntei, qual a necessidade de sair do morro?
-Sério Guilherme? O que acha que eu vou fazer com ela? -Cato perguntou e Júlia saiu.
-Não sei, me diz você. -Falei irritado.
-Pode acreditar que só vou falar com ela. -Ele respondeu esbanjando calma, o que eu não tenho.
-Só quero entender porque não quer conversar aqui. -Ele não respondeu, já que a Júlia chegou, a favela toda parou pra ver esse showzinho e começamos a observar tudo o que Júlia fazia.
-Dá sua faca. -Ela pediu e ele deu, ela cortou a calça dele, isso é mesmo necessário? -Desculpa. -Falou ela vendo a perna dele.
-Não foi sua culpa, não precisa fazer isso, daqui a pouco passa. -Falou Pezinho e assenti, mesmo sem ela ver.
-Sabe, quando se torna médico, você faz um pacto, de sempre ajudar quem precisa. -Falou Júlia tirando a tampa do álcool. -Além do mais, você levou uma bala por minha causa. -Ela completou e ele riu.
-Realmente não precisa fazer isso. -Ele falou e ela bufou.
-Cala a boca, vou fazer do mesmo jeito. -Falou ela e eu bufei, marrenta que só ela.
-Ele falou que não precisa. -Falei com uma mini gota de ciúmes.
-CALA A BOCA QUE NÃO QUERO PAPO COM VOCÊ! -Ela falou me atingindo, Cato deu uma olhada como se falasse "Bem feito seu otário" só revirei os olhos e fiquei quieto.
-Vai doer? -Pezinho perguntou parecendo uma mulher.
-Não muito, mas fala ai, a quanto tempo trabalha pra esse otário? -Perguntou ela e eu bufei, Ju jogou o álcool e eu senti a dor de ontem.
-Tá doendo! -Ele falou. -Desde sempre, crescemos juntos. -Falou ele e sorri lembrando, a maioria aqui no morro cresceu junto.
-Hm, que chato, mas você tem família? -Perguntou Júlia, vi que ela estava distraindo ele pra ele não sentir dor, como ela fez comigo.
-Sim, tenho uma mulher e dois filhos, que tão assistindo tudo. -Ele falou triste e ela se virou vendo geral.
-Tudo bem? -Perguntou ela sorrindo doce para a família do Pezinho.
-Meu pai vai ficar bem? -Perguntou a menina com lágrimas nos olhos.
-Logico que vai, querem me ajudar? -Perguntou ela e eles olharam pra mãe que sorriu assentindo de leve.
-Queremos. -Falaram e se aproximaram dela.
-Tá, olha, primeiro lavem as mãos com o álcool. -Falei e eles fizeram como ela pediu. -Agora limpem a agulha e o fio com álcool também. -Falou e cada um limpou um, jogou mais álcool pra limpar mais o ferimento, Pezinho grunhiu de novo.
-E agora? -O menino perguntou.
-Agora coloquem o fio dentro da agulha. -Falou ela e assim fizeram e deram ambos. -Muito obrigada. -Falou e eles sorriram, assim como pezinho. -Agora vou suturar. -Falou de novo e começou a costurar e conversar com o Pezinho pra distrair ele, deu certo, os filhos dele ajudaram a distrair ele também. -Agora podem fazer o curativo, um coloca o algodão e o outro coloca o esparadrapo pra segurar o algodão. -Ela completou e a menina colocou o algodão e o menino o esparadrapo.
-Prontinho papai, agora o senhor já tá melhor. -Falou o menininho sorridente.
-Graças a doutora. -Falou a menininha.
-Lógico que não, vocês que fizeram tudo, eu só dei uma forcinha. -Falou ela e muitos sorriram.
-Também quero ser médica, pai, que nem a Dona Júlia. -Falou a menina animada.
-Pode me chamar só de Ju. -Falou ela simpática e ela a abraçou, com o menininho, Júlia abraçou de volta.
-Obrigado por salvar nosso papai. -Falaram e sorriu.
-FAÍSCA! Lava o Pezinho pra casa dele pros filhos cuidarem dele. -Mandei e ele obedeceu, ela começou a guardar o lixo. -Conversa comigo vai. -Pedi e ela bufou.
-Biel, fala pro seu amigo me esquecer porque tenho que ir trabalhar. -Falou cínica me olhando. -Posso passar agora? -Perguntou pros caras e eles me olharam.
-Mano, deixa ela esfriar a cabeça, e faz o mesmo, vocês não vão conseguir nada de cabeça quente. -Falou Cato e era verdade...
-Libera. -Falei e os caras saíram da frente.
-Tchau gente, bom trabalho. -Ela falou indo para o postinho.
-Valeu patroa. -B5 falou e ela nem deu moral, saiu logo pro carro dela, suspirei.
-BBoy, bora subir, 'nois' tem que bater um papo reto. -Falou Cato completamente sério.
-BAILE AMANHÃ GALERA! -Gritei e todos comemoraram, cada um seguiu um rumo, eu subi pra boca com Cato, entramos no meu escritório e me sentei na minha cadeira, ele ficou em pé.
-O que você tem na sua cabeça? -Perguntou ele com um pouco de raiva. -Você primeiro xinga ela, depois... -Interromperam ele.
-Pode deixar que eu falo com ele. -Ouvi uma voz que não ouvia a um ano, sentia saudade, mas não nesse momento.
-Okay, aproveita e dá uma surra nesse vacilão pra ele parar de ser otário. -Falou Cato e saiu, ela logo se sentou na minha frente e ficou me encarando friamente.
-Oi Mãe. -Falei já prevendo o maior sermão de todos.
Xinguei as mulheres, xinguei uma menina de família, matei um amigo meu, soquei outro, crianças viram isso, fiz meu irmão(Cato) ficar com raiva de mim... Agora que eu morro.
