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2. Encontro

O restaurante favorito de Theodra ficava no coração de Kérite, numa rua pavimentada com pedras claras que brilhavam como cristais sob a luz do sol. A fachada era de um luxo discreto, vitrais coloridos refletiam feixes dourados sobre as colunas brancas, e uma fonte em forma de sereia cantava suavemente diante da entrada.

Lá dentro, o ambiente era cálido e elegante. Músicos tocavam uma melodia suave com instrumentos que pareciam vivos, e o ar estava impregnado do perfume de flores e especiarias. Theodra conduziu Lyssaria até uma mesa junto à janela, de onde se podia ver as torres da cidade e o rio serpenteando entre os prédios.

Os pratos chegaram fumegantes, com aromas irresistíveis. Lyssaria deu a primeira garfada e soltou um suspiro de prazer.

— Hmm... A comida daqui é maravilhosa! Agora entendo por que é seu restaurante preferido! — disse, sorrindo.

— Sim. — respondeu Theodra, tomando um gole de sua bebida de coloração azulada. — O lugar pertence às mães da Rainha e da Imperatriz. Tem a melhor comida e o melhor: servem pratos de diferentes partes do mundo, desde Estados Unidos e Romênia até o Brasil.

Os olhos de Lyssaria se iluminaram.

— Uau! Então vou ter a oportunidade de experimentar a culinária de diferentes povos. Incrível!

Ela girou o garfo entre os dedos, pensativa, antes de mudar o rumo da conversa.

— Vocês disseram que eu sou a reencarnação de uma banshee... Significa que eu tenho poderes sobrenaturais?

— Sim. — respondeu Theodra, cruzando as pernas e inclinando-se levemente para frente. — Você está despertando os seus poderes aos poucos.

— E quais poderes, além de prever a morte das pessoas, eu tenho? — perguntou Lyssaria, curiosa.

Theodra brincou com o canudo da bebida, o olhar fixo nela.

— Bem, você tem o grito da banshee, que pode matar humanos e atordoar criaturas sobrenaturais. Também pode se teletransportar, voar e tem o beijo da banshee, que pode trazer um morto de volta à vida... mas com um pequeno preço.

Lyssaria pousou o garfo, atenta.

— Que preço?

— Sua alma e a da pessoa se ligam. O que acontecer com uma, a outra sente. E o pior... se a pessoa morrer, você morre também.

Lyssaria empalideceu, olhando para o reflexo do copo.

— Então, eu não poderia salvar ninguém sem me condenar? Parece uma maldição.

Theodra sorriu, melancólica.

— Banshees, Leanan Sídhes e Sereias não foram feitas para salvar ninguém além de si mesmas. Por isso, somos incompreendidas e até temidas. Mas é só a sua natureza, e isso não te torna má.

O silêncio entre as duas foi interrompido pelo garçom trazendo a sobremesa, um doce cremoso coberto por pétalas douradas. Lyssaria o provou e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo leve no peito.

Após o almoço, Theodra a levou até uma boutique próxima, adornada por manequins que pareciam respirar. Os vestidos cintilavam sob luzes mágicas, e o chão refletia as cores do arco-íris.

— Vou te ajudar a escolher algumas roupas. Chega de usar os vestidos da Adriele. Eles não combinam com você! — disse Theodra, abrindo um sorriso travesso.

— Mas eu não tenho dinheiro, e as roupas aqui parecem caras. Espere até eu arrumar um emprego... isso se alguém me empregar. — respondeu Lyssaria, corando um pouco.

A sereia riu, um som melodioso que fez alguns olhares se voltarem para ela.

— Emprego? Não tem necessidade disso. As outras e eu somos ricas. Deixe a gente cuidar de você, querida? Não nos custa nada.

— Eu não vou ter como retribuir depois. — murmurou Lyssaria.

— E quem falou em retribuição? — disse Theodra, piscando. — São presentes para a minha noiva.

Lyssaria arregalou os olhos.

— Sua... noiva?

— É o que você é para a gente, nossa noiva. E nem adianta negar, porque foi você mesma quem propôs casamento a todas nós na vida passada. Nós aceitamos e juramos te amar para sempre.

Ela suspirou, rendida.

— Eu não me lembro disso... mas se você está dizendo... Tudo bem, eu vou aceitar, só porque já estou sem graça de usar as roupas da Adriele.

Theodra deu uma risadinha satisfeita e começou a vasculhar os cabides com entusiasmo.

— Vou deixá-la linda como uma princesa.

Vestidos, blusas, saias, sapatos e acessórios foram escolhidos um a um, todos com o olhar atento e caprichoso da sereia. Quando saíram, ainda passaram por um salão de beleza, onde Lyssaria ganhou um corte leve e um brilho novo no olhar.

Ao voltarem para a mansão de arquitetura inglesa, o sol já se escondia entre as nuvens cor de âmbar. Theodra ajudou Lyssaria a guardar as roupas e os sapatos no grande armário esculpido, organizando tudo com cuidado.

Depois, pousou uma mão sobre o ombro da jovem e sorriu.

— Descanse um pouco, meu amor. Você teve um dia longo.

Lyssaria assentiu, sentindo um calor estranho no peito, mistura de confusão, gratidão e algo que se parecia com ternura. Quando Theodra deixou o quarto, o silêncio da mansão pareceu mais vivo do que nunca.

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Quando acordou do breve descanso, Lyssaria sentia-se um pouco mais leve. O ar da mansão parecia envolto por uma calma acolhedora. Ela penteou os cabelos, ajeitou o vestido novo que Theodra havia escolhido para ela e saiu do quarto, conduzindo a cadeira até o corredor que levava à sala de jantar.

O som de risadas femininas ecoava antes mesmo que ela cruzasse a porta. O perfume de vinho e especiarias se misturava ao aroma de pratos fumegantes.

Assim que entrou, Zafira foi a primeira a notar sua presença.

— Olhe só quem resolveu dar o ar de sua graça! — disse, sorrindo com aquele ar provocante que lhe era natural.

— Boa noite? — respondeu Lyssaria, um pouco tímida, mas com um leve sorriso.

Helka apoiou o cotovelo na mesa e, com um brilho travesso no olhar, comentou:

— Se seu encontro com a Dree lhe fez tão bem, imagine então quando se encontrar comigo. — Ela piscou para Lyssaria, o sorriso malicioso brincando nos lábios.

— Ou comigo... — disse Miranda, inclinando-se na cadeira com o mesmo ar insinuante.

Helka deu uma risada baixa.

— Pode ser as duas ao mesmo tempo, se quiser. — E, antes que alguém respondesse, beijou o pescoço de Miranda com um gesto lento e teatral.

— Claro, quanto mais, melhor. — completou Miranda, rindo.

Kaela revirou os olhos e cruzou os braços.

— Peguem leve ou vão assustá-la desse jeito, suas pervertidas! — disse, olhando para Lyssaria. — Você namorava com alguém antes de ir parar naquele lugar?

Miranda soltou uma risada zombeteira.

— O que ela quer saber é se você já namorou alguma garota antes.

Lyssaria respirou fundo, pensou por um instante e respondeu com a voz baixa, mas firme:

— Sim, eu tive uma namorada quando tinha dezesseis anos, mas terminamos da pior forma. Digamos que ela não queria estar com uma esquizofrênica.

O silêncio que se formou foi breve, quebrado pela voz suave de Gaion.

— Você não é esquizofrênica. — disse, com ternura.

Lyssaria olhou para o prato, mexendo na comida.

— Humanos não acreditam em banshees. Pelo menos não mais.

Adriele ergueu o olhar, o tom sério e um traço de rancor em sua voz.

— Humanos são tão cegos... sempre duvidando de tudo.

Nova, que observava a cena com um sorriso sereno, inclinou-se para Lyssaria.

— Preparamos uma surpresa para você depois do jantar.

Lyssaria arqueou as sobrancelhas, curiosa.

— O que é?

— Se chama surpresa por um motivo... — respondeu Nova, rindo, o olhar brincalhão.

A conversa seguiu leve, entre risos e histórias. O jantar transcorreu como uma dança de vozes e sabores. Quando a refeição terminou, Nova se levantou.

— Espere por nós na sala de estar, Lyssaria. Vamos ao seu encontro em alguns minutos.

Lyssaria assentiu, ainda sem entender o que estavam tramando, e se dirigiu à sala de estar.

O ambiente estava iluminado por luzes amareladas e aconchegantes. No canto, um rádio antigo tocava uma música indiana feminina, envolvente e alegre. Na mesinha de centro, um balde de gelo guardava garrafas de bebida, e copos de cristal reluziam sob a luz suave.

Lyssaria olhou ao redor, surpresa.

— Hmm... Uma festinha particular? Gostei! — disse, rindo, enquanto começava a cantarolar baixinho, balançando a cabeça ao ritmo da canção.

Alguns minutos se passaram. O som dos passos ecoou pelo corredor. Quando ela ergueu o olhar, suas companheiras entravam na sala, todas as oito, vestidas com trajes indianos coloridos, adornadas com tecidos brilhantes, joias e véus delicados.

A melodia cresceu, e elas começaram a dançar. Movimentos graciosos, sensuais, envolventes, os tecidos coloridos flutuavam ao redor delas como chamas vivas. Lyssaria observava, encantada, os olhos brilhando com alegria genuína.

De duas em duas, as mulheres se aproximavam, beijavam-lhe o rosto e voltavam a dançar, girando ao som da música até que a canção terminou com um acorde suave.

Helka aproximou-se, ainda ofegante, e perguntou:

— Gostou da surpresa?

Lyssaria sorriu, emocionada.

— Sim, muito. Obrigada, meninas. Vocês são incríveis e dançam muito bem!

Adriele pegou uma garrafa de licor de chocolate e a abriu com um estalo.

— Vamos beber agora para comemorar nossa união.

Os copos foram enchidos, o aroma doce invadindo o ar.

— À primeira de muitas. — disse Adriele, erguendo o copo e sorrindo.

As taças tilintaram, e o riso das nove mulheres se misturou à música e à promessa silenciosa de que aquela noite seria apenas o começo.

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