Refúgio
Dandara tomou o banho mais demorado de sua vida, ficou por cinquenta minutos emergida na banheira de hidromassagem, coberta de espumas, havia exagerado até no momento de esfregar o corpo. Queria tirar o cheiro do esperma que ainda a deixa nauseando. Queria tirar também as marcas invisíveis que Danilo havia deixado em sua alma quando a estuprou. Permaneceu alô deitada, de olhos fechados, lembrando toda a angústia que foi viver aquela noite sob o poder de Danilo.
Dandara por ser uma mulher negra não se vitimizava diante da sociedade, era forte e aprendeu a ser a rocha depois de descobrir o quanto ou mundo era injusto. Sabia também o quanto era privilegiada ao nascer em uma família rica. A cor da sua pele nunca a colocou em uma posição inferior, pois seu pai sendo descendente de escravos portuguses ensinou seus filhos a terem orgulho de suas origens e não se sentir inferior a ninguém. Paulo ensinou o que havia aprendido com seu pai, que a cor da pele não determinava o quão boa podia ser uma pessoa e muito menos seu caráter.
Dandara e seu irmão mais velhos Ricardo foram ensinados a terem orgulho de sua etnia e a respeitar seus antepassados. Uma vez ao ano Paulo levava a família a África para fazer obra de caridade e também para buscar uma conexão com seu povo.
Cecília que era filha de italianos se apaixonou por Paulo na primeira visita ao Brasil ao se hospedar em um dos hotéis da rede dos pais de Paulo. A jovem loira de olhos azuis emcantaou Paulo que na época era um simples estudante de Advocacia. E mesmo enfrentando preconceito por parte de sua família italiana Cecília largou tudo e todos na Itália para se casar com seu grande amor.
Dessa mistura étnica nasceram dois belos filhos, Ricardo o mais velho era o "xerox" de Cecília". Possuía a pele clara, os olhos azuis e o sorriso cativante de seu pai. Depois de três anos veio ao mundo Dandara, que recebeu esse nome em homenagem a uma guerreira Dandara foi uma guerreira negra do período colonial do Brasil. A menina era um bebê tão bonito que chegou a fazer muitos comerciais para a tv. Os olhos cor de mel seduziam a todos que a admiravam. E na vida adulta o tempo lhe garantiu uma beleza surreal no seu delicado corpo de mulher.
Nunca se sentiu humilhada por ser negra, por pertencer a um povo do qual ela tinha imenso orgulho e amor, mas depois daquele dia, ao se sentir em pedaços quando seu corpo foi corrompido pela maldade de um homem a sua força interior se desmoronou.
Ela sentia como se pudesse viver todos os estupros que as mulheres negras, brancas e pardas de seu tempo sentiram quando também foram violentadas sexualmente.
Começou a refletir das muitas vezes que a história de seu povo foi manchada por sangue pela maldade dos homens brancos. Ela havia vivenciado um trauma tão grande que uma provável depressão se desesncadearia.
Quase já pegando no sono ali dentro da água, resolveu buscar forças para sair da banheira. As lágrimas ainda corriam por sua face, seu coração ainda sangrava, mas ela precisava continuar a viver apesar de tanta dor.
Estava disposta a não fazer a denuncia contra Danilo, aquilo provavelmente seria um escândalo, as famílias que eram amigas iria ser destruídas, Ricardo viajaria da Grécia até o Brasil para matar Danilo. Seu irmão havia se casado a um ano e vivia recomendando Danilo para cuidar de Dandara. Ricardo tinha uma boa idade com o cunhado e confiava nele por ser o braço direito de seu pai nosgocios. Mas é aquele velho ditado "quem vê cara não vê o coração" porque se Ricardo visse a maldade na cara de Danilo ele mesmo o afastaria da vida de sua irmã.
Danadara não pensava mais nela e sim nós outros, preocupada com problemas decorrentes de sua denuncia, por isso achou melhor esquecer, como se fosse algo simples, pois dentro de sua alma um grito de justiça ecoava em desespero.
...
No amanhecer acordou mais cedo do que todos, já havia custado ter conseguido dormir, acordava de pesadelos terríveis em que ainda estava sob o poder de Danilo. Levantar da cama seria um alívio do que continuar permitindo que sua mente perturbada com tudo a levasse a viver novamente aquele momento de terror.
Lá fora caia uma fina chuva e mesmo com chuva os primeiros raios de sol anunciavamais um alvorecer. Ela era uma pessoa sensível que sabia apreciar as pequenas coisas da vida e ficava emocionada com detalhes que muitos ignoravam como o nascer do sol, porém aquela manhã Dandara não levantou seus olhos para admirar o céu e tão pouco se importou com as gotículas de água que caiam suavemente.
Tudo que ela queria era "esquecer". A única forma que poderia tentar viver ignorando o trauma que havia sofrido era dedicando ainda mais seu tempo aos estudos.
Sentia tanta mágoa de Danilo que não saberia dizer como seria o momento que o olhasse nos olhos novamente. O noivado tinha acabado, não aceitaria mais nada da parte de um homem sujo e pervertido como ele. Não se importava com o escândalo que sua mãe faria, ela não saberia realmente o motivo do rompimento. Dandara esperava que ninguém perguntasse pois não queria se entender com a verdade diante das perguntas, correria o risco de ser enfraquecer e contar.
O segurança que fazia a ronda achou estranho encontrar a filha do patrão saindo de casa aquela hora e achou que seu dever era perguntar se ela queria que acordasse o motorista:
___ Senhorita? (Disse Fábio se aproximando)
Dandara sentiu seu corpo estremecer com a presença do segurança, pela primeira sentia medo de Fábio, que já era um funcionário antigo de seu pai. Não havia porque temer, era um homem de confiança, zelava pela segurança da mansão, mas para Dandara depois do que ela viveu nas mãos de Danilo, todo homem era um estuprador em potencial.
Ela se manteve afastada para saber o que ele queria. Fábio estranhou seu comportamento, antes a jovem era sempre receptiva, alegre, educada e aquele momento o olhava com desconfiança:
___ Quer que eu acorde o motorista para levá-la ? (Perguntou Fábio)
___ Não obrigado já chamei um táxi! (Respondeu Dandara com indiferença)
Ele apenas acionou o botão na parede e o portão eletrônico se abriu silenciosamente. Dandara sentia o coração bater descontrolado em sua boca, estava tremendo e não sentia frio. Mesmo apesar da fina chuva que caia o clima estava quente. Ela tremia mas de medo, o medo agora acompanhava Dandara.
O taxista não demorou chegar, ela respirou fundo, sabia que raramente existiam mulheres motoristas, teria que enfrentar um mundo lá fora governado por homens.
Nunca havia se sentido inferior a a homem, não brigava como Bruna e suas igas feministas por direitos iguais. Dandara não tinhaotivos para "odiar" os homens e nem concordava com ideias feministas da atualidade. Os homens que ela mais admirava e tinha como exemplo de vida era seu pai e seu irmão e portanto não havia razões para defender ideias militantes que a tornava contra sua família.
Porém após a noite anterior Dandara não tinha tanta certeza mais do que acreditava em relação aos homens. Estava se sentindo fragilizada na presença deles, como se fossem a ameaça. Era um medo constante e uma angústia que apertava seu peito.
"Não sei se vou conseguir sobreviver a isso meu Deus" Ela pensava enquanto mantinha a cabeça encostada no vidro.
Para seu alívio o taxista aproveitou o trânsito lento daquela manhã e acelerou. Quinze minutos chegou ao seu destino que era o porto de "Águas claras". Havia duas balsas atracadas. O som das buzinas avisavam as pessoas que em breve iria embarcar em direção a ilha.
Estava ali Dandara se misturando as pessoas, aos turistas para ir a ilha. Havia planejado ir a ilha semana que vem para fazer as entrevistas com os nativos, porém estava tão desesperada por um refúgio que decidiu ir ainda aquele dia. Seria parte de sua rotina visitar a ilha em busca de relatos das pessoas que viviam ali e também explorar o local para fazer sua dissertação.
Aquele momento entendia o propósito de seu orientador o professor Emílio lhe solicitar a pesquisa de campo. O professor sabia de seu potencial, era sua melhor aluna, mas o que ele viu em Dandara era um pedido de socorro que ninguém via.
Pois julgavam pela aparência, Dandara era uma mulher jovem, linda, rica e com a vida perfeita, mas Emílio via nas entrelinhas. já havia lecionado por mais de quinhentos alunos no periodo de quarenta anos de docência, tinha adquirido a capacidade de ler a alma dos alunos.
A Ilha "Águas claras" seria um momento para Dandara refletir, descansar sua mente agitada e se conhecer de verdade.
A viagem de balsa durava em torno de quarenta minutos e toda a vastidão do oceano acalmou o coração quebrantado de Dandara. Mesmo que as recordações ainda eram dolorosas em sua mente, ela conseguiu respirar fundo e manter as lágrimas nos olhos.
Dandara buscou em sua mala o seu caderno de anotações, precisa se distrair pois o cheiro forte do peixe empregado na balsa estava a deixando enjoada. "Prefiro o cheiro de peixe que de esperma" ela pensou aflita.
