2 Prisão sem muros
Os anos foram se passando. Mais precisamente, 5 anos e Briana seguia no mesmo estado, hora sentada em um sofá com as pernas encolhidas, hora deitada em sua cama estreita de hospital. O local para onde foi levada era bom, pessoas compreensivas cuidavam dos pacientes e os pais dela a visitavam sempre. Seu pai começou a beber e a trair sua mãe com outras mulheres, ele caiu em desgosto pelo que aconteceu com sua filha. Connor se formou, ele ficou entre os três melhores alunos da faculdade e há pouco tempo se casou com uma colega de classe, Stacy. Briana havia perdido tudo isso, sua vida passava e ela não podia aproveitar nada daquilo. Mas depois da formatura de Connor, seus pais conseguiram retomar o casamento e fizeram as pazes.
— Nenhuma melhora, doutor? — perguntou Joe, enquanto olhava a garota deitada no sofá e com os és encolhidos.
— Lamento, nenhuma melhora. É um caso raro, isso eu posso dizer. Podemos estar diante de um novo tipo de esquizofrenia ou transtorno. O máximo que podemos fazer é estudá-la. — respondeu um dos médicos responsáveis pelo quadro clínico de Briana.
*
Todos os que encostavam perto para tentar algum contato, era logo repreendido por ela. A garota mal comia e bebia água, mas isso era apenas por instinto de seu corpo, comer, beber e fazer necessidades fisiológicas, ela mais parecia um robô cumprindo funções, mas em sua mente, aquelas vozes perturbadoras não se calavam a hora em volto ela chorava e se tremia, mas logo em seguida se calava tapando os ouvidos com as duas mãos. Aquilo cortava o coração até dos médicos que a assistia.
Mas certo dia, Briana observou atentamente um baralho sobre a mesa. Numa tentativa de estimular uma reação diferente na jovem, o médico o pôs ali. Mesmo com as vozes ecoando em sua cabeça, Briana caminhou até a mesa e pegou o baralho, ela então começou a colocar as cartas viradas para cima e trocá-las de lugar e aquilo a deixou em um estado de concentração do qual ela acabou esquecendo as vozes. Aquilo era bom e Briana sorriu por não mais ouvi-las. Percebendo isso, o médico mandou que colocassem jogos onde a jovem pudesse se concentrar, era o primeiro avanço que tiveram com ela em 5 anos.
— Veja como ela está mais calma, Dr. — com alegria, uma enfermeira comentou.
— Sim. E vamos relatar isso agora mesmo, aos pais dela. — o jovem médico respondeu. Para ele, aquilo foi como ganhar milhões em uma aposta.
***
Três dias se passaram, Briana seguia concentrada em seus jogos, mantendo a sua mente sempre ocupada, foi quando seu irmão Connor, entrou no quarto onde ela estava para dar uma triste notícia.
— Briana, eu preciso te falar uma coisa. — chorando ele olhou para ela. — Briana, por favor, olha pra mim. — insistiu, mas a jovem seguia com as cartas de baralho nas mãos. O médico observava tudo. — Por favor, BRIANA!
Ele gritou e puxou seu braço. Mas a garota apenas olhou zangada para o irmão.
— ME DEIXE, Connor...
— Briana, o papai e mamãe... eles morreram. — o rapaz deu a notícia chorando. — Você me ouviu, Briana. Eles morreram, os nossos pais. Eles sofreram um acidente de carro quando estavam vindo para cá, para ver você!
Mas Briana permanecia com as cartas, ela estava concentrada nelas, era aquilo que a mantinha livre das vozes que tanto a atormentou durante anos e agora, agora ela podia usufruir do silêncio que tanto lhe trazia paz. Connor se levantou e saiu de perto da irmã.
— E então, como ela reagiu? — perguntou o médico, que observava os dois de longe.
— Não reagiu. Sinceramente, doutor, não tem mais nada para eu fazer aqui. — respondeu o rapaz, desolado. — Minha irmã já não existe mais. Eu vou continuar arcando com tudo, mas... deixo ela suas mãos.
Connor saiu pela porta do hospital e aquele dia foi o último em que pisara os pés ali, Briana agora estava, além de indefesa, sozinha. Seu único parente a havia abandonado e a bondade dos outros era tudo com o que podia contar.
***
Três longos anos se passaram, alguns médicos foram remanejados para outro hospital psiquiátrico, inclusive o jovem Dr. Michael Spencer, aquele que cuidou de Briana durante cinco longos anos. Outros exercícios foram incorporados na agenda da garota, ela agora estava com 24 anos, idade em que já deveria estar formada e com um bom emprego. Mas não ela continuava em sua prisão sem muros e sem saber o que se passava no mundo lá fora. Em seus novos passa tempo estavam a leitura, corridas matinais e nos finais de tarde. Ela até parecia uma pessoa normal enquanto estava com amente ocupada. Lester, o médico substituto de Michael, a estudava com frequência e enviava os dados para o laboratório de pesquisas de uma universidade, mas eles tratavam tudo como um caso raro de esquizofrenia conforme havia deduzido Spencer. Até que um dia, em dada manhã, um grupo diferente chegou ao hospital, eles eram militares, mas Lester não sabia dizer de qual órgão eles eram.
— Dr. Tem uns homens do exército aí fora e disseram que vieram para falar com o senhor. — relatou uma enfermeira, ela aprecia nervosa.
— É eu os vi através da janela. Pode deixar, eu vou atendê-los.
— Dr. Eles perguntaram se Briana Carter está internada aqui. O que poderiam querer com ela? — novamente perguntou a enfermeira.
— Não sei, Cinthia, mas já vamos descobrir...
Os oficiais estavam em três, dois homens e uma mulher, sendo que todos trajavam uniformes das forças armadas. A mulher era alta, morena e com uma cara de poucos amigos. Um dos homens era negro, aparência bem formada e as muitas medalhas em seu uniforme indicava que era alguém de alta patente. O outro homem era loiro, sua altura se sobressaía aos demais. Ele caminhava sempre entre a mulher e o outro homem. Por onde os três passavam, eles eram observados por todos os que estavam nos corredores do hospital que dava acesso à sala de Lester, que também era diretor da entidade. Eles entraram na sala, onde receberam os cumprimentos do médico.
— Sejam bem-vindos, senhores e senhora. Em que posso ajuda-los?
— Dr. Edmond Lester, eu serei franco e objetivo. — disse o homem loiro, estendendo a mão ao médico. — Gostaríamos de ver a paciente Briana Carter. Será que poderia nos levar até ela?
***
Bem longe dali, na Capital britânica, um agente da inteligência do exército dirigia para o trabalho. Seu nome, Jacob Morris. Ele havia sido dispensado do exército após atos indisciplinados, mas por ser um dos melhores peritos em investigação ao terrorismo, foi readmitido como agente especial da divisão antiterrorista do Reino Unido. Moreno e com 1.80m, ele ostenta um corpo atlético e um belo par de olhos azuis, cabelos negros, lisos e arrepiados no topo devido ao corte social militar. Nas horas vagas ele gosta de frequentar boates e casas de massagens, Jacob não é um homem que curte compromissos sérios. Com 34 anos, ele nunca se casou e afirma não querer fazer isso tão cedo.
Ele chega no trabalho, estaciona sua SUV no estacionamento que fica abaixo do prédio onde está situado o Centro de Inteligência do Exército, em seguida sobre de elevador até o andar onde fica sua mesa de trabalho.
— Chegou atrasado, Morris. — um colega o questiona. — O que houve? A vadia decepcionou de novo? — riu com deboche.
— Ah, nem me fale. — resmungou sentando-se em frente ao computador. — Acredita que eu levei uma mulher a quem conheci no bar, para o meu apartamento e na hora H ela deu pra trás?!
— Fala sério, cara! — o colega sorriu. — E quem era ela? Sabe pelo menos o nome? — perguntou. — Pois com você é só “vamos lá neném, senta em cima de mim e rebola”. Dois segundos depois você já nem sabe se transou com alguém.
— Fazer o que, né? Eu sou assim. — confirmou abrindo os braços e colocando as mãos na nuca. Todos riram de sua desenvoltura. — Mas, e aí. Alguma notícia sobre o atentado em Westminster?
— Sinto em dizer que não, nenhuma. Apenas que o Kelbi —Jacob estranha o nome e o gesticula com a boca — está em estado grave. Ele perdeu uma das pernas e vários dedos das mãos. Jay, eu acho que ele não vai conseguir nos dar nada por agora.
— Fala sério. Dez mortos, dezesseis feridos e a única pessoa que pode nos dizer alguma coisa, está em coma na UTI. — Jacob suspirou profundamente. — Eu só espero que aconteça um milagre.
— Espere aí. Milagre? — o colega estranhou.
— Sim, por que apenas algo fora do normal é que pode fazer com que a gente desmonte essa célula, Richard. — respondeu, debruçando-se e encarando o amigo.
***
No hospital, Lester questionou os oficiais e sob quais ordens eles agiam.
— Dr. Lester, perdoe-me por não me por não apresentar. Sou o major David Wellen, médico especializado em psiquiatria e neurologia, do exército britânico. — o oficial se apresentou, estendendo a mão.
— É um prazer. Mas a que devemos a honra de sua visita? — perguntou o diretor do hospital.
— Como disse, gostaria muito de ver a senhorita Carter.
— Major, a senhorita Carter uma paciente...
Antes que o médico prosseguisse, Wellen o interrompe.
— Já estou por dentro de tudo, Dr. O caso da senhorita Carter é raro e está muito além da compreensão da psiquiatria comum, por isso comunico que vamos leva-la daqui. — revelou o oficial.
— Mas senhor. O senhor não pode fazer isso. Essa moça se encontra num estágio de intensa fragilidade...
— Dr. Eu acho que o senhor foi quem não entendeu. — o oficial o encarou. — A senhorita Carter já não é mais sua paciente, ela foi requisitada pelo exército real e agora é responsabilidade nossa. Além de que não há absolutamente ninguém da família que poderia nos impedir, já que o único irmão abriu mão dela. Agora, leve-me até Briana Carter agora mesmo.
Se ter como contestar, o médico conduziu o oficial até ala onde Briana estava internada. Ele entrou e ali estava ela, com suas cartas de baralhos nas mãos e concentrada para não ouvir as vozes.
— Você acha que ela é...
— Eu não acho, John, eu tenho certeza. — o major respondeu ao tenente ao seu lado.
— E por que você tem tanta certeza de que essa mulher possa ser quem procuramos. — novamente perguntou o tenente.
— Desde o início do século 20 que monitoramos pessoas em potencial e ela é o caso mais promissor a ser quem procuramos. Vamos levá-la daqui...
