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6

— Me devolvam os gatos e o dinheiro que vocês roubaram da moça lá atrás! — ordenou exasperado com as mãos no bolso.

— Olha lá! Quem é você tio? Dando ordem aqui nas nossas quebradas. — um dos moleques disse.

— Me dê a porra do dinheiro e os gatos! Só vou pedir uma vez. — os meninos se juntaram todos a frente dele e levantaram os queixos em sinal de desafio.

— E o que vai fazer se a gente não quiser devolver as coisas daquela piranha? — um deles provocou.

A fúria que Lázzaro sentiu foi tão gigantesca que ele pegou o maior dos pivetes pela camisa levantando-o do chão, com um olhar de demônio raivoso um dos garotos gritou para devolver.

— Devolve, devolve. — o medo era aparente nas vozes deles.

— Muito bem. — satisfeito ele pegou a caixa com os gatos no chão e também o saquinho de dinheiro que foi deixado no asfalto.

Olhou para o lado e lá estavam, os garotos correndo de medo dele. Nunca tinha descido a um nível tão baixo, sua raiva pela garota só aumentou porque era culpa dela, ela quem o fez ficar estranho e sentindo coisas que nunca imaginou existir possibilidade de sentir.

— Aqui estão suas coisas! — exclamou quando voltou.

Ela levantou animada e muito aliviada.

— Obrigada, obrigada, obrigada! Eu não sei como te agradecer por isso. De verdade, eu não posso nem imaginar o que seria de mim se eu não levasse esse dinheiro pra casa hoje. — agradeceu com grande alívio percorrendo seu corpo antes angustiado e tenso.

— Isso não me parece muito dinheiro. Pelo seu desespero eu pensei que fosse uma quantidade maior. Você me fez quase bater em um garoto imbecil por causa de meros trocados! — grunhiu com irritação. Ela se encolheu e acariciou um dos gatinhos.

— Me desculpe... — murmurou sentida — Eu só não poderia voltar para casa sem nada, não me deixariam dormir do lado de dentro se eu não levasse pelo menos vinte dólares. Ainda tem os gatinhos, eu tenho quase certeza de que ela não deixará eu ficar com eles mas eu simplesmente não conseguiria viver sabendo que deixei os bichinhos inocentes na rua, sozinhos, com frio e fome. — concluiu ela.

O brilho nos olhos dela, a bondade, a pureza que exalava por sua face, era algo raro e único na vida cheia de maldade de Lázzaro na qual um queria passar por cima do outro não se importando com mais nada além de si mesmos.

Lia Hamilton era para ele, além de linda e delicada, também boa e pura, não via maldade, malícia em nenhuma parte dela. Nada que pudesse fazê-lo recriminá-la. Se viu surpreendido pela garota e quase sentiu naquele momento que poderia confiar nela.

— Seus pais seriam capazes de deixar você do lado de fora por causa de dinheiro? — indagou.

— Minha tia. Eu moro com ela e meus três primos. — respondeu ela.

— E seus pais? — a curiosidade era insolente para ele que não conseguia evitar fazer perguntas.

— Não os tenho... — Lia deu uma fungada segurando o choro, soluçando inevitavelmente.

Não sentia-se pronta para falar sobre aquela dor que era tão intensa quanto no dia que acontecera. A aflição em sua voz fez o coração de Lázzaro apertar-se, e nunca apertava por alguém além dele mesmo, no entanto percebeu que ela não queria falar sobre aquilo.

— De qualquer forma, tome cuidado da próxima vez.

— Obrigada. — ela mordeu o lábio e suspirou - Bom, eu já vou... E muito obrigada novamente. — deu seu mais sincero e puro sorriso.

Ainda assim, uma dúvida martelava dentro de sua mente, claro que não queria criar ilusões impossíveis, não era tola, mas não hesitou em parar e perguntar.

— Se me permite, o que o senhor estava fazendo por aqui? Mora perto?

— Estava dando uma volta quando vi você, e não, eu não moro perto. — respondeu ele com a sombrancelha arqueada — O que? Pensa que eu estava seguindo-a? Que vim até aqui por sua causa? — soltou uma risada incrédula e Lia se retraiu sentindo uma pontada no peito esquerdo.

Também não precisava dar gargalhadas.

— Não, é claro que não. — tratou de contornar a situação.

— Que bom, porque isso não faz o menor sentido. — a jovem se sentiu ofendida e engoliu uma saliva dolorosa.

— Exatamente, por que você viria atrás de alguém como eu, não é mesmo? — o timbre ferido não deixou escapar a tristeza.

Sempre era tratada com indiferença pelas pessoas, olhares de nojo e maliciosos, contudo estranhemente ela se sentiu intensamente abatida pelo comentário de Lázzaro. Como se o que ele pensasse, fosse importante para ela.

— Exatamente. — ela apenas se virou sem dizer nenhuma palavra a mais. Já era o bastante, não precisava de mais humilhação.

Se pondo a caminhar para longe, a menina foi para casa com a imagem do rosto encantador mas também as palavras rudes de Lázzaro martelando em sua cabeça. Sentia-se péssima, mais do que qualquer outro dia.

Era como se ele dá mesma forma intensa que fizera se sentir mais cedo quando cuidou de seu machucado, também fosse capaz de destruir seu coração com apenas uma palavra. O que não fazia o menor sentindo para ela já que havia o conhecido a poucas horas.

Mas, naquela noite o sofrimento de Lia estava apenas começando.

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