1 O início – Briana
Era manhã de sábado, dia da prova de atletismo e Briana acordou de mais um de seus pesadelos. O mesmo corredor e o mesmo homem sem rosto que a chamava, mas que ela não tinha coragem de ir até ele. Ela desceu até a cozinha onde seu irmão estava e com ele tomou o seu café.
— Acordou tarde hoje. O que aconteceu? Você sempre pula da cama cedo, ainda mais hoje. — perguntou Connor, estranhando a irmã ter demorado a se levantar.
— Tive aquele sonho horroroso outra vez. — respondeu colocando café na xícara. — Sempre que tenho esses sonhos eu acordo meio cansada. Sei lá, é como se algo sugasse as minhas energias.
Sua mãe que ouvia tudo, entrou na conversa dos irmãos.
— Acho melhor a gente conversar com o Freeman, ele é o psicólogo do seu pai há anos, vai saber ajudar. — sugeriu Karina.
— Ah, não, mamãe?! O tio Freeman não vai saber me ajudar. Ele é um velho e tudo o que vai me dizer é para deixar o vídeo game de lado. — retrucou a garota. — Coisa que eu não vou fazer.
— É, você sabe mesmo o que é bom, não mesmo, irmãzinha? — Connor comentou sorrindo.
— Talvez não fosse uma má ideia, sempre quando não estão estudando, estão grudados naquela coisa.
Jor chegou, mas logo teve de sair, ele tinha que resolver um assunto pendente na empresa, mas prometeu que acompanharia Briana ao baile, mesmo a garota esperneado e dizendo que já não era mais uma criança.
♥
Faltavam pouco mais de uma hora para início da prova e Briana estava divinamente preparada. O estádio estava lotado e seus pais e irmão a observava da arquibancada. A companheira de equipe que estava ao seu lado observava a miga, igualmente empolgada.
— E aí, como eu estou? — perguntou ela a Marcy, sua melhor amiga.
— Como sempre, pronta para vencer. Depois disso, tenho certeza que o Troy vai querer ficar com você! — a garota respondeu, empolgada.
— Sua boba, eu já disse que não quero nada com o Troy. Mas eu também quero estar bonita depois que essa prova acabar. — respondeu dando uma risadinha. — Se bem que o Troy é um gatinho.
— Deixa o seu pai saber disso. Ademais nessas festas os garotos só querem uma coisa. Mas eu desejo que você se divirta muito, okay? — disse a amiga.
Logo em seguida, Troy apareceu e acenou para Briana, ele quase caiu de costas ao ver o quão bela Briana estava. O rapaz, loiro e de cabelos cacheados, quase babou diante da morena, mas o pai da moça acabou por estragar os planos do garoto.
— Grahann. — fez um som limpando a garganta. — O que está olhando tanto, garoto?
— Senhor Carter! — gaguejou. — Eu só vim torcer pela Bri!
— Torcer, né? Está certo. — disse o homem. — Mas já vou logo avisando, nada de namoricos depois da prova, vocês são duas crianças!
— Pode deixar, senhor Carter!
Troy sentou-se ao lado da família de Briana e ali começaram a torcer pela garota. Troy era dois anos mais velho que Briana e por isso seu pai procurava ter bastante cuidado com ele, mas no fundo, sabia que o garoto era boa pessoa. A prova seguia e todos ali vibravam a cada volta dada pelas competidoras. Briana conseguiu chegar entre as três primeiras, ela não conseguiu a tão sonhada vitória, mas seus pais disseram que ela ainda iria competir muitas vezes.
***
Depois de serem entregues os troféus, uma pequena comemoração aconteceu no ginásio do colégio. Troy chamou Briana para dançar, mas ela recusou-se por não saber nem sequer mudar os passos em uma pista de dança.
— Qual é, Bri? A gente veio para se divertir e você não quer dançar? — em tom de cobrança, Troy perguntou.
— É que eu não quero te fazer passar vexame, Troy. É sério, eu sou um desastre na dança. — comentou, Troy olhou para ela e sorriu.
— Está bem, eu vou ficar aqui e te fazer companhia, okay?
— Uhumm. Vou adorar ter você aqui comigo...
Os dois ficaram sentados à mesa e Troy colocou a sua cadeira bem próxima à da de Briana, a jovem já sabia que o garoto estava afim dela, mas queria ser difícil para ele, porém, achava o garoto muito lindo. Perto das oito da noite, Troy convidou Briana para dar uma volta pelo jardim e ao chegar ali, ela notou que haviam outros casais de garotos que trocavam selinhos, outros já se beijam e alguns apenas conversavam e faziam planos para depois da festa.
— Está uma noite linda hoje, não é mesmo? — ele perguntou.
— Sim. A noite está maravilhosa. Não está tão fria e nem muito quente. — respondeu timidamente.
— Briana, eu ainda não tive a oportunidade de te dizer, mas... acontece é que eu sou muito a fim de você e não é de hoje. — Troy confessou, Briana abriu um sorriso. — Por é que te convidei para vir ao baile comigo.
Briana apenas olhou para Troy e os dois se aproximam. Ambos buscando os lábios um do outro, eles se entregam a um beijo singelo, quando Briana ouviu algo.
— O que? O que você falou? — ela perguntou deixando Troy confuso.
— Mas eu não disse nada. — respondeu de imediato. Novamente Briana ouviu outra voz.
— Troy. Quem é Tina? Do que você está falando? — ela mais uma vez perguntou.
— Tina? Eu não conheço nenhuma Tina, Briana. Que brincadeira é essa? — o rapaz começando a se irritar.
Briana olhou para o lado esquerdo, onde um casal estava se beijando e ouviu o homem dizer “Tina”, porém, não tinha como ouvir, já que os lábios estavam colados aos da moça. Então ela olhou para a direita e um rapaz que estava sozinho e olhando feio para dentro do ginásio, maldizia estar ali: “Ela me chamou aqui apenas para eu fazer papel de palhaço. Você me paga, Helena”! Mas os lábios do rapaz não se mexeram, então Briana começou a ouvir uma multidão de vozes em sua cabeça, ela olhava para todos os lados e era como se aquelas vozes a perseguissem. Vendo que a garota parecia estar apavorada, Troy ainda tentou acalmá-la, mas Briana saiu correndo para dentro do Ginásio e ali as coisas ficaram ainda piores.
— O que está acontecendo. O que está acontecendo comigo. SAIAM DA MINHA CABEÇA! — ela gritava caída de joelhos no chão. Ali Briana ouvia as pessoas dizendo sentir pena dela, outros riam, dizendo estava louca.
A comemoração foi interrompida e o diretor chamou os pais de Briana que a levaram para o hospital. Ela recebeu diversos sedativos para que se controlasse, pois era a única forma de fazê-la ficar mais calma.
*
Foram dias e noites perdidas pelos pais e pelo irmão de Briana, no hospital. Os médicos não sabiam o que realmente estava acontecendo com a garota e os exames mostravam que tudo estava bem com ela.
— Os exames não mostram nenhum quadro de esquizofrenia, ou, algum outro tipo de transtorno. Ela tem apresentado algum comportamento fora do normal, nos últimos dias? — perguntou o psiquiatra.
— Não. Espere — disse a mãe, parecendo se lembrar de algo. — Ela reclamou de ter tido alguns pesadelos há uns dias atrás.
— Que tipo de pesadelos? — inquiriu o médico, enquanto Briana permanecia deitada sobre a cama, sem conseguir se mover. — precisamos de todas as informações que puderem nos dar, pois esse caso é diferente de qualquer outro caso de esquizofrenia que eu já tratei.
Karina relatou que a filha reclamou de ter pesadelos com ela perdida em um corredor escuro e húmido, o outro, ela parecia estar sozinha e somente o irmão surgia como um flash em sua frente. Também falou do homem a quem tinha medo só de falar.
— É bem perturbador, mas esse tipo de sonho costuma ser comum em pessoas com quadro de síndrome do pânico. As pessoas sempre têm pesadelos em que as mesmas estão presas em algum lugar, ou, sendo perseguida por alguém. Há aqueles que costumam sonhar com os dois, mas nada que justifique isso. — comentou o médico.
— Então. O que o senhor sugere? O que devemos fazer? — aflito, Joe pergunta e olha para a filha ali, com os olhos inchados de tanto chorar e uma expressão de pavor que só dava trégua à base de muito tranquilizante. — Minha pobre filha, com apenas 13 anos.
— Eu sei que duro para você, mas vamos esperar alguns dias. Até lá, os medicamentos já terão feito efeito e ela com certeza voltará ao normal...
♥
Uma semana se passou e o quadro de Briana permanecia igual. Ela continuava ouvindo aquelas milhares de vozes em sua cabeça e por todos os lugares onde ia, elas estavam lá. Não davam trégua. Certo dia, no jardim da clínica onde estava internada, ela se atirou em um pequeno lago na tentativa de parar com aquelas vozes, não fossem os seguranças, teria se afogado, pois, apesar de pequeno, o lago era fundo o suficiente para que alguém que não soubesse nadar, se afogasse, o que era o caso de Briana. Por conta disso o médico responsável pelo tratamento dela, mandou que buscassem seus pais imediatamente.
— O que houve, doutor? Alguma melhora? — os dois perguntaram aflitos e ao mesmo tempo.
— Sinto muito, senhor e senhora Carter. Mas a Briana não apresentou nenhuma melhora diante do tratamento, pelo contrário, ela parece estar piorando a cada dia.
Joe começou a chorar e Karina o abraça, também com lágrimas nos olhos.
— Minha filha, minha filhinha, tão jovem. Como pôde acontecer uma tragedia dessa? Como? — ele chorava desolado. — O que vamos fazer agora? O que pode ser feito pela minha filha, doutor?
— Aqui já não se pode fazer mais nada. Eu sugiro que ela seja internada em um hospital psiquiátrico até que se recupere, pois o problema está parecendo que só poderá ser tratado a longo prazo. — respondeu o médico, sentindo muita pena dos pais. — Eu também tenho uma filha adolescente e sei o que devem estar passando.
— Quer dizer, um hospício? Quer que mandemos nossa filha para um hospício, Dr.? — perguntou Karina. Ela então se desespera e é amparada por Joe.
— Não vejo outra solução. Mas não se trata de um hospício e sim um local de repouso onde ela vai poder ser tratada com toda a atenção do mundo. Eu mesmo indicarei um que é maravilhoso e os médicos lá são muito bons.
— Então, não teremos outra escolha. Mas o que será da minha filha? O que será dela? — foram as palavras de Joe...
