3.Amor e fúria
Um mês havia se passado desde que Lyssaria chegara a Kérite. A mansão agora lhe parecia um lar, o riso das garotas nos corredores, o perfume das flores do jardim, as músicas suaves que vinham dos salões. Pela primeira vez, ela se sentia parte de algo maior do que o próprio medo.
Naquela noite, o ambiente estava perfumado por morangos e velas aromáticas. A área interna da mansão abrigava uma jacuzzi para oito pessoas, cercada por colunas de pedra clara e cortinas translúcidas que deixavam entrar o brilho da lua. Lyssaria, Helka e Theodra relaxavam ali, imersas na água morna, as taças de licor de morango em mãos.
Theodra, com seu poder de sereia, criava pequenas ondas que sustentavam Lyssaria de forma delicada, impedindo que ela se afundasse. A água parecia viva, acolhendo o corpo dela com cuidado.
— Esse café da manhã foi estranho... — comentou Lyssaria, girando devagar a taça.
Theodra deu uma risada leve.
— Se você diz isso pela discussão entre a Zafira e a Nova, não leve tão a sério. Essas irmãs sempre foram como cão e gato. Vivem implicando uma com a outra.
Helka revirou os olhos, recostando-se na borda da jacuzzi.
— Nem me fale... Elas vivem competindo uma com a outra. Desde que você chegou, pioraram. Tome cuidado para não tomar partido de nenhuma, ou vai acabar arranjando confusão.
Lyssaria deu um sorriso calmo.
— Eu sou filha única, mas sempre quis uma irmã para dividir as coisas. Não entendo como elas podem se estranhar tanto.
— A Zafira tem o temperamento forte e às vezes briga com a Miranda também. — disse Theodra. — Acho que não é culpa dela, mas de todas nós. Às vezes nos estranhamos. É comum entre pessoas que convivem por muito tempo.
Helka tomou um gole do licor, o olhar malicioso voltando-se para as duas.
— Mas por que estamos falando das outras, quando deveríamos estar falando sobre nós, nessa noite maravilhosa? — disse, sorrindo, e estendeu a mão para tocar o rosto de Theodra.
A sereia parou de rir, os olhos azuis encontrando os dela. O toque de Helka era quente, decidido. Por um instante, o ar pareceu parar. Então, Helka a puxou suavemente e a beijou. O som das águas se misturou ao breve suspiro que escapou da sereia, correspondendo ao beijo com intensidade.
Lyssaria observava, o coração acelerado, sem saber se desviava o olhar ou se deixava levar pela cena. Quando as duas se afastaram, Helka virou-se para ela, aproximando-se devagar, com um sorriso cheio de intenção.
— Você vai ficar só olhando ou vai participar? — perguntou, tocando os ombros de Lyssaria.
Antes que ela pudesse responder, Helka a beijou, um beijo suave, mas firme, quente como o próprio sangue da banshee. O tempo pareceu parar de novo.
Quando Helka se afastou, Theodra sorriu, os olhos marejados de desejo.
— Eu também quero provar esses doces lábios.
Helka recuou ligeiramente, e Theodra se inclinou, beijando Lyssaria com um toque terno, diferente, quase reverente. A água ao redor delas se iluminou em reflexos azulados, como se o lago de uma noite estelar houvesse se formado dentro da jacuzzi.
Enquanto isso, em outro canto da mansão, o clima era bem diferente.
No quarto de Miranda, o som de uma porta se abrindo ecoou, seguido por um tilintar suave de joias. A vampira entrou e parou na porta, as sobrancelhas arqueadas.
Zafira estava diante de sua penteadeira, provando um dos colares de rubis.
— O que você pensa que está fazendo? — disse Miranda, irritada, avançando com passos firmes. — Eu já não disse para não mexer nas minhas coisas, sua djinn intrometida?!
Zafira ergueu o olhar, indiferente, e tirou o colar com lentidão.
— Eu só estava olhando. O que tem de mais? — respondeu, jogando o colar de volta no porta-joias com descuido.
— Cuidado! — exclamou Miranda, indo até a penteadeira para pegá-lo. — Esse colar foi um presente do meu pai e custou mais caro do que as suas joias.
Zafira cruzou os braços e soltou um riso debochado.
— Meus diamantes são melhores.
Miranda voltou-se, o olhar faiscando de raiva.
— Esse colar custou mais caro que qualquer diamante que você possa ter comprado. Não entre mais no meu quarto sem permissão.
— Tá bom, princesinha. — respondeu Zafira, sarcástica, antes de se desfazer em uma névoa azul que desapareceu pelo ar.
Miranda olhou o quarto vazio, respirando fundo, tentando conter o impulso de quebrar algo.
— Que ódio! — murmurou entre os dentes, ajeitando o colar no porta-joias com um gesto brusco.
Do lado de fora, o vento noturno soprou pelas janelas abertas da mansão, levando consigo o perfume de morangos e tensão, um prenúncio de que aquela paz recém-construída começava a estremecer.
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A biblioteca da mansão estava mergulhada em penumbra, iluminada apenas pelas chamas dançantes de candelabros dourados. O ar tinha cheiro de pergaminho antigo e magia adormecida. Entre estantes altas, repletas de grimórios e livros de capa grossa, Kaela estava sentada, o corpo curvado sobre uma mesa coberta de manuscritos. Havia uma pilha de tomos abertos à sua frente, páginas marcadas por fitas vermelhas e símbolos desenhados à mão.
Ela suspirou, frustrada, e bateu uma das capas com força.
— Droga! Nenhuma dessas porcarias serve para nada! — exclamou, a voz ecoando entre as prateleiras.
Adriele entrou devagar, o som de seus passos abafado pelo tapete. Ajustou o xale vermelho sobre os ombros, o tecido contrastando com o vestido branco que fluía até o chão.
— Qual o problema, Kaela? — perguntou com a serenidade de quem já esperava uma resposta longa.
Kaela ergueu o olhar, os olhos azuis brilhando de exaustão e teimosia.
— Estou procurando nesses antigos grimórios algum feitiço que possa curar a Lyssaria, mas nada aqui parece ser forte o bastante. — Disse, passando a mão pelos cabelos ruivos, visivelmente tensa. — Eu ainda não entendo como o nosso sangue e nossos poderes de cura não conseguiram curá-la.
Adriele se aproximou, tocando de leve o ombro da fada vampira antes de se inclinar para olhar os livros espalhados.
— Ela é uma banshee, Kaela. O sangue dela é tão raro por aqui quanto o de um metamorfo. Talvez a cura para o problema dela esteja no reino dos Sídhe, mas não podemos ir até lá sem um convite. Esse tipo de fada é bastante hostil com estranhos.
Kaela mordeu o lábio, pensativa.
— Será que eles seriam hostis até com uma delas?
Adriele cruzou os braços.
— Para eles terem abandonado ela no mundo dos humanos quando ainda era um bebê... provavelmente sim.
Kaela fechou um dos livros com um estalo seco e apoiou o rosto nas mãos.
— Deve haver alguma criatura que cure banshees. Os parentes de Miranda são fortes. Ouvi dizer que as mulheres são híbridas. Talvez alguma delas possa curar a Lyss.
Adriele balançou a cabeça devagar.
— Eu acho que a Miranda teria considerado isso se houvesse uma chance.
Kaela endireitou-se, os olhos brilhando com teimosia.
— Eu não vou desistir!
Adriele sorriu de leve, um gesto de ternura misturado à resignação.
— E não deve. Mas isso pode levar tempo, então não se cobre tanto.
Ela deu a volta pela mesa, posicionando-se atrás de Kaela, e pousou as mãos sobre os ombros tensos da fada vampira, massageando-os com cuidado.
— É que eu me sinto uma inútil. — murmurou Kaela, fechando os olhos. — Se ao menos eu tivesse sentido quando ela estava prestes a atravessar o portal... se eu tivesse ido buscá-la, poderia ter evitado o acidente.
Adriele se inclinou um pouco, a voz saindo baixa, quase um sussurro.
— Não foi sua culpa, querida. Só relaxe e pare de se culpar.
Kaela inspirou fundo, deixando que o toque gentil dissolvesse um pouco da tensão.
— Obrigada. Você sempre me acalma. — disse, sorrindo com os olhos ainda fechados.
Quando os abriu, virou-se lentamente, ficando de frente para Adriele. O olhar de ambas se encontrou, e por um instante o silêncio pareceu denso, carregado de emoção.
Kaela então passou os braços pela cintura da marimanta, encostando o rosto em seu corpo num gesto de carinho contido.
— O que seria de você sem mim? — perguntou Adriele, rindo baixo e tocando o rosto dela com delicadeza.
Kaela respondeu com um abraço mais firme, o som distante da chuva batendo nas janelas da biblioteca enquanto o fogo das velas tremulava, projetando sombras suaves nas duas.
