Capítulo 6: Christopher Nikoláus
Tédio.
Posso dizer que nada mais domina meu corpo que isso.
Pling... pling... presto atenção na constante e repetitiva goteira da torneira sem conseguir não relacionar essa simples gota de água com minha vida. Igual... Igual... todo dia igual ao anterior.
Sem poder envelhecer, pois ainda não achei uma companheira para me dar um herdeiro, minha vida se resume a essa estagnação eterna.
Enquanto relaxo na minha banheira, delicio-me com a garrafa de vinho na minha mão, bebendo do gargalo mesmo, afinal, é sempre inteligente poupar louça suja.
Também seria mais inteligente comprar esse discurso imaturo de que sou machão e não quero me agarrar a ninguém, mas a verdade é que eu anseio calor humano, não carnal mas emocional, alguém pra me aquecer e ocupar essa solidão que me consome.
Tenho me pego cada vez mais pensando em crianças, casamento e não consigo me decepcionar por ainda não ter encontrado a pessoa certa.
Fico descontente ao beber o último gole do meu Gasillero del diablo e sinto meu estômago revirar por causa do estômago vazio.
Melhor, fome eu consigo resolver.
Saio da banheira fazendo toda água escorrer pelo meu corpo e me enrolo na toalha.
Desço para comer algo na cozinha, vendo Dona – filha da falecida mulher que tomava conta da casa, quem a mantenho por respeito porque se fosse por eficiência...
- Um sanduíche, por favor. – peço já sentando na bancada que fica de frente para a cozinha.
Ela olha para mim sorrindo de lado, com os olhos azuis brilhando de malícia. Vira de costa para pegar algo na geladeira e quando se abaixa não consigo desviar o olhar de sua bundinha arrebitada em seu short – que só a deixa mais gostosa.
Coloca os ingredientes na bancada e começa a montar o sanduíche. Não deixo de notar sua tentativa de atrair meu olhar nos seus peitos toda vez que ela se inclina na bancada e eles quase saltam de seu decote. Grandes, redondos...
- Vai querer sobremesa hoje? – pergunta, lambendo o lábio inferior e finalmente ergo o rosto para olhá-la nos olhos.
Apesar de sua sugestão tentadora, checo o relógio e percebo que estou atrasado, responsabilidade em primeiro lugar.
- Não dessa vez. – lanço uma piscada, pego meu sanduíche e o como enquanto subo as escadas para meu quarto sentindo seu olhar quente sobre meu corpo.
Quando termino de me vestir vou ao escritório para resolver o conflito entre as alcateias Lua Nova e Palavras Minguantes, as duas são de Portugal e estão tendo sérios problema em respeitar o limite territorial um do outro. Típico.
Alguém bate na porta e sinto o cheiro do meu beta Ryan, mando-o entrar apontando para se sentar na cadeira a minha frente.
- Temos uma intrusa vampira no nosso território – arrasta na minha direção o arquivo que imagino ter as demandas semanais de cada alcateia - acho melhor ensina-la uma lição sobre isto...
Ele faz cara de nojo, aumentando as rugas ao redor dos olhos e depois põe as mãos na nuca de forma descontraída. Suspiro tentando guardar bem fundo meu desgosto por ele.
Às vezes me pergunto se pensa que é o meu amigo, porque se for está completamente enganado.
Não fui eu que o escolhi como beta, o infeliz apenas matou o meu anterior depois de instiga-lo a batalha, o que na minha lei, o mais forte ganha o posto do mais fraco...
- Me leva a ela – levanto, já indo em direção a porta para acabar logo com isso.
Vamos ao esconderijo no porão, no qual tivemos que levantar o tapete que esconde a porta para chegarmos onde colocamos nossos prisioneiros – escondidos, longe da vista de todos.
Olho ao redor vendo o quão sujo é, goteiras no canto direito, mofo nos cantos da parede e manchas de sangue por todo lado. O corredor de parede escura é iluminado pelas lâmpadas embutidas, o que evita o ar obscuro desse lugar.
À minha direta há a única prisioneira desse lugar, acorrentada e chorando encolhida no canto do quarto. Abro a portar com as chaves que ficam na parede ao lado – mas longe o suficiente para ela não alcançar.
- Então vampirinha, diga-me sobre o infeliz do seu rei que a mandou para cá. - Levanto seu rosto pequeno fazendo-a olhar em meus olhos.
Terror é o que domina sua face. Ela aparenta ter uns vinte anos, mas nunca dá pra confiar na idade de um vampiro, seu rosto em formato de coração quase me faz sentir culpado por deixa-la nesse local precário mas basta lembrar o que é pra por mais forças em minha mão no seu queixo.
- E-eu ju-juro que não sei de nada, apenas acordei com presas sem saber onde estava! – gagueja e seus pequenos olhos puxados tremem.
Dou um soco na parede ao seu lado, fazendo com que ela fique com uma expressão mais assustada, comprimindo o rosto e fechado os olhos com força.
Miro Ryan ao ouvir o som frenético do telefone dele tocar e a deixo de lado para ouvir o que há.
- Sim... Faremos o possível... Com certeza... – saio da sela com desinteresse, parece que vampiros atacaram uma alcateia, mas do nada um alvoroço do outro lado da linha, e uma voz distinguível toma conta de meus ouvidos, fazendo meu coração que achava não ter mais vida, bater freneticamente e então toda minha atenção está voltada na conversa - Espero sim...
Ryan faz cara de impaciente e ouço coisas como: "- O QUE ACONTECEU COMIGO?! O ASSUNTO AQUI NÃO SOU EU NÃO, SÃO OS IRRESPONSÁVEIS QUE VEJO NA MINHA FRENTE!" sua voz é suave e ao mesmo tempo capaz de fazer sentir-me culpado mesmo que não seja comigo que ela esteja gritando. "IMBECIL METIDO A BESTA!" meu beta rosna por causa do que foi dito a ele, dando vontade de arrancar sua cabeça pela agressividade direcionada a ela, além do mais, mentira não é.
"POR CAUSA DISSO! ESSES CARAS NEM ESTÃO PREOCUPADOS CONOSCO, POIS SE ESTIVESSEM ESTARIAM AQUI" Okay. Agora me sinto incomodado por ela supor que não me importo com meu povo.
Mas não é o que importa agora, pela primeira vez sinto algo reviver dentro de mim e, se não for um sinal de que finalmente encontrei minha companheira preciso no mínimo checar pessoalmente.
- Entendo que sua filha esteja de mau humor... - diz Ryan.
Tiro brutalmente o celular do seu rosto ouvindo um protesto mas ignoro enquanto uma porta é fechada com muita força do outro lado do telefone.
- Estamos indo para aí - digo ansioso por finalmente ter esperança de que não mais ficarei sozinho...
