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Lázzaro Bartholomeu tentou passar adiante, não era problema dele, mas uma força maior e incompreensível, o fez dar ré. Parando o carro perto da garota, abriu o vidro e sentiu um nó na garganta ao ver o estado em que ela se encontrava.
— Senhorita Hamilton? — chamou-a que olhou imediatamente limpando as lágrimas com o coração batendo rapidamente.
— Ah, olá senhor Bartholomeu. — o cumprimentou soluçando em uma tentativa vã de disfarçar a crise de choro.
— O que ainda faz aqui? — indagou Lázzaro com o olhar confuso.
— Eu já estava indo para casa. Terminei agora o... O trabalho, mas... — tentou dizer mas uma onda de lágrimas novamente se esvaiu dela.
— O que houve? Alguém te machucou? — a impaciência e preocupação disputavam em sua voz.
— Sim. — deu um grande soluço e voltou a chorar — Alguns garotos vieram e... — soluçou de novo — Levaram todo meu dinheiro e também os meus gatinhos. — concluiu e se desesperou novamente.
Porra! Lázzaro nunca havia visto ninguém chorar daquele jeito. Sentiu um grande frio na barriga, seu peito apertando e um grande nó na garganta se formando, não sabia o que era, estava confuso e irritado também por não saber.
Odiava choradeira e se perguntava a todo momento porquê diabos estava se importando com aquela garota ali, e que merda ele estava sentindo ao uma vontade incontrolável de fazê-la parar o possuir.
Ele franziu o cenho muito irado consigo mesmo, bufando saiu do carro e estendeu a mão para a garota sentada.
— Me diga onde posso encontrar esses garotos! — disse mais como uma ordem recebendo o olhar confuso dela.
Lia o olhou com brilho nos olhos, talvez aquele olhar durou mais do que os dois queriam. Lázzaro queria ajudá-la... Ela sentiu seu coração aquecer com o gesto, sentia muito a falta de pessoas bondosas em sua vida, não conhecia nenhuma além das pessoas que a ajudavam com alguma esmola, muitos até mesmo reclamando e jogando o dinheiro no chão para que ela pegasse.
Fazia tanto tempo que Lia não dava um sorriso, que não sabia o que era felicidade. A última vez foi há dois anos, antes de sua mãe descobrir a doença que a matou, desde então foi vivendo entre desesperança, desamor, tristeza e maus tratos causados por sua tia e primos.
Mas por outro lado, ela também não queria incomodá-lo.
— Não precisa se preocupar comigo. — ela tentou dar um sorriso, mas saiu muito mais triste do que pensava — Obrigada pela gentileza de propor me ajudar, mas não quero incomodar.
— Não estou preocupado com você e muito menos sendo gentil. Quero apenas saber onde posso encontrar os garotos. — falou rudemente.
Na verdade ele odiava o fato de que alguém o visse como um homem gentil e bondoso. Seu pai lhe ensinara que deveria mostrar ser forte pondo sua prepotência e dureza acima de tudo e que o contrário disso o deixaria fraco e vulnerável.
Lia engoliu em seco pela indelicadeza do homem, mas queria acreditar sim, bem no fundo que ele era bom e queria ajudá-la. Viu isso em seus profundos olhos escuros.
— Eu não sei ao certo. — respondeu Lia em tom doce.
— Vamos, tente se lembrar! — Lázzaro apressou com impaciência.
— Bem... Após pegarem minhas coisas, eles entraram nessa rua aqui. Depois disso eu não consegui mais ver, até tentei correr atrás deles mas minha costela está doendo e também torci o meu pé. — contou limpando as lágrimas.
Ele engoliu em seco a próxima pergunta, mas foi inevitável, no entanto continuou se odiando por isso. Por estar se importando tanto.
— Uh. Aqui é seguro para você? — inquiriu hesitante.
— Acho que sim. Eu estou sempre por aqui. — disse ela.
— Então continue aqui que eu vou trazer seu dinheiro e seus gatos. E pare logo de chorar! — ordenou.
Lia apenas assentiu e continuou ali, esperando. Enquanto Lázzaro entrava no seu carro e sumia rua dentro no resgate de seu pouco dinheiro e dos seus gatinhos que resgatou da morte.
Por sorte ou por Deus, eles estavam intactos dentro da caixa quando ela desceu o barranco para procurá-los, trabalhou o dia todo com eles e ainda dividiu um pão com manteiga para os três, deixando assim de comer naquele dia.
O homem carrancudo e mal humorado seguiu pelas ruas estranhas e escuras, estava com muita raiva, e não sabia exatamente o motivo, só sentia queimando no peito. Olhando para os arredores ele avistou um pouco mais a frente um grupo de seis garotos grandes até para o seu gosto. Desta forma ele acelerou o carro e parou muito próximo a eles, chamando a atenção para si, quando desceu do carro tomado de antipatia.
