4 O Recrutamento
Jacob abriu os olhos com muita dificuldade e ouvia as sirenes dos bombeiros e das ambulâncias ao longe. Ele sentia um líquido quente escorrer por sua testa e seu corpo doía demais. Os sons ao redor era como se o mesmo estivesse debaixo d´água, ouvindo as pessoas conversando na superfície. Foi quando sentiu alguém o segurar.
— Ei, Jacob. Você está bem? Agente Morris, precisa ficar acordado, entendeu? Não deve dormir em hipótese alguma. — um homem, aparentemente um médico, o instruía. — Leve-o para baixo e limpe seus ferimentos. No hospital a gente faz um exame mais detalhado! — falou instruindo aparentemente um enfermeiro.
Ainda zonzo e carregado por outras pessoas, Jacob tentava assimilar o que estava acontecendo, já que a explosão foi muito forte. O enfermeiro o pôs sentado na parte de trás da ambulância e fez limpeza nos ferimentos, foi aí que o agente começou a se dar conta do que realmente aconteceu.
— Meu Deus, o que foi que aconteceu aqui? — ele perguntou, porém, ao mexer a cabeça, sentiu uma forte dor.
— A explosão deve ter gerado uma amnésia temporária no senhor. Ela foi muito forte, teve sorte de sair vivo! — disse o enfermeiro.
— Desgraçado...
— Como é? — perguntou o enfermeiro.
— Como ele explodiu aquela maldita bomba? Ele estava imobilizado, eu vi, eu mesmo atirei no pulso dele. — comentou indignado. — Onde está o Richard? — o jovem olhou para o agente. — Richard Johson, o agente Johnson, onde ele está?
— Talvez o senhor devesse perguntar a um oficial. Mas somente depois que... Afff.
A reação do jovem enfermeiro se deu por conta de Jacob ter saído da ambulância sem terminar o curativo. O agente saiu em busca de seu amigo, mas ao ver o estrago provocado pela explosão, seu coração disparou. Pedaços de corpos ainda estavam pelo chão e parte do edifício que ficava em frente ao que ele estava, havia ido pelos ares. Então se lembrou do momento exato quando o artefato explosivo foi detonado. Jacob ouviu um agente do esquadrão antibomba alertar da explosão e um clarão envolver o homem, em seguida um clarão ainda mais forte, juntamente com uma onda de choque, quebrou todas as vidraças que havia ali por perto. Jacob escapou por que a mesma onda de choque que o empurrou para trás, também empurrou uma mesa de madeira e impediu o mesmo de ser incinerado vivo. Ele então se aproximou de um comandante da agência de inteligência para qual trabalhava.
— Jacob. Graças a Deus você está vivo! — disse o homem com certa alegria.
— O que foi que houve, Tom? Eu não entendo como isso foi acontecer. — indagou o agente.
— Ninguém entende! — respondeu o comandante. — Perece que havia uma segunda pessoa envolvida e essa mesma pessoa detonou a bomba remotamente. Também descobrimos que aquela não era a única bomba existente aqui!
— Havia outra? — perguntou Jacob, pressionando uma gaze contra o ferimento em sua testa. — Como eu pude ser tão burro? O cara claramente estava avisando isso e eu não pensei nessa parte!
— Não se culpe. De qualquer forma isso teria acontecido, pois ao imobilizar o homem, o detonador iria acioná-la mesmo assim. Agora vá se cuidar, você está ferido e precisa de cuidados!
— Ah, Tom! — o comandante virou-se novamente para o agente. — Onde está o Richard.
— Ah, Jay, eu sinto muito...
— O que? O que aconteceu? Cadê o Richard?
***
No centro de reabilitação onde estava sendo mantida, Briana soube de muitas coisas a respeito de sua condição. Ela era muito habilidosa e o fato de ter lido diversos livros a ajudou a se tornar ainda mais inteligente. David mostrou a ela como as pessoas citadas anteriormente por ele, conseguiram alcançar seus feitos. Ele também contou que muitas mulheres foram levadas à fogueira durante a inquisição na idade média, por serem portadora da mesma habilidade que ela.
— Mas você me disse que talvez eu fosse a 11ª pessoa com esse dom. Por que existiram mais, agora? — questionou a garota.
— Por que, pelos relatos estudados, você faz parte dos 11 que possui essa habilidade em sua forma mais intensa. Quando é que vai perceber que você é especial, Briana? — respondeu o major. — Agora me deixa realizar um pequeno treinamento com você.
— Que treinamento?
— Você deve aprender a controlar aquilo que ouve em sua mente, saber ouvir apenas o pensamento que você quer ouvir e isolar todos os outros. — o homem sinalizou para que os cientistas entrassem na sala. Em seguida pediu que todos começassem a pensar.
Briana olhava para os rostos de cada um e começava a se apavorar. Uns a achavam linda, outros diziam que ela não era apita e que logo sairia dali de volta para o hospício e outros, que ela jamais sairia dali para o mundo lá fora. Briana começou a chorar e pôs novamente as mãos nos ouvidos, mas David colocou as mãos sobre os ombros da garota e pediu que olhasse para ele, mas o homem não o disse com a boca.
“Briana, ouça apenas a mim, entendeu”? Ele falava com ela por telepatia. “Lembre-se do que você é. Você pode, Briana. Concentre-se em mim, concentre-se na minha voz. Isole todas as outras e ouça apenas o silêncio em sua mente, eu sou a sua única saída, Briana, olhe apenas para mim, ouça apenas a mim”!
A jovem então se lembra do sonho e recorda que a voz que ouviu era a de David. Ela então se concentra no homem e todas as outras vozes começa a desaparecer, até que nem mesmo a voz de David era ouvida por ela. Briana olha para David e abre um sorriso.
— Eu consegui. Obrigada! — ela o agradeceu e em seguida o abraçou, pegando o homem de surpresa.
***
No hospital, Jacob chegou desesperado por notícias do amigo, já que o que foi informado por Tom, era um tanto inconsistente. Ele seguiu pelos corredores e ao chegar na UTI, Jacob perguntou ao médico a espeito do estado de saúde de Richard. O médico aponta para o local onde Richard estava e Jacob não conseguiu se segurar.
— Não! — proferiu ele, deixando a emoção tomar conta.
Richard se encontrava em estado grave, sua aparência não era nada boa, então, o médico relatou qual a sua real situação.
— Lamento, mas o senhor O´Conel sofreu amputações na perna direita e no braço esquerdo, no momento da explosão. Ele também sofreu queimaduras de terceiro grau por todo o corpo. — o médico falou, se compadecendo da dor de Jacob. —Se ele se recuperar, vai enfrentar diversos problemas, além das sequelas pulmonares.
Com o rosto ensanguentado e a roupa chamuscada pela explosão, Jacob saiu correndo do hospital. Ao chegar na porta, ele gritou o mais alto que podia, fazendo com que todos olhassem para ele, mas perceberam que seu grito foi de dor, a dor de ver alguém tão querido, naquele estado. Palavras não saíram da boca de Jacob, mas em seus pensamentos ele jurou que pegaria o responsável e não teria nenhuma clemência.
***
Briana treinava suas habilidades mentais e se sobressaía a cada dia. Ela adivinhava quais figuras as pessoas seguravam e também praticava exercícios regularmente. Até que um dia, David resolveu fazer algo diferente. Como John era perito em muaitai, ele sugeriu uma luta entre o mesmo e Briana. A garota disse ser um absurdo, pois jamais conseguiria vencer John, mas o major afirmou se tratar em Briana prever os movimentos de John e nada mais.
Os dois entraram no ringue e a jovem tremia ao ver o tamanho e o porte físico do tenente. Eles começaram a lutar e John começou a bater de leve nas luvas de Briana. Ele não falava, só pensava, mas a garota estava tão apavorada que não conseguia ouvir os pensamentos do homem à sua frente. Foi então que John acerta um golpe de leve, mas suficientemente forte, para fazê-la cair. O golpe foi no estômago da jovem, ela se levanta e tenta sair o mais depressa possível dali, mas Dave a encoraja a retornar.
— Ouça, Briana, você precisa fazer isso. Precisa aprender a prever o que ele vai fazer antes mesmo que o faça. Agora vai...
Briana entrou para o ringue e depois de alguns movimentos de John, a jovem consegue ouvir os pensamentos dele. Eram todos muito rápidos e confusos, mas ela conseguiu isolar um no que ele pretendia atacar ela com um soco no rosto, Briana então se abaixou se esquivando do golpe e em seguida acertou John na altura do queixo, David vibrou. Mas a jovem não gostou e saiu dali correndo. O Major a seguiu e de forma brusca a segurou.
— Ouça, Briana. O que pensa que está fazendo? — perguntou o Major. — Você acha que com essas atitudes vai conseguir alguma coisa?
— O que pensa que está fazendo, é você! — exclamou se soltando do homem. — O que pretende fazer comigo? E onde estão os meus pais? Eu quero ver os meus pais agora!
David levou as mãos à cintura e virou as costas para a jovem, ele ergueu a cabeça olhando para o teto como quem quisesse dizer algo, mas não sabia por onde começar.
— Está escondendo alguma coisa de mim, Major? — perguntou ela, desconfiada. — Se sim, é melhor começar a abrir o bico. — começou. David sentiu que a garota tentava invadir sua mente.
— Briana, eu evitei te contar esse tempo todo, mas... infelizmente os seus pais não estão mais entre os vivos. — aquilo foi o mesmo que despejar água fervente sobre a cabeça da jovem, Wellen prosseguiu. — Quando você começou a apresentar os primeiros sinais de melhora, seus pais receberam a notícia e foram para o hospital, mas no meio do caminho aconteceu o pior. Eles sofreram um acidente e ambos não resistiram.
Sem nada responder, Briana saiu correndo da presença de David. John ainda tentou se colocar à frente para impedi-la de sair, mas o Major fez sinal para que a deixasse, ela merecia ficar sozinha naquele momento. Briana correu por vários metros longe da estrutura de onde se encontrava até que acabou tropeçando e caindo no meio entre o capim. A jovem lamentou a morte de seus pais e sua dor era expressada através de gritos e gemidos, David e John acompanharam apenas de longe. Eles ficaram emocionados e apesar de serem durões, ambos suspiraram ao ver a pobre garota naquele estado.
***
Três meses se passaram e Briana seguia em seu treinamento até que notou alguém diferente no complexo, ela tentou acompanhar, mas sempre que se aproximava, um emaranhado de pensamentos invadia a sua cabeça. Ela ainda não estava preparada para se concentrar em apenas uma pessoa sem que David não estivesse a seu lado. Então Briana saiu e os homens continuaram a conversar.
*
— A situação está cada vez mais apertada, Major e já temos a confirmação de que a sua garota é quem sempre procuramos. — relatou Tom.
— Ela é sim, mas ainda há muito o que se fazer. — David reverberou. — Ela ainda não está pronta para realizar quais quer que sejam as tarefas designadas a ela, por mais simples que fossem. — concluiu cruzando os braços.
— Você não me entendeu, Major! — exclamou o comandante. — Há exatos cinco dias nós sofremos mais um atentado terrível que custou a vida de três agentes, um está gravemente ferido e não sabe se escapa e mais de dez civis foram mortos. Lamento, David, mas não podemos esperar mais. Nós a queremos agora!
David fechou os olhos e quando abriu, avistou Briana do outro lado da vidraça brincando com um jogo de baralho, a jovem olhou de volta para o militar, mas não podia ler seus pensamentos já que o mesmo desenvolvera a habilidade de bloqueá-los.
— Está bem, Thomas, eu irei levá-la à ANIS, mas vão ter que esperar até amanhã, preciso prepará-la antes...
***
No dia seguinte bem cedo, David foi até os aposentos de Briana, ela já estava pronta, pois havia sido avisada de que iria a um lugar importante no dia seguinte.
— Estou pronta. Aonde vamos? — perguntou curiosa.
— Você logo vai saber. Talvez nunca mais retorne para este lugar, por tanto, se tem algo daqui que queira levar com você, a hora é agora. — comunicou o Major com um ar sorridente.
Briana também sorriu e respondeu que não havia nada além da paisagem que carregaria pelo resto da vida em sua mente. Ela entrou no carro e David foi dirigindo, a moça notou que não demorou muito tempo e já estavam em Londres, lugar onde tudo poderia acontecer a partir dali. Eles estacionaram em frente a um edifício grande onde pessoas iam e vinham, todos parecendo mais com robôs. Briana começou a ficar apavorada com todos aqueles pensamentos gritando em sua cabeça, então ela virou as costas para o edifício, fazendo menção em retornar ao carro, mas logo foi abraçada por David que a amparou.
— Não precisa ter medo, olha pra mim. — falou tendo o rosto da jovem entre as duas mãos. — Não precisa ter medo. Você está segura aqui, acompanhe-me e vai ficar tudo bem.
Eles entraram no edifício e ao olhar para trás, a garota vê um jovem pegar o carro do Major e leva-lo ao estacionamento do prédio. Eles tomaram um elevador que os levou até o último andar, cada ação de David era minunciosamente decorada por Briana, ela não queria ser pega de surpresa, mas se fosse, saberia como escapar dali. O Major Wellen também notava que estava sendo constantemente observado, mas fazia de contas não estar vendo nada, apenas ria de forma moderada. Para chegar ao local pretendido, David precisou fazer várias ações e uma delas foi colocar o olho em um painel com reconhecimento ocular, a moça observava tudo. “Isso vai ser um problema”. Pensou ela. “Se eu precisar escapar, não poderei por causa dessa coisa”. Finalmente eles chegaram ao destino. Uma sala no último andar do prédio, de cima se podia observar uma distância considerável da cidade.
— Então é ela? — perguntou um oficial.
— É ela sim. — respondeu Thomas. — Apesar desse rosto de menina, ela é muito valiosa e promissora também.
David observava tudo e Briana começou a ficar nervosa.
— Espero que ela seja realmente tudo o que você nos mostrou em seu relatório, Major Wellen. — disse o Coronel James Hur, o oficial a fazer a primeira pergunta.
— Ela é de longe o meu melhor projeto, Coronel, não estaria aqui se não o fosse! — respondeu David, com firmeza.
Um dos seguranças que estavam ali, começou a se aproximar de Briana, ele deu a entender que iria agarrá-la.
— David! — gritou ela.
— Calma, Briana, ele só vai conduzi-la até outro lugar. — o Major tentou acalmá-la. — Você pode ajudar muita gente, Briana, só precisa ler os pensamentos de algumas pessoas que queremos que você interrogue. Por favor, fique calma!
Briana acabou perdendo a concentração e começou a ouvir os pensamentos de todos ali. Thomas dizia que não confiava nela enquanto James achava que ela não passava de um experimento fracassado. O segurança por sua vez, dizia que adoraria levá-la para a cama. A jovem ficou perto da porta e quando o segurança foi para agarrá-la, Briana previu os seus movimentos e se moveu para o lado fazendo-o se chocar contra a parede.
— Qual a combinação que abre essa porta? Não adianta, você acabou de pensar nela! — falou e em seguida digitou os números da combinação e saiu dali correndo.
— O que estão esperando? Vão atrás dela, anda! — exclamou Thomas.
— Escuta aqui, Coronel, pode continuar com esse seu teste, mas não ouse a machucá-la, entendeu?! — alertou David, Tom assentiu.
Briana saiu descendo as escadas correndo até que se deparou com a porta a qual precisava da identificação ocular. Os dois seguranças se aproximaram dela e a jovem previu que um deles iria saltar sobre ela para imobilizá-la, mas quando o mesmo finalmente fez o que pensou, Briana saltou para o lado e encostou o rosto do homem no leitor. Involuntariamente ele abriu os olhos e consequentemente, a porta também. Ela então saiu correndo do prédio e ali começou a ouvir os pensamentos de todo a sua volta. O esforço para se concentrar foi demasiado grande, mas ela conseguiu sair dali e chegar até um ponto de ônibus. Pegou o primeiro que vinha passando, mas avistou de longe os dois seguranças da ANIS se aproximando, a sorte foi que o ônibus deu a partida, mas eles ainda bateram na porta xingando por tê-la perdido.
***
Na sede da ANIS, David questionava Thomas pelo que ele estava tentando fazer com Briana, foi quando receberam a ligação de um dos guardas avisando que haviam perdido o rastro dela.
— Okay, a brincadeira acabou. — disse David. — Espalhe seus homens por toda a cidade, eu mesmo vou ajudar nas buscas!
David desceu as escadas, mas tomou a ala da direita, passando pelo centro de investigações. Jacob olhou para ele e notou que algo estava acontecendo ali e não era coisa boa. Mas também não se deu trabalho de perguntar, pois estava ocupado com o caso dos atentados a bomba.
***
Em um grande terminal ao Sul de Londres, Briana se sentia perdida e sem rumo, na verdade, ela mesmo nessa situação, foi quando decidiu fazer uma ligação.
— Alô. Connor, é você, meu irmão?
“Briana? Briana, minha irmã! Meu Deus, onde você está”?
