
Resumo
Lyssaria sempre acreditou que era apenas uma jovem atormentada por visões inexplicáveis. Sonhos de mortes, vozes que a chamavam, e o rosto de oito mulheres que pareciam esperá-la em algum lugar além do véu da realidade. Quando é internada em um hospital psiquiátrico na Irlanda, seu destino muda para sempre e uma noite de tempestade a conduz até Kérite, um reino oculto onde magia, amor e eternidade se entrelaçam. Lá, Lyssaria descobre ser a reencarnação de uma banshee ancestral, ligada por um pacto de almas a oito mulheres imortais que a amam desde vidas passadas: uma sereia sedutora, uma elfa de luz, uma djinn feita de fogo e desejo, uma vampira que teme o próprio amor, e outras criaturas que guardam segredos tão profundos quanto a própria morte. Entre promessas e maldições, Lyssaria precisa aprender a viver entre deuses e monstros, e a aceitar que o amor pode ser tão perigoso quanto belo. Porque quando o coração de uma banshee desperta… até o destino treme diante de seu grito.
1.Um novo mundo
A chuva castigava a floresta Carrickgollogan com uma fúria antiga, como se os céus quisessem afogar o mundo. As árvores se dobravam sob o vento, e o som do trovão se misturava ao dos galhos quebrando. No meio da escuridão, uma silhueta corria, os pés descalços de Lyssaria afundavam na lama, o cabelo preto colava em seu rosto pálido, o vestido de hospital rasgado se prendendo nos espinhos.
O ar frio cortava seus pulmões, mas ela não parava. O medo era mais forte que a dor.
Atrás dela, o alarme do hospital ecoava em meio à tempestade. Uma luz vermelha piscava entre as árvores, como um farol de caça.
— Ali! Peguem ela! — uma voz masculina gritou, e passos pesados começaram a persegui-la.
Quatro enfermeiros, cobertos por capas encharcadas, avançavam com lanternas, o rosto contorcido pela chuva e pela raiva. Lyssaria tropeçou, caiu, e sentiu o gosto de sangue ao bater o queixo numa pedra. O mundo girou por um instante, mas ela se levantou, ofegante, e continuou correndo, guiada apenas pelo instinto de sobrevivência.
Cada trovão parecia bater dentro de sua cabeça.
Cada raio iluminava o caminho por segundos, revelando a mata cerrada, as sombras grotescas das árvores, e o penhasco que se erguia adiante, uma muralha negra contra o céu de prata.
O barulho dos passos atrás dela aumentava.
— Pare! Você vai se machucar! — gritou um dos homens.
Lyssaria não respondeu. As lágrimas se misturavam à chuva. Seu coração pulsava como se quisesse rasgar o peito. Quando finalmente saiu da mata, o chão desapareceu diante dela. Um penhasco. Abaixo, o mar batia com violência contra as rochas, e o vento rugia como uma fera viva.
Ela parou, trêmula, à beira do abismo. Os enfermeiros se aproximavam, a lanterna de um deles iluminando seu rosto enlameado.
Ela olhou para trás, os vultos estavam perto demais. Olhou então para a frente, para o vazio, para a escuridão, para as águas revoltas.
E ali, entre a neblina e o relâmpago, um rosto apareceu.
Uma mulher de cabelos cor-de-rosa e olhos vermelhos, flutuando sobre as ondas, sorria para ela com presas de vampira. A voz, doce e hipnótica, ecoou dentro da mente de Lyssaria:
— Venha, meu amor, estou te esperando. Não tenha medo.
— Fique parada! — gritou o enfermeiro.
Lyssaria piscou, encharcada, confusa entre o medo e o chamado.
Uma lágrima rolou por seu rosto.
— Melhor a morte... — murmurou para si mesma, com um último suspiro.
Então, fechou os olhos e se lançou.
O vento gritou ao seu redor. O impacto da água gélida foi como facas atravessando sua pele. Um turbilhão de escuridão a envolveu, sons, memórias e luzes misturadas em um redemoinho silencioso.
Depois, o nada.
Quando abriu os olhos novamente, havia silêncio.
O teto era de pedra clara, iluminado por velas. Lençois macios tocavam sua pele. O cheiro era de flores e maresia.
Ela se ergueu um pouco, sentindo o corpo pesado. E então viu, oito mulheres a cercavam, observando-a com rostos que pareciam pintados por sonhos antigos.
Os olhos de Lyssaria se encheram de espanto.
— Eu morri ou estou sonhando? — perguntou, a voz trêmula.
Uma mulher de cabelos azuis, vestida com um vestido preto sensual, sorriu de canto.
— Quase isso, docinho... Seja bem-vinda à Kérite. Eu sou...
— Zafira... — interrompeu Lyssaria, num sussurro. O olhar se moveu para as outras. — E vocês outras são Gaion, Nova, Kaela, Adriele, Helka, Theodra e Miranda. Certo? Eu as vi em meus sonhos. Como podem ser reais? Não. Não são. Devo estar alucinando outra vez.
— Isso é bem real. Sei que pode ser novo para você, mas não somos frutos da sua imaginação. Estávamos esperando por você. — disse Nova, com voz calma.
— Então, você também sonhava com a gente? — perguntou Miranda, o sorriso malicioso dançando em seus lábios vermelhos.
— Não. Eu inventei esse lugar e vocês. — respondeu Lyssaria, negando, a respiração curta.
— Não. Você sonhava com a gente porque já nós conhecemos de outra vida... Todas nós, somos almas gêmeas e estamos destinadas a ficar juntas para sempre. — disse Gaion, doce e serena.
— Sim, você é a reencarnação de uma banshee, mas nasceu entre os humanos, por isso, estava presa naquele lugar. Tentamos ir até você, mas não conseguimos porque, apesar de vermos o lugar, não sabíamos onde era. Então, só nos restou atraí-la e esperar que você cruzasse o portal e viesse até nós. Sentimos quando você atravessou e a encontramos no lago. — completou Kaela.
Lyssaria puxou o cobertor e tentou se levantar, mas o pavor congelou seu rosto.
— Minhas pernas... Por que não consigo movê-las?
O silêncio caiu.
Theodra desviou o olhar antes de sussurrar:
— Você caiu de muito alto quando cruzou o portal, bateu nas pedras e se machucou muito. Tentamos curá-la, mas por você não ser como nós, não conseguimos curá-la completamente, então... sinto muito.
— Não. — disse Lyssaria, e as lágrimas voltaram.
— Vamos encontrar uma cura, eu prometo. Não se desespere. — murmurou Helka, aproximando-se para abraçá-la.
Lyssaria se deixou afundar no calor daquele gesto, o choro contido se misturando ao som distante da chuva batendo nas janelas da mansão.
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Dois dias haviam se passado desde que Lyssaria despertara em Kérite. O sol atravessava as cortinas finas e dourava o quarto de forma melancólica. Ela estava diante de um espelho de corpo inteiro, a escova deslizando lentamente pelos cabelos negros e lisos. Os movimentos eram automáticos, como se o corpo se lembrasse de ser vaidoso mesmo quando o espírito já havia desistido.
A cadeira de rodas refletia no espelho, símbolo do que ela perdera e do que ainda não conseguia aceitar.
O som suave de passos rompeu o silêncio. Theodra apareceu na porta, os cabelos negros soltos e brilhantes como seda molhada, os olhos azuis cintilando com curiosidade.
— Você não quer vir comigo para o jardim? Está um dia tão bonito! — disse ela, a voz leve, quase musical.
— Não. Obrigada. — respondeu Lyssaria sem olhar para trás, o tom frio, distante.
Theodra suspirou, contornou a cadeira e parou diante dela. Seus dedos longos e frios tocaram o rosto de Lyssaria com delicadeza.
— Minha querida, é triste o que aconteceu com você, mas não pode continuar se lamentando, porque agora você não é mais prisioneira. Está cercada por pessoas que realmente te amam. — murmurou, com um sorriso suave.
Lyssaria pousou a escova sobre o colo e encarou o próprio reflexo, o azul dos olhos enevoado de dor.
— Eu sei. Sou grata por me acolherem, mas não consigo me sentir diferente... Se ao menos eu pudesse remover minha dor.
Theodra arqueou uma sobrancelha, o sorriso crescendo nos lábios.
— Eu posso fazer isso, se me permitir. Você quer?
Lyssaria virou-se, intrigada.
— Como faria isso?
— Eu sou uma sereia. — respondeu, com um leve orgulho na voz. — Posso trazer tanto felicidade quanto infelicidade a qualquer pessoa com o meu canto.
Os olhos de Lyssaria brilharam com um lampejo de esperança.
— Então cante para mim, Dree? — pediu, chamando-a pelo apelido que costumava usar nos sonhos.
Theodra ficou em silêncio por um instante. Depois, aproximou-se e pousou as mãos nos ombros de Lyssaria, inclinando-se para que o perfume salgado de seu corpo preenchesse o ar. Quando começou a cantar, a voz era uma melodia antiga e sombria, uma lullaby que parecia vir das profundezas do mar.
Cada nota escorria como água fria, lavando o peso da mente de Lyssaria. As lembranças do hospital, o som da chuva, o desespero do penhasco… tudo se dissolvia.
Quando o canto terminou, o quarto estava em silêncio.
Lyssaria piscou devagar, e pela primeira vez, esboçou um sorriso.
— Você tem um sorriso lindo! — disse Theodra, encantada, aproximando-se o bastante para que seus lábios quase se tocassem.
Lyssaria corou, o coração disparando.
— Que tal um passeio? — sugeriu Theodra, num tom suave. — Quero te mostrar a cidade.
Ela hesitou por um instante, mas a serenidade que a canção deixara dentro dela parecia um empurrão invisível.
— Está bem. — respondeu por fim.
Pouco depois, estavam no carro de Theodra, descendo por estradas sinuosas ladeadas por árvores que pareciam vivas. Kérite se revelava diante delas como um sonho acordado: pontes de pedra entrelaçadas por videiras luminosas, torres antigas refletindo painéis de energia mágica, ruas calçadas com símbolos rúnicos e vitrines com objetos tanto modernos quanto antigos.
Theodra estacionou diante de uma praça ampla. O som de fontes cristalinas se misturava a risos e melodias de instrumentos desconhecidos. Saiu do carro, abriu a porta para Lyssaria e a ajudou a se sentar na cadeira de rodas.
Caminharam juntas pelas ruas de Kérite, uma mistura impossível entre modernidade e antiguidade, entre tecnologia e feitiço.
Theodra sumiu por um instante e voltou com uma rosa vermelha, entregando-a à Lyssaria com um gesto gracioso.
— Obrigada. — disse ela, levando a flor ao nariz. — Quem governa todo esse lugar?
— Bem, cada raça tem seu próprio líder. — respondeu Theodra. — Mas todos respondem ao rei Howard e à rainha Annabelle, e à imperatriz Luana e ao imperador Alexander. Esse último governa todas as raças. Miranda é filha do rei e da rainha, e sobrinha do imperador.
— Então ela é da realeza? — riu Lyssaria. — Deveria ter adivinhado pela coroa que ela usa.
— Ela se orgulha muito de ser da realeza. Por anos, viveu no Castelo da Escuridão, mas quando teve uma visão de que você voltaria, deixou tudo para trás para se juntar a mim e às outras.
Lyssaria observou o reflexo das luzes mágicas na rosa.
— E você? Qual é a sua história?
Theodra a olhou, e um sorriso travesso curvou seus lábios.
— Eu não era muito diferente da Miranda... Ia a festas com garotas todas as noites, até começar a me lembrar de você. De que eu te amo. Todas nós te amamos.
— De verdade? — perguntou Lyssaria, incrédula.
— Sim. Você também nos ama. Só precisa aceitar isso. — sussurrou Theodra, inclinando-se com um brilho provocante no olhar. Seu hálito tocou o ouvido de Lyssaria. — Tem tanta coisa que eu estou louca para fazer com você, e você nem imagina.
Lyssaria ficou vermelha, as mãos tremendo sobre a cadeira. Theodra se afastou, rindo com leveza.
— Você é uma fofa mesmo. Vamos? Vou te levar até o meu restaurante favorito. Você deve estar com fome.
E, sob a luz dourada de Kérite, a sereia empurrou a cadeira, conduzindo-a entre ruas vivas de magia e mistério, onde o amor e o perigo pareciam caminhar lado a lado.
